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junho 20, 2005
quanto vale o sorriso de uma criança? - Parte II

Mas nada. A Maria e os seus amigos já tinham visto tudo e provavelmente encaravam figuras como a minha de um ponto de vista já analítico, o homem para além da figura, ou a figura de parvo do homem na sua grotesca figura de homem crescido com pretensões a ter graça.... Desesperei, trespassado por aqueles olhares compassivos, sentindo-me dromedário fora do deserto e deitei mão às minhas melhores ilusões que provavelmente já conheciam de festas anteriores. Disparei amendoins voadores, confettis saíram de um sopro meu, flores do nada nasciam, lencinhos, penachos, sorrisos e por fim, mimando a minha própria estupidez, fiz-me tropeçar no próprio pé para me estatelar, imaginem!!!, sobre um dos respeitáveis jarrões da avó!!! Rolou escada abaixo, aguentando o primeiro degrau com a coragem dos anos, para se desfazer em mil preciosos cacos ao pé das embasbacadas Barbies. Mas foi então e só então que se ouviu a risada cristalina da Maria, como se todo o serviço de copos da avó se tivesse também feito em mil bocados. A Maria riu! Soltou a primeira gargalhada da tarde e as amigas, entreolhando-se, pelo tamanho da tragédia e ligeireza do riso, optaram por rir também, fervilhando que já estavam de vontade, ante o meu gesto agora então, sim, verdadeira e absurdamente desastroso...
Vocês nem imaginam! Pareciam agora um bando de crianças da rua, desfeitas em riso de lágrimas e se não fosse a perigosa vaga no olhar azul da avó, sentir-me-ia eu também tentado a rebolar de riso com elas, tal o nó que se me desfizera na garganta. Mas a voz da dona da casa fez-se ouvir como vento gelado da madrugada, planando por sobre os gritinhos alvoroçados das criaditas. O jarrão, os cacos, a irresponsabilidade, a irrecuperável perda, o mau exemplo para as crianças, (o seguro? Claro que está no seguro, mas não se compra já outro assim). Eu lamentava profundamente o ocorrido, deveras que lamentava, mas o riso ainda me rodopiava na garganta e o meu olhar era de brilho, assombro, pena, crispação, culpa e depois humilhação, a humilhação de a ouvir dizer que me pagava o trabalho, mas... que não fizera nada para o merecer e ainda lhe causara um enorme prejuízo. A seu mando, disparou uma das criadas em busca de uma vassoura para que o Palhaço apanhasse os cacos, e já agora também os confettis. Curvei-me e colhi a minha humilhação em cada caco recolhido. Depois preparei-me para sair e ainda me passou pela cabeça em take cinematográfico: o amarfanhar do cheque para o monte dos cacos, com um olhar à Gene Hackman, mas sustive a minha revolta, para dizer imaginando o seu olhar de duro, ironicamente profundo, bem dentro do mar de chumbo da matriarca: “Realizei o espectáculo, arranquei sorrisos de vasos secos. Mereci o pagamento, minha senhora. Tenciono recebê-lo". E saí relanceando o olhar pelos pequeninos vasos secos, iluminados agora por uma cumplicidade luminosa. Cá fora senti um sulco de tinta e sal rolando pelo suor do rosto. Que diabo, hoje fui Palhaço trágico, patético, rebaixado, humilhado, mas fui Palhaço.
E continuei guiando pela cidade, Palhaço livre, colhendo quantos sorrisos pude, acenando às efusões da pequenada nos semáforos, ou à confusão das almas solitárias das portagens. Teria arrebatado à história um bocadinho da sua essência, e diminuíra porventura o património de uma família, mas, Senhores!!!, tinha feito gargalhar crianças que já não sabiam soltar dentro de si o riso. E Minha Senhora, deixe-me perguntar-lhe agora, aqui de longe, sem o seu olhar de porcelana azul da China cravado no meu: quanto vale para si o sorriso de uma criança?
Fim
Conto da Ana Isabel
Publicado por ognid às junho 20, 2005 11:53 PM
Comentários
Fantástico final!
Existe muita gente assim. Há que fazer verga-las do alto da sua arrogância.
O melhor elogio que eu posso fazer a este conto é a de que gostava de o ter escrito com tanta subtileza e Arte.
Fraternas Saudações,
Publicado por: Fernando em junho 23, 2005 01:11 AM
vale mto pouco. a acreditar nas notícias dos telejornais. mas gostei mto do texto. e da foto. bela parceria. beijos . e abraços.
Publicado por: gato_escaldado em junho 22, 2005 02:50 PM
Belíssimo final! O sorriso de uma criança vale tudo o que lhe possamos dar:) Abençoado jarrão que rebolou:-) Foto bem apanhada. Boa parceria:) beijos para os dois
Publicado por: wind em junho 21, 2005 11:56 PM