« Foto Catedral | Entrada | Edição para coleccionadores »

outubro 10, 2004

Minas de Jales

cavalete-jales-3

cavalete-jales-2

cavalete-jales-1

Das minas de Jales, junto a Quintã de Jales, Vila Pouca de Aguiar, eram extraídos essencialmente o ouro e a prata. Foram exploradas desde o tempo dos Romanos tendo sido desactivadas em 1992. A descida da cotação do ouro, a baixa produtividade e a degradação de equipamentos levaram a esse desfecho. A entrada para a mina era feita por este cavalete que manobrava dois elevadores no Poço de Santa Bárbara com 620 metros de profundidade. Esta estrutura (conhecida localmente como a Torre Eiffel de Jales) e a enorme (e altamente poluente) escombreira vizinha onde foram lançados os estéreis da mina (calcula-se que cerca de 5 milhões de toneladas) são tudo o que resta de uma das mais importantes estruturas mineiras de Portugal. Calcula-se que o filão ainda existente seja de grande importância tendo existido algumas manifestações de interesse na retoma da exploração por parte de empresas estrangeiras.

E assim termina a lição de hoje :)

Estas são fotografias feitas durante uma estadia em Trás-os-Montes na Páscoa e de que temos vindo a publicar de vez em quando algumas das muitas que trouxemos.

----------------------

Vão descalços os homens
e na alcofa levam pão endurecido
tal como as suas mãos
endurecidas e escuras..
através dos seus olhos
cegos de tanta escuridão
trazem o brilho aos outros homens
áqueles a quem não falta o pão.

Um obrigado à Myryan por este poema :)

---------------------

Porque nos parece de extremo interesse para este assunto e por partir de alguém muito bem informado, juntamos o comentário deixado pela Manuela:

"Dessa exploração ainda restam muitas marcas. As de maior impacte são as que os nossos olhos não podem ver.
A escombreira, por exemplo, é altamente poluidora. O pH das águas que por lá passam é de tal modo ácido que se pode igualar a uma lexivía "das fortes"... quando se visitam estes locais é preciso fazê-lo de roupa velha e botas fortes. Para não termos pena de estragar roupa boa... por isto podem avaliar que tipo de vida se pode desenvolver nestas linhas de água, que planta resiste, que agricultura é possível... etc, etc, etc..."

"Esqueci de dizer... será que vale a pena ir explorar o filão, mesmo que ele seja suficientemente rico?
Por mim, os impactes ambientais são de tal modo negativos que não valem a exploração económica."

---------------------

Parece que este post tocou cordas sensíveis que, sinceramente, não esperávamos. E mostrou coincidências curiosas, como se verá de seguida. O OrCa deixou-nos estes dois comentários que nos perturbaram - o primeiro por partilhar recordações (e as tais coincidências) de tempos difíceis e extremamente duros desconhecidos de praticamente todos nós ou dos quais temos apenas uma vaga ideia, e que não são assim tão distantes; o segundo por ser um poema/hino/homenagem aos homens que nestas minas trabalharam, sofreram e morreram. Ao OrCa o nosso agradecimento e um grande abraço.


"Depois do meu comentário no 'post' anterior, vir até aqui e ouvir falar de Vila Pouca de Aguiar... terra da minha mãe, deixa-me à beira da perplexidade.

Das minas, que dizer mais? Da brutal silicose que matou incontáveis trabalhadores e arrastou para a miséria as famílias totalmente dependentes, num tempo sem subsídios, nem segurança social?

Famílias de ranchadas de filhos, que assistiam à morte do "chefe da família", com os pulmões desfeitos, numa agonia lenta sem qualquer apoio ou mitigação...

Talvez haja quem não goste, mas esta realidade, há quarenta anos, era assim, sem tirar nem pôr... E nem sei se há dela história escrita.

É útil esta tua evocação, para que a nossa memória colectiva se fortaleça. E as tuas belas imagens documentam, talvez, o monumento possível àqueles homens que, para riqueza dos outros, deram a sua vida e a dos seus."

