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dezembro 17, 2004

Caminheira

velha com bengala

velha com bengala

Antes de colocar aqui os poemas, belos, que nos deixaram, quero confessar que estas fotografias foram das que, na minha vida, senti maiores dificuldades em fazer. Só tirei três fotos. A partir daí não consegui tirar mais. Não por qualquer motivo exterior a mim próprio. A senhora andava com extrema dificuldade, muito lentamente, e eu estava à distância no separador central da avenida. À vontade portanto. Mas porque senti que estava a invadir agressivamente o espaço da senhora e a violar a sua vida, a sua privacidade e até a sua dignidade. Que suponho ser o pouco que lhe resta. Foi doloroso. E tive de parar. Aqui, ao preparar as fotos, assaltaram-me as dúvidas sobre se deveria editar ou não. Publiquei. Mas as dúvidas mantém-se.

Da Maria Branco:

Adoro esse mapa que se vem gravando no teu corpo,
Essa textura de uma vida que soubeste partilhar,
Esse testemunho de que viveste para o tempo,
De um tempo que por ti passou e marcou,
No qual foste espectadora e intérprete.
Quisera reduzir-me ao ínfimo ser
Para poder percorrer os montes e vales no teu rosto
E ouvir os ecos das histórias que viveste.
Quero aprender contigo o saber que és...

Da Seilá:

mulheres dessa ...das cidades
sós
mulheres geradoras
tantas
desfilam como fantasmas
nós
mulheres que nos retratam
sós
onde andamos
nós?!

Da Lique:

Na calçada da solidão
Não há bengala que ajude
Rugas são sulcos de dor
A vida fria nos dedos
Os olhos no pó do chão

Do OrCa:

Há uma ruga na face que prescruta
As cordas tensas da tua mão que mal sustentas
Dás um passo e depois outro
Lentamente
E o tempo pára em ti por um momento...

E na rua em que passas
Fica o vento
E tu passas lentamente contra o tempo
Nesse ai que mal se ouve
Esse lamento
Que nem sei já se é de ti
Ou se é do vento.

Da M.P.:

Curvada ao peso de metafísico fardo,
Percorre as ruas do Tempo embandeirado de ostentosa decoração.
Curvada ai peso de metafísico fardo,
trilha as vielas da vida que não Viveu.
Curvada ao peso de metafísico fardo,
apoia-se penosamente na bengala de ombro escasso
onde, apesar de tudo, carpe a lágrima acre que ainda consegue deixar cair pelo rosto encarcaquilhado de sépia antiga.
Curvada ao peso de metafísico fardo,
anseia pelo fim que lhe trará,
em fim o alívio da metafísica dor.
Então sim, entenderá porque existiu.

Da LolaViola:

Esta caminheira já cumpriu o seu caminho. Sinto-me voyeur dos seus passos, aproximo-me e sigo-a na sua lenta caminhada. Adivinho o cheiro ao entrar na casa velha onde mora há muitos anos, a gatos, a bolor, a urina, a mofo. Adivinho que guarda num armário com caruncho um velho vestido de noiva completamente amarelecido. Adivinho uma fotografia única onde repousa um retrato de um homem que foi seu. Adivinho-lhe a solidão. Fecho a porta da dor alheia. Ela fecha os olhos. Chega ao destino.
Fim.

Publicado por ognid às dezembro 17, 2004 02:35 AM

Comentários

perdoa as ausencias que esta vida anda uma correria. Escolhi este post para comentar porque para alem das fotos (no preto e branco )achei muito bonito o que escreveste o que sentiste. (e hoje tinha forçosamente que te comentar. Sonhei contigo e com a Imatta! ahahah isto lá é normal? agora ando a sonhar com quem nunca vi! não me perguntes o sonho que não me lembro, só sei que sonhei. Mas pronto tenho a desculpa de nem sempre ser igual aos demais :-) ) um beijinho para voçes e deixo-vos ja os votos de um feliz natal cheio de paz com aqueles que amam e muita saudinha que isso é que é preciso.

Publicado por: myryan em dezembro 20, 2004 02:11 PM

Lembrei-me da minha avó (falecida há 3 anos, com 84) que a certa altura ficou toda curvada... vieram-me lágrimas aos olhos... tenho tantas saudades dela, a mulher mais corajosa que já conheci, alguém que nunca baixou os braços, que sempre e em toda a adversidade mostrou um sorriso e conseguiu soltar uma das suas! Compreendo que não tenhas tido coragem de fotografar mais...

