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fevereiro 22, 2005

Fragmentações

sala espera

I

No folhear das memórias
nunca saberemos em que noite
sonhámos o mesmo sonho
numa concha de corpos desnudados
e de aromas pressentidos
com a imprecisão dos sabores que
ficam apenas no palato
no entanto é sabido que há um nome
gravado na dureza coralífera
da pele que nos reveste a alma
talvez apenas um poema calado
uma sala abandonada
em que as palavras esvoaçam
e inventam pássaros insensatos
como se fosse possível
saber um nome e permanecer
na concha azul de amar
sem dizer nada...

II

no entanto soletro as letras
uma a uma e sabem-me a sal
o sal puro das estrelas
a cinza azul dos astros
a caliça das paredes desoladas
de cada lugar desabitado
onde gritam vozes nos recantos
palavras reclinadas loucas
insensatas desfocadas
porque nomear o sonho
é uma ciência inexacta...

III

e depois
as manhãs são como os vidros
não reflectem todas as formas dos
móveis dispostos no olhar
mesmo que as cadeiras nos esperem
moldando os corpos para ficar
num balanço aleatório de marés
há lugares vazios nos canapés
e esta dor deixou um trilho
escavado nas margens do olhar
que hoje me vês

IV

moro na intermitência de um farol
desabitado desde que te vi
acendo e apago o sonho
conforme a navegação do teu olhar
os vidros reflectem sombras
e contam histórias de naufrágios
a passagem de anjos e demónios
nos navios por afundar
mas no silêncio cintilante
há murmúrios que deves saber ouvir
dizem-te os sulcos que as mãos
escavam no destino
para que a voz se cubra de tinta fresca
e as paredes ganhem luz
como dantes nas manhãs
que irrompiam pelo olhar
de súbito
sem se esperar

Poema da deSaraComAmor

Publicado por ognid às fevereiro 22, 2005 09:33 PM

Comentários

Muito bonito...
Um abraço.

Publicado por: LE. em fevereiro 24, 2005 08:30 PM

gostei muito (da fotografia e do poema)

um abraço,

Publicado por: amnésia em fevereiro 23, 2005 12:16 PM

deixo-me ficar num mágico silêncio e agradeço-vos!

Publicado por: seila em fevereiro 23, 2005 09:35 AM

Já comentei o poema, lá pelas Estórias de Trazer por Casa... Faltava, agora, este teu enriquecimento.

Hoje, fico-me pelo aplauso. A poesia tem o seu espaço preenchido.

Um abraço e um beijo à parceria.

Publicado por: OrCa em fevereiro 23, 2005 07:41 AM

Lindo Poema, que me levará por certo até ao Blog da Sara, lindissima imagem Ognid, que complementa este poema de forma soberba.
Parabéns e um beijo aos dois

Publicado por: Mar Revolto em fevereiro 23, 2005 01:10 AM

Dupla de respeito mais uma vez.. :)**

Publicado por: M.P. em fevereiro 22, 2005 11:34 PM

Belo poema de Sara, os últimos cinco bversos podiam ser só o poema e bela foto da catedral.

Publicado por: Flap em fevereiro 22, 2005 10:16 PM