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fevereiro 08, 2005

Sinfonia em Veneza

aventura em veneza


1º andamento

Que diabo faz um nobre veneziano parado na ponte dos Suspiros? Quem se mascara formalmente de “bauta”, “tabarro” e capa de seda, para ficar a contemplar as águas na esplendorosa noite de Carnaval? Eu, claro! Sou apenas um turista que poupou o ano inteiro para vir ver a mítica cidade de Columbina, e a verdade é que não sei como deixar de sê-lo, para passar a assumir a minha máscara. Vacilo nos gestos e na postura como se me tivessem enfiado um fato de monge. Claro que esta máscara é comum por aqui, mas carregada de simbolismo. Devia dar-me uma pica enorme, mas tudo que consigo é sentir-me um misterioso Pierrot que encara filosoficamente o mundo e os excessos carnais. Assim um sagaz cortesão que do alto da sua firmeza observa as misérias humanas que as máscaras escondem, a luxúria, a cobiça, a vaidade, mais do que aquilo que a lua revela, as pedras das igrejas, os canais, os velhos palácios e as suas torres. Mas, porra, penso. Para ficar a ver a vida passar, como uma solteirona sem par a ver o baile, mais valia ter ficado em casa. Na verdade, começo a sentir que gostaria mesmo é que algo acontecesse à minha volta para ficar assim com a ousadia dos cavaleiros que a coberto deste disfarce aguardavam um sinal de luz numa das janelas dos palácios para se introduzirem na alcova das amadas. Esquecer que sou apenas um turista desfasado e cair no turbilhão de uma paixão quinhentista que me cerque o coração por esquinas e travessas ao longo dos canais...
Sente-se o crescendo lento na sinfonia dos meus passos. A continuar assim, no final da ponte dos Suspiros haverá já em mim um Don Giovanni que quer experimentar uma descida aos infernos. Suspiro. Esta é certamente a ponte dos desejos. Tenho de me juntar à multidão para passar a fazer parte da euforia colectiva, ou estou tramado. Vejo um grupo de saltimbancos que se aproxima a rir. Vêm audazes e pigarreiros prontos a varrer à sua frente qualquer réstia de tristeza. Quero segui-los pois que os vejo mascarados por dentro e por fora. Vou. Daria como Fausto a alma ao demo para me transformar num Guidobaldo corajoso e salvar a doce Vanina na trança do vento. Sinto-me cada vez mais audaz à medida que a noite me guia para o mistério, num “allegro ma non tropo” ainda aprisionado na minha máscara de turista. Perto do Florian, os saltimbancos param. Um deles fala pelo telemóvel em italiano com alguém, os outros esperam. Ainda ninguém me estranhou, no meio da confusão de damas e senhores altaneiros, navegantes e pintores renascentistas. Eu decidi que os seguiria, na esperança que montassem ali mesmo uma genuína comedia dellarte. Mas não. Sentam-se no café à frente de umas míseras cervejas, como qualquer cidadão do novo milénio ao fim de um dia de trabalho, em qualquer cidade da Europa...