Publicado por: pandora em dezembro 19, 2004 04:18 PM

Eu não sei escrever poemas,não sei fazer prosas bonitas,mas depois de ver as fotos tinha de lhe deixar uma nota.Lisboa está cheia destas imagens,melhor dizendo, de pessoas destas que lhe deram esta imagem.A solidão dos velhos é tão terrivel que o ter feito a foto não foi uma invasão.Foi um olhar enternecido e talvez consciente do nada ou pouco poder fazer que todos sentimos.
Não tenha duvidas,mostrou a ponta de uma sociedade .Até para isso é preciso ter coragem.bj

Publicado por: annie hall em dezembro 19, 2004 08:21 AM

Só para pedir desculpa da falta de militância nas visitas mas o tempo tem sido muito curtinho.

Um abração do
Zecatelhado

Publicado por: Zecatelhado em dezembro 18, 2004 06:07 PM

Esta caminheira já cumpriu o seu caminho. Sinto-me voyeur dos seus passos, aproximo-me e sigo-a na sua lenta caminhada. Adivinho o cheiro ao entrar na casa velha onde mora há muitos anos, a gatos, a bolor, a urina, a mofo. Adivinho que guarda num armário com caruncho um velho vestido de noiva completamente amarelecido. Adivinho uma fotografia única onde repousa um retrato de um homem que foi seu. Adivinho-lhe a solidão. Fecho a porta da dor alheia. Ela fecha os olhos. Chega ao destino.
Fim.

Publicado por: LolaViola em dezembro 18, 2004 03:46 PM

bela imagem Heroi...lembrei me da minha avó qaul heroina caminhante na vida....

Publicado por: Luna [TypeKey Profile Page] em dezembro 18, 2004 03:11 PM

Curvada ao peso de metafísico fardo,
Percorre as ruas do Tempo embandeirado de ostentosa decoração.
Curvada ai peso de metafísico fardo,
trilha as vielas da vida que não Viveu.
Curvada ao peso de metafísico fardo,
apoia-se penosamente na bengala de ombro escasso
onde, apesar de tudo, carpe a lágrima acre que ainda consegue deixar cair pelo rosto encarcaquilhado de sépia antiga.
Curvada ao peso de metafísico fardo,
anseia pelo fim que lhe trará,
em fim o alívio da metafísica dor.
Então sim, entenderá porque existiu.
Um beijo e desejos de bom fim de semana!

Publicado por: M.P. em dezembro 18, 2004 01:47 PM

Há uma ruga na face que prescruta
As cordas tensas da tua mão que mal sustentas
Dás um passo e depois outro
Lentamente
E o tempo pára em ti por um momento...

E na rua em que passas
Fica o vento
E tu passas lentamente contra o tempo
Nesse ai que mal se ouve
Esse lamento
Que nem sei já se é de ti
Ou se é do vento.

Publicado por: OrCa em dezembro 18, 2004 12:50 AM

Boa, "Bin"!!!
Assim ninguem te apanha...

Publicado por: quimladen em dezembro 17, 2004 10:20 PM

Na calçada da solidão
Não há bengala que ajude
Rugas são sulcos de dor
A vida fria nos dedos
Os olhos no pó do chão

Beijinhos a todo o mundo, aí.

Publicado por: lique em dezembro 17, 2004 09:54 PM

Uma foto expressiva. gostei particularmente da entrada do prédio. Já sabes qual é a minha pancada... hehehehe

Publicado por: polittikus em dezembro 17, 2004 05:55 PM

Uma entrada principal com memória e uma vida cheia de memórias...Gostei! :))

Publicado por: objectiva3 em dezembro 17, 2004 03:47 PM

...e fiel, na sua fé! Jinhos, BShell

Publicado por: blueshell em dezembro 17, 2004 11:47 AM

Realmente...caminheira! Bjs, WB

Publicado por: whiteball em dezembro 17, 2004 11:46 AM

mulheres dessa ...das cidades
sós
mulheres geradoras
tantas
desfilam como fantasmas
nós
mulheres que nos retratam
sós
onde andamos
nós?!

(um beijo para vocês ... lacrimejado!)

Publicado por: seila em dezembro 17, 2004 10:12 AM

Duas fotos que me arrepiaram pela "Força", beleza divinal e pelo enquadramento entre o prédio antigo e a senhora idosa. Magníficas! beijos*

Publicado por: wind em dezembro 17, 2004 02:51 AM

Esta vossa magnifica fotografia trouxe-me estas palavras que um dia escrevi para uma velhinha que amo, e com quero aprender a vida...:

Adoro esse mapa que se vem gravando no teu corpo,
Essa textura de uma vida que soubeste partilhar,
Esse testemunho de que viveste para o tempo,
De um tempo que por ti passou e marcou,
No qual foste espectadora e intérprete.
Quisera reduzir-me ao ínfimo ser
Para poder percorrer os montes e vales no teu rosto
E ouvir os ecos das histórias que viveste.
Quero aprender contigo o saber que és...

Beijos aos dois!!

Publicado por: Maria Branco em dezembro 17, 2004 02:49 AM