Das minas de Jales

Das minas de Jales
São de ouro e de prata
Os corações dos homens
São os metais frios
Que roubam e matam
O riso das gentes

Das minas de Jales
Parte o rio imenso
Fundido na terra
Dos homens sem nome
Que tiram da terra
O ouro e a prata
E deixam o sangue

Das minas de Jales
Do ouro e da prata
Ficou só o vento
E até dessa terra
Morta e esventrada
Tolhida e deserta
Mal se ouve o lamento.

Jorge Castro

Publicado por ognid às outubro 10, 2004 01:00 AM

Comentários

ei!Ogniiiiiiiiid!!!! tou aqui de biquinhos de pé!!! vês-me?!!! ERA SÓ PARA DIZER que não tenho tempooooooooooo!!!!!!!!!help!! e era para dizer (ouves nesta confusão?!!)que gosto destas fotos, que gosto de minas e... (ouves?!!!!!!!) que tinha saudades mas...o tempo....e...olha!! em 99 todo o meu escrever desapareceu, foi, cri, então, roubado e agora o mesmo deu em aparecer (obra de anjo?!) por aqui postado!
Vá Ognid eu tou arebentar pelas costuras...terei que me organizar que não tenho pedalada para tanto blog!!!Beijos à Imatta!

Publicado por: seila em outubro 12, 2004 01:00 AM

A todos sem excepção queremos agradecer (eu e a lmatta porque as fotos são dos dois) os comentários que aqui deixaram e que nos enchem de vontade para continuarmos a fazer o melhor que sabemos e que o tempo nos vai deixando. Pedimos desculpa por não respondermos a cada um individualmente mas o tempo não deixa. Em especial queremos agradecer à Myryan (vê lá se reconsideras ;) ), à Manuela e ao OrCa pelos contributos que deram e que enriqueceram muito o post. Beijinhos e abraços.

Publicado por: ognid [TypeKey Profile Page] em outubro 12, 2004 12:49 AM

Magníficas participações!
Como um post bom se torna melhor ainda?!
Engraçada a forma como cada um acrescenta nova perspectiva, como sequências sob o mesmo mote, mas apontando para imagens diferentes! É desta arte de comunicação q eu gosto!
Parabéns!

Publicado por: MJM em outubro 12, 2004 12:15 AM

Fiquei com vontade de vestir roupa velha dar um passeio até lá. Lindas as fotos. Beijos :)

Publicado por: betty em outubro 11, 2004 11:37 PM

Ognid..além das tuas belísimas fotos
tenho aqui..uma aula de história!!
Minas são assustadoras para mim..
(Desde que fiz uma matéria sobre elas.
Eram minas de carvão..)
Imagino um exército, negro, vingador, brotando dos sulcos da terra....
Homens que nunca viam a luz do sol e
morriam muito cedo voltariam para vingar-se
dos exploradores!!
Viajei.. rss!!
bjos do lado de cá!!

Publicado por: em outubro 11, 2004 10:30 PM

Adoro sepia. Adorei as fotografias. São belas. Apenas uma pequena nostalgia, talvez mórbida, dos tempos que já não são... Bj

Publicado por: Penelope em outubro 11, 2004 07:31 PM

Ognid, retornei porque ando há que tempos para te colocar uma questão: O teu blog 'Catedral' [...] pagas alguma quantia para o teres hospedado no Weblog.com.pt ? Pergunto isto devido ao tamanho das imagens que colocas. Ainda não vi até hoje outro servidor que permitisse um tamanho desses [...] No sapo, por exemplo, só permitem uma imagem 420/340, se não me engano, acho que é este o tamanho. Gostava que respondesses com uma certa urgência ... podes colocar a resposta no meu mural, no Balrog se fizeres o obséquio. Abraço e até já.

Publicado por: Mentis em outubro 11, 2004 07:12 PM

Realmente, este espaço é revelador de um carácter didáctico e de uma expansão atroz [...] Cada vez que nele mergulho revejo-me a vir à superfície carregado de iguarias desconhecidas. Sempre ao sabor de um bom foco de interesse. Abraço.

Publicado por: Mentis em outubro 11, 2004 03:06 PM

Belissimas fotos de uma realidade que eu desconhecia

Publicado por: amnésia em outubro 11, 2004 12:08 PM

gosto particularmente da última :-)

Publicado por: ilheu em outubro 11, 2004 11:08 AM

Para além da Beleza das fotos, obrigada por reavivares a memória a tanta gente.

