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abril 16, 2005
Sonho Lendário

Pedras, é tudo que o olhar alcança na alma escondida da serra. Tem-se esta vaga sensação do olhar toldado por papoilas na luz aguda da tarde. As mãos tacteiam o ar rarefeito como espigas contrafeitas a abanar ao sabor do vento, sem nunca partirem da terra que as sustenta. As mãos são os ramos do desejo. Com as mãos acenamos como anjos ou rasgamos silêncios. Mas não escavamos o vazio nem demovemos sequer o vento. Queria conter o ímpeto do vendaval que vem serra abaixo, indolente e brusco como se anunciasse a descida ao povoado das almas perdidas na voz das fragas. Mas não há quem contenha o medo ou a imaginação ou as forças ínvias que desconhecemos. Ainda por cima, acabara de vislumbrar a anta que sabia estar mais ou menos por ali. Admirou-se com o materialismo que sentiu emanar do conjunto arquitectónico. Pedras. Dispostas para receber a morte, mas apenas pedras corajosamente plantadas no passado, sem que o homem moderno tivesse sido capaz de as abater. Admira-se da falta de grafittis marcando a passagem urbana da civilização. Nem sequer corações assinalando a passagem do amor, no dia hipotético em que um apaixonado entendesse salpicar o lugar da morte com sinais do seu efémero encantamento. Nada que o resgatasse para um presente familiar. O medo de esbarrar de súbito consigo mesmo levou-o a recuar para longe do espaço formado pelas pedras e onde couberam em tempos os despojos de tantas vidas...
Os homens são capazes de confrontar a natureza, mas ainda não puderam confrontar o lugar da morte guardado dentro de si. Este homem marginava o seu próprio abismo na impendência de perder-se no seu interior e não sabia ainda que nesse labirinto da sua indivisibilidade seria a natureza a confrontá-lo.
Foi então que o vento serenou, como choro de mulher extinto a meio de um eco de dor. Do cume da serra descia uma nuvem branca que espalhava um silêncio maior em volta do homem e o impelia para o centro de um qualquer vórtice situado nas entranhas mortas da anta. Cresceram-lhe as papoilas do olhar em espirais de vermelho e o mundo era uma imensa papoila ensanguentando a tarde de carmim, enquanto os braços abanavam como espigas sopradas para o remoinho, disseminando definitivamente a última semente da razão. O homem pensou que morrer era como cair no meio de um filme apocalíptico cheio de efeitos especiais e depois não pensou mais nada.
Além disso ela estava mesmo ali ao lado, olhando-o como se o esperasse. Sou Amaia, filha de Lysias que era filho de Baco e moro na boca do povo que me erigiu como símbolo de pureza e senhora dos lugares por habitar. Aqui fui sacrificada à luxúria de um pastor e na ribeira próxima corre ainda a brancura do meu nome. Sente a frescura destas mãos apostas sobre o teu corpo enquanto ouves o rumorejar do tempo e as vozes que gritam dentro de ti como espinhos, como cravos ferindo-te os sentidos. Eu sou o arquétipo que procuras na natureza e sempre esteve dentro de ti. Sou a fêmea que domou o fogo para espantar os espíritos e afastar os bichos quando a seu lado medrava o perigo maior. Nutri com o meu seio o homem ao meu lado e ungi os seus membros com os meus aromas de mulher. Sou a origem e o fim de todas as coisas. Tive vários nomes mas sempre a minha fronte trazia palmas e o meu corpo a serenidade das fontes. Posso ter sido a romana plácida que derramava ânforas de prazer nos banhos álgidos de águas cristalinas e porém santas. A deusa que povoou estes lugares de rosas-malva e de bosques verdejantes e se doou à vida passando a ser dela representação única. A bruxa solitária domando a natureza, o homem e os seus dogmas, vencida apenas pela purificação do fogo, a única que a resgatou do tempo a que não pertencia. A moura esquecida entre muros, quando os estandartes cristãos treparam pelas ameias e sagraram seus os paços onde seu senhor a tomava em noites de luar e raiares de madrugada. A Soror da esperança entre grades, acobertada ali por desígnios patriarcas alheios ao corpo quando este lhe comandava anseios e doces palavras. Desencantaste-me quando deixaste vazia uma anta dentro de ti e agora posso facilmente aninhar-me dentro dessa fortaleza aberta como ceifeira coberta de sangue ou Eva subtraindo-te a todas as trevas, talvez Lilith a empurrar-te para elas.
