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novembro 22, 2004

Carta a um filho

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Ricardo

Não te pergunto se estás bem, pois sei que estás, sinto-o.

Como há sempre uma primeira vez na vida, venho dar-te os parabéns.

Vinte e seis anos. Já se passou tanto tempo mas tenho a impressão que não. Tenho às vezes aqueles flashes - recordações de ti pequenino vestido de amarelo clarinho. De te ir fazer visitas curtas, aquelas que eu podia… e recordo-me tanto e tanto.

Quando te tive de deixar na Cruz Vermelha tive uma dor que não consigo sequer explicar ou descrever. E pensei “COMO HÁ MÃES QUE OS ABANDONAM? “ Não sei. Só sei que parecia que alguma parte de mim tinha ficado naquela clínica, que o cordão ainda não estava totalmente cortado.

Quando naquela noite o telefone tocou e a tua Avó foi atender tive, não sei porquê nem como, um aperto, uma dor. Soube o que se tinha passado.

A família e os amigos, para que me sentisse melhor disseram-me milhões de vezes que passaria, que era melhor assim, que isto e que aquilo. Mas não é isso que se quer ouvir numa situação como aquela. Naquela situação não se quer ouvir nada. Não se aceita esse tipo de opiniões, mesmo que, mais tarde, reconheçamos que estavam certas nalgumas coisas. Mas a dor, essa nunca passa e aí as pessoas estavam erradas.

Sei que, nalgum tempo e nalgum lugar, nos iremos encontrar todos.

Beijinhos.

Mãe

Publicado por ognid às novembro 22, 2004 12:18 AM