2º andamento

Perdido o encanto, dedico-me a observar o desfile enquanto a massa humana me quer arrastar para o centro desse rio de riso e cor. Mas eu sou uma ilha e estou preso nos meandros da lagoa. À minha volta emergem as águas escuras do canal e o som de mil vozes coloridas, cálidas, cristalinas, enquanto do céu chove esta poalha luminosa em tons de fantasia garrida. A lua é o único elemento sóbrio e silente neste cenário onde continuo mascarado de turista sob o meu fato de príncipe. Mas então, houve um instantâneo que me cegou, talvez um flash de uma foto, talvez um piscar de néon ou um mar de serpentinas sobre o candeeiro da rua. Cegou-me a luminosidade lunar da mulher que vejo avançar para o café. Caem confettis sobre os seus ombros de deusa e ela aparece, transparente como se viesse nua . Ela, uma borboleta no olhar e um corpo de cortesã feita para amar. Assim um sopro a passar com a leveza das pombas. Uma Columbina pronta a seduzir os admiradores, que se atravessassem galantes no seu caminho. Um dos saltimbancos faz jus ao radical latino da palavra Carnaval. “Carne vale”. E, se contam os prazeres da carne, vai de passar a mão na doce Columbina no sítio onde lhe pareceu que mais havia. E a estalada caiu como um golpe de florete na cara do folião. Columbina saiu deixando o saltimbanco a massajar o rosto no meio da risota geral. Quis segui-la. Perdi-a no meio da algazarra. Os saltimbancos permanecem entre tempos. Eu regresso enfim ao meu, apesar de nem sequer dele ter saído.
Ponho-me a caminho do hotel, prestes a tirar a máscara, no desalento de uma noite banal. Afinal sou a máscara de mim próprio e estou encarcerado nela.

3º andamento

Mas a noite emudeceu num virar de esquina e o tempo pareceu retrair-se como quando uma vaga se forma. Então, sob as colunas de São Todarro, um luar mais denso e... ela! A minha Columbina aguarda-me, sob a iluminação da rua, brilhando tanto a sua máscara de borboleta, como a hematite do seu olhar. Sou péssimo a falar línguas, qualquer uma, mas busco todas, alinhavo várias e as palavras saem como balas esperando alcançar o alvo do entendimento.
Gargalhada rasgando a noite como pio de coruja e a minha Columbina sai-se com esta proeza! Pergunta-me em bom português se quero segui-la. Se quero? A todo o lado, digo-lhe. Menos a igrejas, responde-me. Afinal és portuguesa? Talvez. Vamos. Guia-me nesta cidade lacustre. É esse o teu maior desejo? Sim. Pois seja!
Corremos na neblina, cercamos as colunas, jogamos os jogos do desejo. Enlaço-a, perco-a, encontro-a. Sou agora um cortesão perseguindo a minha dama nos labirintos do jardim da noite. Deixo de a ver, aparece-me no vão das vastas escadarias, ou no lugar onde nasce a escuridão e a sombra morre. Aí mesmo a cerco. Damos as mãos num compasso sereno e vamos sentar-nos perto da ponte de Rialto. Entre risos, o beijo ardente. Decido que esta ponte assinalará o último andamento da minha opereta. A posse. Tomo o seu corpo num ritmo “moderatto” sob as vestes. Percorrendo as longas pernas, sinto as ligas e num toque inesperado a carne quente e palpitante. Apalpo o sexo em fibra de cetim, e mergulho os meus dedos nesse canal de prazer. Ela suspira sob o meu tacto, enquanto com os dentes lhe arremesso o vestido, agora já num “allegro cantabile” quase frenético, e lhe descubro os seios ebúrneos completamente entumecidos de desejo. Arfamos como dois lobos num ritmo agora selvático que me enlouquece de desejo e ela que tão bem sabe trabalhar-me o membro, o grito preso na garganta a explosão prestes a tornar a noite branca e eu só penso, afinal vim a Veneza para comer uma columbina ao luar vestido de príncipe, mas com a tusa de um primata embrutecido. Sinto vontade de a virar para a tomar pelas ancas, mas ela antecipa-se e levanta o vestido abrindo para mim a caverna húmida do prazer. Cascatas de riso felino, e a minha ninfa senta-se descendo sobre o meu sexo, deslizando-me para dentro de si, o muco palpitante e quente que me suga para o interior da noite mítica e eu fauno enlouquecido de prazer escorrego para dentro da minha máscara e já não sei quem sou. E num meneio ousado das suas ancas, eis a explosão maior, desde que a última super nova se estilhaçou no longínquo firmamento. A sinfonia termina num “staccatto” lento e espasmódico quase interminável, naquele canal por onde agonizava a minha gôndola.

