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março 02, 2005

Peregrinações (em mim) - III - Rosas Pretas

pedinte

Noventa e quatro. porta encarnada. não deixes cair. não deixes cair. pronto molhou-se. a alma dela foi para o céu. não te sujes...a tua mãe... Mãeeeeeeeeeeeee. Nãooooooooo. porra a puta da cadela na vai parir os cães aqui. Jorgeeeeeeeeeeee. o que é que o senhor disse? Oh! Madalena tira esta merda daqui. foda-se outra vez a chover. Alberto, Alberto, Albeeeerto....Mãeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

A boca entreabria-se num esgar. Sorriso amolecido na cara escorrendo numa baba transparente e grossa. Sorrindo o víamos nas tardes de fim de tarde quando a casa nos chamava e entre ela e a rua depois do trabalho...qualquer trabalho...se interpunha a rua cheia de gente com, precisamente, uma casa e um trabalho e entre o desejo do primeiro e a fuga do segundo, aquela ou uma outra rua apinhada de outras gentes nas mesmas condições de ir correndo entre. Nesses fins de tarde era que ele se sorria, ou era quando a gente não tinha tempo para o ver sorrir, mas via que ele estava sempre ali naquele meio recanto da loja, muito arrumado aquele monte de cartão e a manta de xadrez e o jornal. Havia sempre um jornal diário muito arrumado em cima da manta.
Na pressa de encurtar a distância do chegar a casa, a gente via, um bocadinho de todos os finais de cada uma tarde correndo entre, a gente ia vendo um dia mais um bocadinho que se enfiava num recanto do ver que às vezes era mais que olhar e deixava assim um quente em alguma parte do corpo da gente que corria entre o trabalho e a casa de recolha do cansaço. E quando esse ficar o corpo a levar o que tinha visto, fosse a baba, o cabelo pastoso e encanecido, a manta, o sorriso. Quando uma imagem qualquer se deslocava colada numa zona qualquer de quem passava, ficava aquilo a que se costuma chamar pena ou tristeza ou raiva ou alguma coisa assim dependendo de quem era a pessoa ou, mesmo, de que intervalo era o que se estava a passar naquele dia entre o trabalho e o rever a casa.

Tremias tanto, Alberto! Foda-se, a merda do jornal ficou de lado. Porra o jornal ficou torto. Arre a merda do jornal tem que ficar direito. Mãeeeeeeeeeeee. Ei! Ai! Olha aquele papagaio de papel do António rasgou-se. Mãeeeeeeeee. Mãeeeeeeeeeee.

As mãos rebuscavam o jornal em gestos rápidos com desvelos. O rosto rasgava-se num rito de ansiedade. Uma voz aparou-lhe o rolar do seu constante pensar-falar-silêncio ruidoso.
- Senhor Alberto! Vamos comer a sopinha?!
Um olhar muito verde desfez-se-lhe de medroso em terno. As mãos pararam sobre as folhas de jornal muito novo, muito folha sobre entre folha. As mãos colocaram o jornal sobre o monte de manta e papelão. O jornal arrumado. O olhar muito verde muito sorriso sempre fixando aquela “Senhor Alberto! Vamos comer a sopinha?!” na cara rosada da D. Marieta de todos os fins de tarde que trazia sempre duas rosas bordadas nos olhos pretos.
Depois da sopa, ela levava as duas rosas que tinha bordadas cada uma no negro dos olhos e deixava-lhe uma luz que se aninhava num nele, no mesmo dele que vibrava sempre que pensava...estava sempre a pensar...e nesse pensar ouvia um ele que nem sabia se ainda era ele ou outro que lhe ficara despegado numa zona do ter sido; e essa luz que as duas rosas deixavam, brilhava no mesmo sítio de si de quando pensava em grito que era tão grito que nunca percebeu porque nunca nenhum dos que passava na rua, entre o trabalho e o ir para casa, lhe perguntou porque é que gritava assim
Mãeeeeeeeeeeeeeeeee.

Texto da Seilá

Publicado originalmente na Lique e que republico aqui por a foto fazer parte das minhas "peregrinações" e o texto da Seilá ser de excepção.

Publicado por ognid às março 2, 2005 12:31 AM

Comentários

Não conhecia o teu blog.
Fiquei a adorá-lo.

Publicado por: mad em março 11, 2005 08:29 PM

bateu em cheio 5*
um abraço

Publicado por: jpcoutinho em março 6, 2005 01:13 AM

Bolas, Sei lá... Apanhaste-me nas tuas malhas... Já te conhecia a escrita, sim. Empolgante. E aqui tem um brilho especial com o apadrinhamento visual do Ognid... Profundo! Beijinho.

Publicado por: deSaraComAmor em março 3, 2005 10:00 PM

Os textos da Seila provocam este sufoco, este aperto no peito, às vezes um sorriso aqui e ali. São de escritora, mesmo.
Pronto, a tua foto també é de fotógrafo, mesmo! :) Beijinhos aos dois

Publicado por: lique em março 2, 2005 11:32 PM

Desde 2.ª feira que enviei as fotos para quem as solicitou. O meu mail diz-me que a mensgem foi entregue, mas ao que parece ninguém recebeu. Coloquei fotos no blog,espero que compreendam, tanto mais que só mesmo nós sabemos quem é quem. Um abraço

Publicado por: luis silva em março 2, 2005 08:42 PM

Trabalho em conjunto interessante!!!
Obrigada, pelas visitas no meu território.Estou de volta, depois de uma valente gripe. :)
Um beijinho de agradecimento.

Publicado por: objectiva3 em março 2, 2005 08:07 PM

Caramba, ognid, que este post bateu cheio! Ainda por cima, cometi a tontice de clicar para ouvir a música... Nem te digo nada.
Grande foto! Grande texto! (Grande tristeza que me bateu agora...)
Hugging

Publicado por: MJM em março 2, 2005 08:06 PM

E agora, digo o quê?!... Já disse, lá, no outro sítio!...
Ah, já sei, aqui na tua casinha, vestido de outras cores, fica como aquelas músicas que a gente já gostava mas com novos arranjos!... :)

Publicado por: sotavento em março 2, 2005 07:07 PM

Fico sem fôlego sempre que leio um texto da seila... E a foto que o acompanha é simplesmente... de acordo com o texto que ilustra!! :)**

Publicado por: M.P. em março 2, 2005 05:43 PM

Mãeeeeeeeeeeeeeeeee... é excelente o texto da seilá! E maravilhosa a tua foto. Beijokas, muitas.

Publicado por: Betty em março 2, 2005 04:24 PM

Realmente, o texto da Seila merecia o teu tratamento. Gosto da foto que vem dar mais vida e mais presença e mais realidade ao texto.
Parabéns aos dois...
Um abraço.

Publicado por: jose gomes em março 2, 2005 01:54 PM

Efectivamente o texto da seilá pe excepcional e profundo e a tua foto de "peregrino". Boa dupla:)

Publicado por: wind em março 2, 2005 09:48 AM

grande e poderosa simbiose ...

Beijinho grande

Publicado por: Sónia em março 2, 2005 08:11 AM