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março 24, 2005
O Mensageiro

Escrevo na linha dúbia que regula a imoralidade das estações,
e é por entre as linhas quebradas da chuva
que me tolhe a visão cíclica do alazão branco a chegar,
pluvioso de tímido... suado de chuva e torpel e nele um escravo
negro de terror, mensageiro esfarrapado de vestes húmidas
gestos que vêm do passado, dos eixos que foram outrora
a terra cavada de esperança.
É por entre os fios dispersos ao vento que evoco o riso louco, o canto inerte das mulheres -- Marias, três, não mais,
que carpiram o judeu e o limparam, untuosamente cingindo-lhe
as alvas carnes com os dedos mudos de desejo, a paixão impressa na orla branco da sua túnica de linho
tintado de sangue e sacrifício.
Escrevo no momento em que do passado escorrem mendigos flutuando na indecisão das cabras feridas nas artérias
e se instalam na noite florida de morteiros,
enevoada esta de sirenes e melopeias falaciosas, bailando como inúteis
destroços das fábricas de conserva e mantimentos trazidas
de um qualquer cidade relâmpago do ocidente.
Escorre a eternidade das coisas que nasceram entre os férteis rios
e fizeram o passado que nenhuma voz chama já por ser a sombra dos silêncios por tecer. Embrulho em lençol de seda os despojos lamentáveis vermineiras dos que não conheceram os abstractos desejos do infinitivo verbo haver.
Rasgam-se e ungem-se os véus de um templo profanado, sudário onde a chuva não chega nem as límpidas marés-baixas. A terra abriu-se para verter o seu vórtice negro em forma de vómito de ouro. E o alazão branco trouxe o escravo negro.
E é por entre os fios dispersos ao vento que ouço, mas não evoco o riso louco, o canto inerte das mulheres -- Marias, três, não mais,
que carpiram o judeu e o limparam, untuosamente cingindo-lhe
as alvas carnes com os dedos mudos de desejo, a paixão impressa na orla branco da sua túnica de linho
tintado de sangue e de inútil sacrifício, esse seu gesto de desfalecimento que havia de circuncizar o mundo...
Quando as entranhas da terra se abrem e assim vomitam arfantes
espectros de espada em riste, o mundo em vista,
a morte em direcção ao presente inseguro em torres de betão,
é toda uma nuvem de gente que rasga o silêncio de mortos,
carregados com o peso da dúvida entre as raízes quebradas dos seus
jardins ou as flores colhidas de pânico e cobertas do jasmim final de uma qualquer vala comum.
No seu branco corcel,
quem é este mensageiro,
afinal?
Poema da LibeLua publicado originalmente no Poemas de trazer por casa e outras estórias
Publicado por ognid às março 24, 2005 11:26 PM
Comentários
Isto é como na música. Quando se junta um belo poema a uma mistura de sons com qualidade ( neste caso os sons da fotografia) temos OBRA!
Parabéns aos dois.
Um abração do
Zecatelhado
Publicado por: zecatelhado em março 29, 2005 11:27 AM
Sara, quero agradecer-te mais esta parceria e o teres confiado em mim para ilustrar o teu belissimo conto. Foi um desafio muito interessante. Vamos a outros :) beijo para ti e um obrigado a todos os que visitaram.
Publicado por: ognid
em março 28, 2005 10:14 AM
de facto de uma intensidade ... excelente!
Beijinho e bom resto de Domingo :)
Publicado por: Sónia em março 27, 2005 05:17 PM
Olá.
Passo para deixar um abraço. Só que não passo. Páro e penso. E assim me faço.
Já choveu. Dar-se-á a ressurreição na natureza.
Será a de Cristo ou a da Vida?
Deixo-vos um beijo e um abraço.
Publicado por: OrCa em março 27, 2005 12:22 PM
Gostei muito da foto, para mim mera observadora desta arte, está perfeita!
O texto é muito bonito também!
Boa Páscoa!
Jinhos
Publicado por: Blue em março 27, 2005 04:04 AM
Que acrescentar mais? Nada...
Apenas que te desejo uma óptima Páscoa! Muitos beijinhos e até sábado :)
Publicado por: jacky em março 27, 2005 12:20 AM
Libelua.. seu poema é Lindo!
Publicado por: Lú em março 26, 2005 09:47 PM
Era um grito de fome que ecoava
com os ventos de marços
através destes campos nús...
E você sabe de onde está vindo esse vento, apenas observando o que ele traz consigo?
