« Sinfonia em Veneza | Entrada | Depois da Guerra »

fevereiro 09, 2005

Vamos inventar a vida escritora?

banco jardim
Vamos conversar?

Tu levas o chapéu
eu as gangas, os camisolões.
Sentamo-nos no banco do jardim,
e falamos das vidas. Das nossas.
Do que perdemos, do que não ganhámos,
do que vivemos, do que deixámos de viver,
dos projectos que não realizámos.
Das demasiadas perdas.

Vamos sim, escritora!

Eu levo o chapéu e a máquina,
tu as gangas, os camisolões,
o bloco de notas e a caneta.
Sentamo-nos no banco do jardim,
e tu escreves das nossas vidas,
do que vamos ganhar, do que vamos viver,
dos projectos que vamos concretizar.
E eu fotografo a vida que tu inventas.


-----------------------------

Da LibeLua:

era ali
o lugar onde se ouvia
a voz dos objectos
havia o reflexo e o volume
havia a palavra ainda oculta
havia o brilho, a cor aflita,
a intensidade e a textura
da verdade ainda fria

havia a luz, a lente, o foco
e havia a palavra
havia o ângulo e o olhar
e havia a saturação da cor
nas coisas que aguardavam
uma forma de (se) dizer
na estória que tinham para
contar
era ali, sim o espaço e o momento
em que o silêncio se fragamentava
em ecos de gente a gritar...

Do OrCa:

Naquele banco de jardim
Que o Sol enchia de luz
O fotógrafo sentou-se
E traçou sobre a direita
A sua perna esquerda
Olhou a vida toda inteira à sua frente
E toda aquela de que era feito
Com olhos de quem se habituou
A circunscrever a realidade
Dividida em fragmentos interactivos
Para a tornar mais próxima
E assim mais universal
Respirou profundamente
Enquanto um sorriso afluía
Descuidado à sua face
E inquietamente sereno
Traçou sobre a esquerda
A sua perna direita
O poeta que se sentava
Naquele banco de jardim
Que o Sol enchia de luz.

Publicado por ognid às fevereiro 9, 2005 09:22 PM

Comentários

Descobri há pouco este blog e adorei. vou voltar sempre.

Publicado por: ângela em março 9, 2005 10:21 PM

Ao ler os comentários que te deixaram, caro Ognid, ocorreu-me...

Naquele banco de jardim
Que o Sol enchia de luz
O fotógrafo sentou-se
E traçou sobre a direita
A sua perna esquerda
Olhou a vida toda inteira à sua frente
E toda aquela de que era feito
Com olhos de quem se habituou
A circunscrever a realidade
Dividida em fragmentos interactivos
Para a tornar mais próxima
E assim mais universal
Respirou profundamente
Enquanto um sorriso afluía
Descuidado à sua face
E inquietamente sereno
Traçou sobre a esquerda
A sua perna direita
O poeta que se sentava
Naquele banco de jardim
Que o Sol enchia de luz.

Um abraço.

Publicado por: OrCa em fevereiro 10, 2005 11:18 PM

Combinação perfeita poesia e fotografia.
Um abraço do Rogério

Publicado por: Poemas de amor e dor em fevereiro 10, 2005 11:16 PM

E eu sentar-me-ei a vosso lado, se me deixarem :-)
Grande abraço, Ognid

Publicado por: yardbird em fevereiro 10, 2005 08:33 PM

Tão belo como o são as tuas fotos. Parabéns! Beijinhos :)

Publicado por: Betty em fevereiro 10, 2005 05:35 PM

Oi Ignid,
Minha vida foi divinamente escrita pelo autor da vida...
E eu sou as fotos publicadas neste universo...

Belo post..
Abraço!

Publicado por: Vivian Oliveira em fevereiro 10, 2005 05:00 PM

Quem os visse naquele banco
certamente com ar de espanto
sua roupagem era de um branco
e ambos embarcaram num pranto.

Publicado por: Espectro #999 em fevereiro 10, 2005 04:57 PM

Belas fotos e bons textos fazem um bom blogue.

Gostei!

Convido V. Exa a visitar a Embaixada de Zurugoa:

http://zurugoa.blogspot.com

Salut

Publicado por: Bandido Original em fevereiro 10, 2005 04:47 PM

Esqueci-me de uma coisa: num dos comentários pediam-te que não falasses do que perdeste porque isso nunca acontece... Não quero ser mazinha, mas pagava-me para me explicarem o que quererá isto dizer. A partir do momento em que a união que dois seres dá origem a uma nova vida, well, it's all down hill from there... Ou como diriam os Xutos: a vida é sempre a perder. Envelheces logo perdes tempo de vida, energia, força. Perdes familia, perdes amigos, perdes amores, perdes a saúde, perdes a lucidez algures na esquina. O que se ganha traduz-se em tão esporádicos momentos de ... ia chamar-lhe felicidade mas nem isso é. Olha, merda, sei lá!

