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agosto 22, 2004
Graffitis - Um conto da LibeLua

G R A F F I T I
Na terra esquecida dos dias sem cor, a malta fica à solta por entre os prédios, vadiando entre a pedra encardida e falsamente rosa. Em tempos costumava avistar-se um rapaz ali pelas escadinhas do Lote 193 na Rua Projectada à Rua C. Parecia sem vida, ele próprio pedra entre pedras, sentado em muda contemplação da cidade nova, aquela onde as pessoas só iam e continuam a ir na vã esperança de descansar os ossos, após longas permanências no trânsito.
O garoto costumava fitar aquele feio muro, resto de uma das quintarolas antigas, dos tempos em que o paraíso ainda morava ali. Branco ainda, perfeito na sua ruína iminente. Levava ali uma beca de tempo só a olhar... Podiam passar as damas sorridentes nos seus corpitos de deusas do futuro, que ele não lhes deitava um olhar que se visse. Simplesmente preso na teia suburbana, uma espécie de melancolia de ser e mais ainda, de estar.
Mas um dia, farto de ver os outros putos a passar com bicicletas, velozes skates, ou os manos com pesadas radiolas, gingando o corpo em largas vestes, (o Eminem ecoando nos prédios), o rapazito levantou-se com brusquidão e rumou ao barracão do pai, no esconso bairro velho.
Na escuridão reinante, atinge-o um halo de humidade pútrida, aquele cheiro que associa à recente vida na terra nova que o resgatou. Remove caixas e caixotes, revira a lataria, até encontrar o que quer.
Ao sair, leva já nos olhos uma luz só por si vista e nas mãos a urgência da intenção por cumprir. Abarca a parede, como quem a quer furar, abrindo uma brecha de imensidão. Refreia porém o gesto, fecha o saco, recolhe o spray, esconde os pincéis, alarga o olhar pelos prédios, em mudo perfil cúmplice e põe-se em vigilante espera, o sol bué d'alto, uma kota a estender roupa, a claridade escondida nas nuvens.
Imagina as cores, o recorte, o movimento ondeante, desenha o enquadramento, os olhos presos na acção suspensa, ébrio de horizontes infinitos.
Antes da noite chegar, o muro já não é uma velha recordação do passado. O rapazinho ainda lá está, quedo, absorto e sentado. Mas agora contempla o verde e o amarelo da sua terra, o vermelho do sol suspenso no horizonte, uma explosão de cores, e a densa canícula afastando a humidade dos lugares, onde só a desolação penetra...
Ao despertar do seu sonho de luz, o rapazinho estendeu a mão para acariciar o ninho da sua memória colectiva, o ninho que lhe corria nas veias, os pássaros que lhe povoavam memórias de leituras e histórias contadas pelo pai. Mas nas suas mãos apenas um bocado de asfalto, esboroado, frio e cortante, como a desilusão de se saber desperto. Levantou-se tenso e dorido, a humidade da noite já lhe tolhia a perna e a alma, mas apenas a desilusão lhe doía retalhando-o com a voz dos sentidos ludibriados. Na terra quente do seu país havia melros, havia árvores sem idade, grandiosas árvores cobertas de passarada e de silêncio. Havia luz e calor e uma vastidão sem limites. A sua terra não cabia no espaço de um graffiti, nem o som dos pássaros esquecidos e agora revistados faziam parte da luxuriante monda de cores. Na sua mãos, um bocado de asfalto, alcatrão esboroado, como a esperança que se desfizera, quebrada pela visão daquele exército de betão e mil olhos de luz, casas e janelas diminutas onde agoniza a palavra viver. Carregando consigo a nostalgia dos pássaros, atirou com o pedaço de alcatrão à janela mais próxima. E nenhum pássaro esvoaçou com medo ao som do estilhaçar dos vidros. Nenhum pássaro se lia escrito no crepúsculo, onde as únicas silhuetas de árvores eram uns pouco promissores eucaliptos, furando a selva urbanizada.
Ao longe, um grito de mãe chama o seu nome e só então sorriu, como se ouvisse de novo o chilrear do entardecer por entre os freixos. Ecoando pelos prédios, com sabor a lírio adejando ao vento, aquela voz pareceu-lhe a mais bela balada urbana de todos os tempos...
Publicado por ognid às agosto 22, 2004 01:44 AM
Comentários
OrCa, obrigado pelo teu comentário. Mas os elogios devem ser dirigidos à Sara porque a beleza está na estória que ela esceveu. Abraço.
Publicado por: ognid em agosto 25, 2004 11:46 PM
Também por lá comentei e aqui venho agora. Talvez a hora já seja avançada, mas vale a intenção. À Sara/LibeLua disse: LibeLua, repetindo-me, excelente texto. Colorido como um graffiti, sólido como a parede que o sustenta, do tamanho do sonho do rapaz que não quer que a sua vida sejam apenas muros cinzentos. Lançaste as cores nostálgicas do passado como um grito de vida para o futuro. E, vendo bem, é só isso que nos faz falta.
Sabendo que a imagem sugeriu o texto, o que fica dito para a mãe estende-se à paternidade. Boa e profíqua colaboração. Aplausos, com um abraço.
Publicado por: OrCa em agosto 25, 2004 12:13 AM
Lique, também gostei muito do conto da Sara. É lindo. bjks
Publicado por: ognid em agosto 22, 2004 10:57 PM
E pronto já comentei lá e cá estou eu a comentar aqui. Acho que devem continuar com a colaboração. O texto da Sara está belo e consegue dar poesia aos bairros degradados. E há sempre a forma como ela faz o apelo às cores de África. Belíssimo! beijinhos
Publicado por: lique em agosto 22, 2004 02:16 PM