Toma-me tua elevando os meus seios a colinas onde o prazer se reclina dócil e desce depois as tuas mãos languidamente no corpo oferenda, esta rosa de fogo que sabes conter toda a luz da eternidade e se demora sobre ti num parênteses de prazer. Arqueia-te sobre o meu corpo e faz dessa elipse um vórtice entre a angústia e a evasão. Arranca-te às tuas próprias entranhas para te verteres nas minhas, como o fruto e como verbo primeiro de todas as coisas. Depois, deixa-te escorregar devagarinho na seda macia como se penetrasses um palácio forrado de cetim. Sente os aromas do desejo a impregnar todos os objectos que tomas no prolongamento do meu corpo. Sente a implosão do universo nas paredes que tremem e pulsam como se tomadas por um exército silencioso. Serás meu nesse vislumbre de infinito que observas nas seteiras abertas vulneráveis aos teus ataques. Abaterás todas as pedras, rasgarás todos os véus e hímenes até alcançares a tua verdade no final do túnel obscuro em que te moves. Verás a Deus como os monges solitários na sua ascese, mas tu saberás ainda ouvi-lo para te encontrares contigo mesmo. Eu sou a verdade que procuras. Toma-me e dispersa-te nela como se todos os teus átomos se desagregassem na entropia última do despojo. Vem, vem, agora, agora, eu sou a verdade, a noite última do teu cérebro. Vem... Perdeu-se no veludo da sua voz. E foi.
Mas já ela se prendia no silêncio dos ramos e se tornava um eco ausente. O homem apenas soube que a noite se fizera dia para voltar à brumosa consistência de entardecer feito de fiapos de bruma. Viu-se a abraçar o desconhecido, colina acima, deixando atrás de si o Palácio de cetim onde apenas um lenço de cambraia lhe acenava à janela da mente. Sentia mais do que nunca a certeza de cada passo. Afinal a colina rasgara-se em aridez e em seu lugar erigia-se uma pirâmide perfeita apenas coberta de castanheiros nus, sobrevoada de corvos e águias que o visavam no seu voo rasante. Então vislumbrou a Catedral da sua busca. O Cavaleiro Templário ajoelhou as suas dúvidas na grandiosidade da luz vinda do denso edifício milenar. Uivava o vento como lobo solitário, vendo na lua a instintiva luz da trevas. O homem na sua nova pele de Cavaleiro procurou o Palácio dos sonhos de cambraia e a mulher de cetim. Mas estava de novo perdido no seu labirinto de espelhos e a verdade aguardava-o nas pedras da Catedral. Abriram-se os véus do templo para expor a luz feérica de mil velas humedecidas na penumbra amorfa. Penetrou cada vez mais fundo dentro de si. A mãe oficiava a uma missa de palavras inexplicáveis, na litania cadente dos sonhos. Ungiu-lhe a fronte com o que parecia incenso mas bem podia ser cinza ou o pó das memórias. Cresceste, dizia-lhe o olhar dela. Cresceste. Parte de mim, voa deste ninho onde te nutriste com o conhecimento do mundo. Agora deverás perscrutar a sua essência, posto que o consumiste no leite que te ofertei sem que o entendesses. Faço-te Cavaleiro da Luz e enfeito de esperança esse manto de estrelas que carregas sem saber. Saberás despir uma a uma as certezas que te cobrem a pele quando entenderes que o caminho nunca termina, a não ser quando te encontrares nu frente a ti mesmo sem temeres. Farás aí a genuflexão do amor perante ti mesmo. Tu és o Senhor que buscas e só através de ti Ele se revela. Parte agora como partiste ao nascer pois assim foi e assim será até ao fundo dos tempos.
