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junho 20, 2005
quanto vale o sorriso de uma criança? - Parte I

Nunca percebi bem o que há de extraordinário em chamar-me Óscar e ser Palhaço, mas a verdade é que as pessoas desatam a rir-se quando digo. Mas é verdade. Chamo-me Óscar e sou Palhaço desde que fiquei desempregado há muitos anos por extinção de um cargo, numa empresa de nome pomposo, onde me pediam que fosse mais palhaço do que agora sou e lambe-botas como os demais... Mas não tem nada de estranho. Um Palhaço tem de ter um nome e fazer rir. E o meu assenta-me como a luva branca que calço ou o nariz que laboriosamente pinto de vermelho. Mas se vocês estão aí a pensar que me é fácil fazer rir as pessoas, estão enganados!!! As pessoas nem sempre riem quando nós decidimos fazê-las rir. Antes pelo contrário. Essa explosão vem de dentro, e nunca de fora. Rimos porque estamos felizes ou descontraídos. O riso habita-nos como a capacidade de respirar ou então fugiu do nosso peito, por razões que desconhecemos. Mas não vos vim falar do riso, esse assomo da alma que ainda hoje não controlo, nem em mim, nem nos outros.
Venho contar-vos a história de uma menina que já não sabia rir, de um jarrão da China com os dias contados e de uma avó de olhar de pedra. Como devem calcular, longe vão os dias do circo, e assim, sou contratado para os aniversários das crianças cujos pais não têm pachorra para os aturar sozinhos, ou lhes falta o talento para fazer umas fantochadas e uns jogos de futebol. Vou a casas abastadas, mas desculpem lá, abastadas com aquele bastante que nos parece morar apenas nas histórias de princesas e dragões, um bastante traduzido em terrenos gigantescos, relva a perder de vista, gradeamentos, muros altos, piscinas, lagos com fontes frente ao mar e casas de banho onde caberia desafogado um T1 da baixa. Normalmente essa gente recebe-me com um sorriso e a mesma deferência que se tem com um canalizador ou limpa-chaminés. Ora, na casa da menina que já não sabia rir, uma fortaleza resistindo aos ventos marinhos, havia uma senhora muito séria que me recebeu com o olhar frio do mar, e era a avó e uma mãe que me parecia pouco segura de o ser. Estavam à minha espera muitos meninos de cinco a seis anos, rodeados de uma secção inteira de brinquedos de um grande hipermercado. No meio deles, a Maria. A Maria que fazia anos e não estava a sorrir, no centro do seu mundo de fadas. Parecia amuada com qualquer coisa, talvez o vestido de seda, antigo, como se o peso tutelar da avó lhe caísse em cima, ou esta o tivesse já usado em igual idade. Comecei a actuar no alto de umas escadas que se despenhavam harmoniosamente como cascata entre o salão e uma salinha adjacente. Olhei atemorizado os dois jarrões de porcelana ornamentada de dragões e cruzou-me a mente, fugitiva como só as premonições são, a possibilidade remota de ainda derrubar algum no calor das trapalhadas... Poderia ter chamado uma das criadas, pedir que os levassem , mas o espaço afigurou-se-me amplo e nunca tivera dois companheiros de palco tão dignos e sisudos. Por isso, esperava que a pequena assembleia de Barbies e Kens quebrasse em riso o peso dos reposteiros da avó e destronasse aquele sorriso seu contrito que parecia desenhado em cada móvel a desatasse a gargalhar em cadeia num alívio da tensão geral.
(continua)
Conto da Ana Isabel
Publicado por ognid às junho 20, 2005 11:43 PM
Comentários
Muito bem escrito este conto, Vou ler a segunda parte.
Um Abraço,
Publicado por: Fernando em junho 23, 2005 12:59 AM
Fico aguardando continuação, na esperança de conseguir ver o sorriso no rosto da Maria. Beijinhos aos dois.
Publicado por: lique em junho 21, 2005 10:48 PM
o teu belo conto de encantar faz lembrar os belos contos que a minha companheira conta ao neto, que atento gosta tanto. Como sua mãe incompreensivelmente não deixa a avó visitar todos os dias o neto, semana após semana, o Francisco pede à avó que continue a história de encantar e ele recorda-se de tudo... Então a avó recomeça o conto e o menino encosta-se ternamente a sua avó, à minha adorável e doce companheira a Bete, e pede à avó para voltar.
Felicidades e foi um grande prazer ler tão belo conto. Pena é que na tua história os meninos já não saibam sonhar…
Rogério Simões
Publicado por: Poemas de amor e dor em junho 21, 2005 09:24 PM
...Urgente!!!...visita o meu blog...
Beijinhos.
Publicado por: Estrela do mar em junho 21, 2005 06:51 PM
Conhecendo essas casas, atrevia-me a dizer que o bocejo das crianças é já congénito ou o riso delas abafado pelos cortinados espessos e o veludo das almofadas mas... espero o resto.
:) Bjs.
Publicado por: eagle em junho 21, 2005 10:52 AM
Pelo começo agrada e espero a continuação:) Boa foto:) beijos para os dois
Publicado por: wind em junho 21, 2005 12:03 AM