No norte, é possível... estar no norte.
No mundo, em qualquer lugar,
é possível ser do norte.
Mesmo estando no Sul.
Mesmo estando aqui,
apenas um ponto cinza neste universo...
Noites, dias, longos planos de closes
em nossas sensações e sentimentos fertéis
como somente os nossos corações sabem sentir...
Luta e torpor.
Isso aqui não é um texto.
Não é lúdico.
Não são cambalhotas de irrealidade.
É além.
É a descoberta dessas coisas divinas que passam em minha vida para engrandecê-la.
É um abraço que deixo para um amigo querido!
E tb uma feliz páscoa Dingo para ti.. e aos teus!
bjs!
Lú
Publicado por: Lú em março 26, 2005 09:45 PM
Libelua parabéns pelo poema, bem construido e trabalhado . Ognid esta tua foto está... bem está!! Espectacular fotografo
Publicado por: encandescente em março 26, 2005 06:50 PM
"E é por entre os fios dispersos ao vento que ouço, mas não evoco o riso louco, o canto inerte das mulheres - Marias, três, não mais,
que carpiram o judeu e o limparam, untuosamente cingindo-lhe
as alvas carnes com os dedos mudos de desejo, a paixão impressa na orla branca da sua túnica de linho
tintado de sangue e de inútil sacrifício, esse seu gesto de desfalecimento que havia de circuncizar o mundo..."
Amei. Amei!...
Parabéns...
Beijo,
Miriam
(Ognid... a foto... Precisava de uma laranja, não encontrei o que queria, tive de ser eu a tratar do assunto! ;)*)
Publicado por: Litostive em março 26, 2005 05:40 PM
Trata-se, sem dúvida, de um belo poema de LibeLua.
Odnid, há muito que não me visitas [...] poderás eventualmente ter-te cansado, tudo bem, mas nem por isso deixo de vir desejar-te uma Páscoa feliz e inté.
Publicado por: Espectro #999 em março 26, 2005 01:44 PM
olá, adorei teu site! Sou do Brasil, e por isso pude entender quase todo o conteúdo... por demais adorei muitíssimo as fotos. São muito belas.
Meus parabéns.
Está em meus favoritos a partir disto.
abraços,
Fabi ;)
Publicado por: Fabi em março 26, 2005 03:23 AM
boa páscoa pra ti lindo! e para todos os que aqui se reunem, nesta catedral de tantas imagens e belas palavras. :)
Publicado por: pandora em março 25, 2005 10:47 PM
Muito obrigada pela visita. Há muito tempo que vou passando por aqui. Não podia deixar de ver as excelentes fotos... a de hoje, para não variar, é uma maravilha. Parabéns.
Publicado por: Cecília em março 25, 2005 10:22 PM
Do texto já falei lá, na casa da senhora que o escreveu. Agora falta falar da foto. Pois... não está mal, não senhor ! :)) Está óptima, pronto! Ainda não chega? Olha, vai comer o folar da Seila. :) Beijinhos
Publicado por: lique em março 25, 2005 09:58 PM
Simplesmente espectacular!Excelente quadro.Uma Páscoa Feliz.
Publicado por: Agostinho em março 25, 2005 09:57 PM
Uma Páscoa Feliz,
Um abraço
Publicado por: Golfinho
em março 25, 2005 08:07 PM
mando? não mando?! mando!!!!!!!!!!!! rsss
Boa Páscoa! e bom apetite!
http://www.esec-eca-queiros-lsb.rcts.pt/mpei/folar.jpg
Publicado por: seila em março 25, 2005 07:01 PM
Já o tinha lido e comentado na origem. Um conjunto magnifico!
FELIZ PÁSCOA para todos
Abraço :-)
Publicado por: Menina_marota em março 25, 2005 06:40 PM
Uma Excelente Páscoa :)
Publicado por: Finurias em março 25, 2005 02:59 PM
Boa montagem fotográfica, texto denso. Mas até gostei.
Publicado por: polittikus em março 25, 2005 01:30 PM
Votos de uma Páscoa Feliz e cheia de coisas boas e doces para a gente boa desta casa.
Zecatelhado
Publicado por: zecatelhado em março 25, 2005 01:00 PM
Espectacular poema sobre Jesus, algo tétrico, mas lindo. Fenomenal a foto de ognid para ilustrar o poema, chega a ser assustadora e ao mesmo tempo uma maravilha de tela:) beijos
Publicado por: wind em março 24, 2005 11:54 PM