Viu-se só no templo com o rumorejar silente das velas e uma candeia acesa no olhar. As sombras fizeram-se luz intensa e a Catedral sucumbiu como super nova a explodir em mil fragmentos. O choque foi terrível. Sabia que a provação maior se ocultava no regresso às suas improváveis origens imateriais. Parecia que o corpo se lhe contraía para dentro do olhar. Cavaleiro já não era nem sequer homem, mas uma esfera imperfeita na nebulosa noite sideral. Tudo se tornara tenso e denso na sua nova condição existencial. Caminhava para o nada? Desagregavam-se os nemes, os neurónios, as células e o que restava do pensamento parecia fazer parte do próprio pulsar do universo. Como se caminhasse para o orgasmo de Deus, a esfera parecia prestes a desaparecer ela também. Não há futuro para o homem moderno? Pensou ainda antes da esfera se transformar na própria noite eterna da não-existência...
Ela vinha estrada fora a ouvir John Miles e a trautear ao vento a alegria de viver, num dia tão ridente como aquele. “Music was my first love and that will be may last. Music of the future, and music of the past…” . Guiava desprendidamente, levada por um rio de pensamentos sem cor como se não conduzisse a máquina mas fosse esta a conduzi-la na placidez do Domingo. A estrada formava uma elíptica curva de esperança desocultando odores e aromas, certamente vindos dos girassóis semeados em redor. Algo inebriante a fazia acelerar o velho jeep que usava nas suas saídas de campo, como se caminhasse para a essência primordial de todos os perfumes de todas as rosas e açucenas plantadas nos jardins do inconsciente. Vivia naquela terra fértil de sinais do tempo e o seu trabalho consistia em lê-los e catalogá-los. Nunca tentara entendê-los. Travou a fundo quando viu uma figura masculina debruçada para a sua anta, não em observação mas como faz um homem que planeia atirar-se para um poço. Estranho! Pensou se lhe cumpria intrometer-se. Mas talvez o homem se tivesse sentido mal e precisasse de ajuda.
A música ficou a encher a planície como a melodia do presente no misterioso entardecer dos deuses. Ela voou para onde o homem permanecia, uma mão a tapar o rosto a outra cravada na pedra como se em profundo sofrimento. Tocou-lhe no ombro. Assustou-se com o estremecimento provocado por uma espécie de corrente de ar quente, uma sensação de dunas ardentes. Talvez não devesse ter parado, muito menos tocado naquele homem pálido, inusitado, fora de todos os tempos. Vestia roupa da cidade, calças muito vincadas, camisa branca alva e um blusão de cabedal. Ao longe divisava um carro cujas formas dinâmicas indicavam luxo e faziam pensar num executivo enervado no meio do trânsito de uma cidade prestes a chegar ao esgotamento de si própria.. Que fazia ali? O sorriso confuso que lhe arrancou não era porém um sorriso da cidade. Era um sorriso luminoso como se lhe crescessem lentamente papoilas no olhar. Ou como se a reconhecesse...
Ah, voltei a ti. Voltei. Estás de novo aqui. Tomou-lhe as mãos. Ah, a frescura da tua pele. Estão frescas as tuas mãos. Não me deixes outra vez no meio do nevoeiro. Perco-me sem ti. Não permitas que a bruma me embrulhe de novo e me leve para onde estive. A verdade. Agora sei qual é a verdade que tanto procurava. Nada importa. A identidade é apenas uma falsa questão. Por mais peles que nos vistam, somos sempre nós. Beijo-te minha dama lendária, vinda das sombras do tempo. O arquétipo único da vida és tu, Mulher!
Ela deveria estar estupefacta. Talvez devesse até ter medo ou fugir daquele amplexo em direcção à segurança perturbadora da sua música. Talvez a felicidade consistisse apenas na transitoriedade da evasão que a estrada, e um percurso descomprometido com a vida, lhe permitiam. Mas o homem emanava o perfume dos deuses, inscrito nos seus genes de mulher. Optou por dar-lhe a mão. Falou carinhosamente, como só falam as mães ou as mulheres que se sabem amadas. Anda. Estás confuso. Adormeceste e tiveste um sonho mau. Não nos conhecemos. Mas vou levar-te até ao teu carro para poderes seguir viagem. Descansa um pouco aqui no meu. Entraram.