É tão fácil esquecer como alguns ganhavam, outros ainda ganham, o pão escuro que os filhos esperam/vam com ansiedade SE o pai voltasse da mina.

Um abraço.
Boa semana.

Publicado por: Mocho em outubro 11, 2004 09:24 AM

Depois do comentário anterior, "saltou-me a veia":

Das minas de Jales

Das minas de Jales
São de ouro e de prata
Os corações dos homens
São os metais frios
Que roubam e matam
O riso das gentes

Das minas de Jales
Parte o rio imenso
Fundido na terra
Dos homens sem nome
Que tiram da terra
O ouro e a prata
E deixam o sangue

Das minas de Jales
Do ouro e da prata
Ficou só o vento
E até dessa terra
Morta e esventrada
Tolhida e deserta
Mal se ouve o lamento.

- Jorge Castro

(A culpa é das vossas imagens... eu cá até estava sossegado.)

Publicado por: OrCa em outubro 11, 2004 12:14 AM

Depois do meu comentário no 'post' anterior, vir até aqui e ouvir falar de Vila Pouca de Aguiar... terra da minha mãe, deixa-me à beira da perplexidade.

Das minas, que dizer mais? Da brutal silicose que matou incontáveis trabalhadores e arrastou para a miséria as famílias totalmente dependentes, num tempo sem subsídios, nem segurança social?

Famílias de ranchadas de filhos, que assistiam à morte do "chefe da família", com os pulmões desfeitos, numa agonia lenta sem qualquer apoio ou mitigação...

Talvez haja quem não goste, mas esta realidade, há quarenta anos, era assim, sem tirar nem pôr... E nem sei se há dela história escrita.

É útil esta tua evocação, para que a nossa memória colectiva se fortaleça. E as tuas belas imagens documentam, talvez, o monumento possível àqueles homens que, para riqueza dos outros, deram a sua vida e a dos seus.

Publicado por: OrCa em outubro 10, 2004 11:52 PM

As fotos dão-nos exactamente o ar de algo perdido no tempo. O poema de Myryan e a explicação da manuela completam na perfeição. Beijinhos

Publicado por: lique em outubro 10, 2004 11:42 PM

excelente arquitectura
um abraço

Publicado por: jpc em outubro 10, 2004 11:31 PM

As Minas de Jales deveriam tornar-se num museu. Um museu do sofrimento milenar pela sede do ouro.
Beijos

Publicado por: henrique doria em outubro 10, 2004 11:23 PM


Ficou aí uma frase fantasma no meu comentário... Era o início do texto, que depois recusei e... não apaguei... embora percorrendo o vosso blog tivesse realmente ficado com uma forte impressão desse mar que já (tanto) me falta...

"Nadei neste mar em ondas, mergulhei nas ondas..."

Publicado por: deSaraComAmor em outubro 10, 2004 10:33 PM


Há esta maresia aflita no entardecer, estas gaivotas gritando o fim do dia, esta luz que rasga as ópticas e nos retém em película a voz do tempo, o suor negro das minas, o ventre rasgado da terra e o ferro contorcido na neblina.
Esta é a Catedral onde a imagem fala, desespera e nos fascina...

Beijinhos a ambos. Saudades muitas, após mais uma das minhas ausências. Obrigada.

Nadei neste mar em ondas, mergulhei nas ondas

Publicado por: deSaraComAmor em outubro 10, 2004 10:29 PM

Belas fotos, Ognid. Como é habitual. Belas palavras/poesia da Myryan.
Como achei muito a propósito o comentário da Manuela
Abraço, semana daquelas :-)

Publicado por: yardbird em outubro 10, 2004 10:00 PM


BELAS FOTOS ,de um lugar assustador !(defeito meu,metem medo as minas)