4º andamento

Meu Deus, disse e nada via pois a noite era um pontilhado de serpentinas luminosas. Mas assim que chamei Deus para testemunhar o prodígio, sinto-a que estremece sobre o meu peito. Apenas dei pelo relâmpago a estalar no céu de chumbo. Um sinal de fumo e a minha Columbina subia, subia, desfazendo-se em neblina, Os pés, rápido, apanhá-la ainda pelos pés que a quero minha. Mas nas minhas mãos ficaram os cascos bifurcados de uma cabra montanhesa, enquanto brilhava em queda a máscara de borboleta. Apanhei-a de encontro ao peito no alvoroço do fenómeno e foi então que dei por aquele cão negro que me fitava inexpressivo. Agora já não era o audacioso Don Giovanni, mas um Dante a regressar dos Infernos onde a minha Beatriz se havia desfeito em fumo. Fugi num “presto” galopante para tomar o primeiro “traghetti” que me levou dali para a realidade. Despertei no meu hotel, alagado em suor. O recepcionista da noite passada já voltara ao seu posto. Soube por ele que vários saltimbancos e uma columbina me tinham trazido ao hotel completamente ébrio. Nunca mais voltei a Veneza. E não me tem apetecido tomar cerveja.

Um conto da LibeLua a quem agradeço a oportunidade de retomar uma parceria em que tenho imenso gosto.

Publicado por ognid às fevereiro 8, 2005 12:05 PM

Comentários

Destas simbióticas aventuras, fica o espanto da imagem e a mestria da palavra. Ao lado, mesmo ao ladinho, fica a mestria da imagem e o espanto da palavra.

Se repararmos bem, por entre essa simetria, uma mariposa de magníficas cores acabou de levantar voo, mesmo à frente dos nossos olhos...

Publicado por: OrCa em fevereiro 10, 2005 10:54 PM


Pronto, acabou o Carnaval. No meio das cinzas ficou o gostinho da partilha e da obra feita. Muito bom. Obrigada por isso, Ognid. Já te agradeci lá nos Poemas de Chinelos. Faço-o aqui de novo e alargo os votos a todos que nos leram, quer se tenham manifestado ou não. Bem hajam!

Publicado por: LibeLua em fevereiro 9, 2005 10:00 PM

Fotografia esplendida e palavras a acompanhar...

Beijinho grande

Publicado por: Sónia em fevereiro 9, 2005 08:51 AM

as palavras ficaram-me enroladas nas letras numa mascarada de correria na noite fria e húmida e os olhos humedecem-se das cores...ficam-me as vossas palavras e cores a aconchegar-me esta noite de carnaval! a vossa benção!

Publicado por: seila em fevereiro 8, 2005 10:58 PM

SENSACIONAL Carne Vale em Sinfonia Azul de perdição!... Em parceria SUBLIME... :)**

Publicado por: M.P. em fevereiro 8, 2005 10:42 PM

Uauuu! Que 'carne vale"!
A foto, um assombro!
Kisses pra dois! E Thks pela viagem

Publicado por: MJM em fevereiro 8, 2005 05:30 PM

Sinceramente não sei por onde comece. Quando entrei a foto teve um impacto imediato. Cria um ambiente de mistério, de perdição na noite. E aquele azul! Excedeste-te, maninho. Estás a colocar a tua própria fasquia muito alta.
Depois, o conto que nos prende do princípio ao fim, com o inicial desencanto, o mistério, o erotismo intenso e um final inesperado. Parabéns, Libelua.
Na verdade, parabéns aos dois que conseguiram um post belíssimo, na atmosfera do Carnaval de Veneza (o único que queria conhecer). Beijinhos para ambos.

Publicado por: lique em fevereiro 8, 2005 03:21 PM

Um belo conto sobre o mais belo Carnaval do Mundo... para mim.

Publicado por: polittikus em fevereiro 8, 2005 02:01 PM