Publicado por: puta_madre em fevereiro 10, 2005 04:18 PM

Tudo é tão estúpido, tão estúpido, que nem sei por onde começar! É estúpido chorar quando se lê este post, é estúpido escrever posts, é estúpido que a dor pareça ter sido inventada para nos fazer saltar a veia criativa! A vida é estúpida... Ainda mais estúpido é o facto de termos sido "construídos" para não nos resignarmos à simples mas cruel verdade de que a vida é estúpida, ponto final parágrafo. Faz-me um favor: inventa a minha vida.

Publicado por: puta_madre em fevereiro 10, 2005 04:05 PM

Um dos post mais belos que aqui deixaste para nós e para ti próprio. Vou deixar a blogosfera. Ou pelo menos, fazer uma longa pausa. Vou para outros caminhos. O teu blogue ficará sempre nos favoritos. Virei ver as tuas fotografias. Um beijo

Publicado por: LolaViola em fevereiro 10, 2005 02:53 PM

Será que a tua vinda aqui à terra dos celtas te contagiou e viraste poeta?!!!! Já eras poeta com a máquina fotográfica...
Um abraço.

Publicado por: josé gomes em fevereiro 10, 2005 11:24 AM

Heroi...quando disse livra te de trocares de fotografo para poeta...arrependi-me! As tuas fotos já falavam o que sentias...mas este texto deixou-me...feliz!

Publicado por: Luna [TypeKey Profile Page] em fevereiro 10, 2005 10:37 AM

Gostei muito do texto e da imagem.

Publicado por: hfm em fevereiro 10, 2005 09:38 AM

;) bonito espaço, sinseramente (!) gostei.não falem do que perderam, porque isso nunca acontece...
um abr

Publicado por: jpcoutinho em fevereiro 10, 2005 12:39 AM

Das conversas de uma escritora e um fotógrafo, ou de como um fotógrafo vira escritor. Sem deixar de mostrar a beleza da imagem. Num banco imaginário, a escritora e o fotógrafo inventam a vida. E como este fotógrafo e esta escritora são pessoas que eu adoro... este post é muito, muito especial. Beijinhos ao fotógrafo e à escritora em quem ele se inspirou.

Publicado por: lique em fevereiro 9, 2005 11:13 PM

:) Temos Fotógrafo Poeta, Artista de Imagem em Poesia de Palavra? Parece que sim! :)**

Publicado por: em fevereiro 9, 2005 10:15 PM

Olha é a primeira vez (sei que estás ali no MSN) mas é aqui exposta que quero dizer) que ME sinto convidada! Sim como uma menina se sente convidada para a história do filme... :) A foto e o texto entraram com uma intensidade que voei de aqui desta mesa por caminhos de ilusão observando a vida, escrevendo-a, registando-a se isso é possível. Foi de certo o banc. Foi o imagético do banco. Os "meus" bancos que nem sei de que imaginário se me soltam nos textos. Foi o banco que ali colocaste e aquele ir por aí escrver sentada em bancos. E eu esparramei-me e voei de portátil em punho e máquina contando contando falando falando...de aqui da minha sala frente ao monitor...sentada...voei de banco em banco (o texto é teu?! é deliciosamente intenso!) Um abração!

Publicado por: seila em fevereiro 9, 2005 10:03 PM

O duplo impacto da imagem e da palavra na criação de textos e inter-textos - o escritor e o fotógrafo juntos numa espécie de safari romanesco. Lindo! O poema é teu? Fiquei com curiosidade. Nunca tinha lido nada teu! Ocorreram-me estas palvrinhas a propóstio ou a despropósito. Dirás.


era ali
o lugar onde se ouvia
a voz dos objectos
havia o reflexo e o volume
havia a palavra ainda oculta
havia o brilho, a cor aflita,
a intensidade e a textura
da verdade ainda fria

havia a luz, a lente, o foco
e havia a palavra
havia o ângulo e o olhar
e havia a saturação da cor
nas coisas que aguardavam
uma forma de (se) dizer
na estória que tinham para
contar
era ali, sim o espaço e o momento
em que o silêncio se fragamentava
em ecos de gente a gritar...



Publicado por: LibeLua em fevereiro 9, 2005 09:54 PM