Publicado por: annie hall em outubro 10, 2004 08:57 PM

Errata: onde se lê "captastes" dever-se-á ler "captaste"!!!- Baaah !! :((( **

Publicado por: M.P. em outubro 10, 2004 08:50 PM

Toda esta estrutura metálica remeteu-me para Eifel, Ognid! Captaste uma sectorização de áreas feita por aços que, imagino cor de ferrugem ou calcinados pelas condições atmosféricas ou outros e que foram obra do suor de muitos que ali passaram grande parte das suas vidas a esventrar terras ricas de filões que aguçam a ambição de muitos e que levam a tanta destruição. Mas... com esses filões também se fazem obras de arte. Desse suor que gotejou e adubou o solo por aí, nasceram estas estruturas metálicas com ambição de modelo de Arte e que capatastes nestes momentos esteticamente perfeitos! :)**

Publicado por: M.P. em outubro 10, 2004 06:07 PM

Gostei muito.
Das imagens q sugerem palavras e das palavras q sugerem imagens.
Gosto de me sentir assim. Thks & kisses

Publicado por: MJM em outubro 10, 2004 04:52 PM

Grandiosas estas últimas fotos. O poema é lindíssimo, cheio de humanismo. Um beijo aos dois :-)

Publicado por: LolaViola em outubro 10, 2004 03:37 PM

Escqueci de dizer... será que vale a pena ir explorar o filão, mesmo que ele seja suficientemente rico?
Por mim, os impactes ambientais são de tal modo negativos que não valem a exploração económica.

Publicado por: M. (de Manuela) em outubro 10, 2004 02:18 PM

Dessa exploração ainda restam muitas marcas. As de maior impacte são as que os nossos olhos não podem ver.
A escombreira, por exemplo, é altamente poluidora. O pH das águas que por lá passam é de tal modo ácido que se pode igualar a uma lexivía "das fortes"... quando se visitam estes locais é preciso fazê-lo de roupa velha e botas fortes. Para não termos pena de estragar roupa boa... por isto podem avaliar que tipo de vida se pode desenvolver nestas linhas de água, que planta resiste, que agricultura é possível... etc, etc, etc...

Publicado por: M. (de Manuela) em outubro 10, 2004 02:15 PM

Ah esse tom sépia do que já não se usa...
Belíssimas :-)
Beijo para os dois

Publicado por: inconformada em outubro 10, 2004 01:21 PM

Ainda agora acabei de postar sobre o que irão ter as gerações vindouras de garantia para o equilibrio das suas contas públicas face a toda esta alienação patrimonial que temos vindo a assistir. Com esta pequena lição sobre as minas de Jales já fico mais tranquilo porque eles vão ter esta hipotese de recurso. A reactivação destas minas para exploração de ouro. Fico à espera da 2ª. lição.

Publicado por: congeminações em outubro 10, 2004 01:11 PM

Fotos magnificas de estruturas que pertencerão à história como sendo da "escravatura" do homem.Quantas pessoas não terão caído?Parabéns.

Publicado por: Agostinho em outubro 10, 2004 02:34 AM

Vão descalços os homens

e na alcofa levam pão endurecido

tal como as suas mãos

endurecidas e escuras..

através dos seus olhos

cegos de tanta escuridão

trazem o brilho aos outros homens

áqueles a quem não falta o pão.
(e brilha-me sempre o olhar quando aqui entro. As fotos de carcavelos estão tão bonitas que acho que pediste licença á natureza para roubares um pedaço dela. Um abraço)

Publicado por: myryan em outubro 10, 2004 01:12 AM

Estas fotografias deixaram-me sem fôlego. Até parece que subi aquela escadaria...
Parabéns!:)

Publicado por: objectiva3 em outubro 10, 2004 12:43 AM

Mais uma paisagem criada pelo homem...

Publicado por: polittikus em outubro 10, 2004 12:00 AM

Da Páscoa até agora com essas fotos na «gaveta»??
Imperdoável...
:)

Saudações

Publicado por: Carriço em outubro 9, 2004 11:22 PM

Espectaculares estas 3 fotos, principalmente a 1ª, (contando de cima para baixo). Dá para pensar como era a vida das pessoas que lá trabalhavam e fica em suspense, se de facto há lá algum filão que aventureiros vão buscar:-) E hoje mais uma vez fizeram história:) beijos para os dois:-)***

Publicado por: wind em outubro 9, 2004 11:01 PM