Ele olhou-a e captou-lhe o perfil acentuadamente feminino, apesar do amadurecimento perceptível no recorte dos traços. Não sei o que se passou ali... Mas emergi da morte com um candelabro aceso para a vida. E tive-te nos meus braços, ali mesmo naquele lugar. Fizemos amor por entre as estrelas e mergulhamos na explosão da massa etérea de todo o universo. Reconheci na minha divisibilidade a unicidade da tua presença. Quem és? Que fazes?
Eu? Sou apenas uma arqueóloga da cidade que desterraram ara aqui... Garanto-te que nunca estive nos teus braços e por sinal, ultimamente nos de ninguém. Riu nervosamente. Ele sentiu-lhe a autenticidade. Não havia dúvidas que ela não o reconhecia. Mas o homem sabia-a sua e disse, movido pela necessidade de a ter também no mundo da matéria palpável.
Hummm, arqueóloga, é? E... aquela anta tem assim alguma coisa de especial? Perguntou, antes dela pôr em marcha o motor e uma espécie de mistério no olhar. Espalhava-se no aragem do entardecer a mesma melodia. “Music was my first love... Ela recomeçou a trautear “And that will be my last one...” Interrompeu para soltar uma gargalhada cristalina. Diz a lenda que os caminhantes se perdem normalmente por ali...
O homem quis contemplar a anta vazia junto ao rochedo aceso em bruma.
Hummmm, não é verdade. Disse ele, feliz. Eu encontrei-me e encontrei-te. Ou foste tu que me encontraste a mim? Ficaria sempre a dúvida.
Conto da deSaraComAmor a quem agradeço mais esta parceria
Publicado por ognid às abril 16, 2005 05:53 PM
Comentários
O tratamento das papoilas(será???)está muito engraçado!Gostei! :)
Publicado por: objectiva3 em abril 17, 2005 07:12 PM
A foto, se é foto, está muito bem disfarçada. Isto para dizer que mais parece um belo quadro. Quanto ao texto, digo-vos aos dois que estou em "processo de leitura" e, quando acabar ponho o comentário lá no Poemas. :)
Mas hoje já ganhei o dia em vir aqui. Aquele é mesmo "o" Armando? Mesmoooo? Ah, safado!! :)
Beijinhos
Publicado por: lique em abril 17, 2005 01:47 PM
Belo conto!Imagem enigmática.Lindo! Vim desejar BFS.Arte por um canudo 2
Publicado por: Agostinho em abril 17, 2005 02:25 AM
Quando leres este comentário irás achar que foi de muito mau gosto tê-lo aqui colocado!! Afinal alguem que te traiu...um covarde que abandona assim os amigos virtuais blogueiros não merece sequer aqui colocar o seu coment!!! Desculpa OGNID...Mil perdões!!! Por muito mal que penses de mim...acredita que me lembro positivamente de ti practicamente todos os dias...Felicidades!!!
Armando
Publicado por: Armando em abril 17, 2005 01:45 AM
O homem e Ela...o que ele imaginara...o que ele era afinal...
Excelente e com a imagem ...a perfeição!
Deixo um beijo fresco com sabor a sol e a mar.
BShell
Publicado por: blueshell em abril 17, 2005 01:31 AM
Conto de cortar a respiração:) Belo! A foto bonita , parece um quadro fotógrafo artista:) Boa parceria. beijos
Publicado por: wind em abril 16, 2005 09:51 PM
Obrigada Ognid pela pintura que fizeste para o conto. Ao vê-la, tão fresca e luminosa, não resisti a criar para o conto um happy-end! Se saiu cordel... a culpa é tua! Beijinhoooooooo
Publicado por: deSaraComAmor em abril 16, 2005 08:33 PM