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agosto 02, 2005

de profundis, valsa lenta

deprofundis

(...)
Lembro-me de que essa manhã foi invadida por um aguaceiro desalmado, ouvia-se uma chuva grossa e pesada lá fora mas deve ter sido passageira porque quando acabou a Edite ainda estava ao telefone. A partir de então tudo o que sei é que me pus ao espelho da casa de banho a barbear-me com a passividade de quem está a barbear um ausente - e foi ali.

Sim, foi ali. Tanto quanto é possível localizar-se uma fracção mais que secreta de vida, foi naquele lugar e naquele instante que eu, frente a frente com a minha imagem no espelho mas já desligado dela, me transferi para um Outro sem nome e sem memória e por consequência incapaz da menor relação passado-presente, de imagem-objecto, do eu com outro alguém ou do real com a visão que o abstracto contém. Ele. O mesmo que a mulher (Edite, chama-se ela mas nada garante que esse homem ainda lhe conheça o nome, que não a considere apenas um facto, uma presença) exacto, esse mesmo Ele, o tal que a Edite irá encontrar, não tarda muito, a pentear-se com uma escova de dentes antes de partirem de urgência para o Hospital de Santa Maria e o mesmo que, dias depois, uma enfermeira surpreenderá em igual operação ao espelho do lavatório do quarto.
(...)

Extracto do livro De Profundis, Valsa Lenta de José Cardoso Pires.

Publicado por ognid às agosto 2, 2005 04:36 PM

Comentários

Um livro marcante, tão diferente de outros que ele escreveu. Um desdobrar do Eu no percurso...Um livro intenso e profundo, como a imagem que publicas. Bjinhos

Publicado por: amita em agosto 4, 2005 12:56 AM

como sempre grandes moementos retratados por cá...
Agradeço toda a tua simpatia ... e sempre amaveis palavras.
Beijinho grande
Ps. seras sempre bem recebido nas "minhas casas"

Publicado por: Sónia em agosto 3, 2005 01:19 PM

ao ver a foto lembrei-me também do livro "metamorfose" do Kafka. é um corpo em transformação, em transmutação. fiquei, e olha que é raro, porque coisa me surpreende estupefacta com a foto. está extraordinária. pois... já sei!(esta vou cobrar)

Publicado por: encandescente em agosto 3, 2005 10:59 AM

eis um livro k já li 3 vezes e ainda a ele voltarei um dia...Bjs e ;)

Publicado por: TMara em agosto 3, 2005 10:46 AM

Gostei tanto de ler.

Estive fora e ninguém sentiu a minha falta??? Buááá´´a´´a´´áá´

Jinho, BShell

Publicado por: blueshell em agosto 2, 2005 10:27 PM

Caí aqui hoje e quase parei de respirar.

Não sei porquê esta mistura do Zé Cardoso Pires e de ti, assustou-me. Não não é isso, fez-me andar depressa demais para trás no tempo, para o tempo em que ele era vivo.

Eu admirava-o e ele sabia. a ti admiro-te e tu sabes.

Obrigada , Meu Irmão.

Grande trabalho!

Publicado por: madalena pestana em agosto 2, 2005 08:20 PM

Muito bem escolhida esta passagem do livro e divinal a foto! Simbiótica com o texto:) beijos

Publicado por: wind em agosto 2, 2005 08:06 PM

Magistral composição em que o desprendimento do Eu em Outro é feita pelo adulterar de traços de uma não sei qual máscara! Beijo

Publicado por: M.P. em agosto 2, 2005 07:58 PM

Casamento perfeito entre a imagem e a palavra, uma vez mais...

A leitura deste livro de José Cardoso Pires foi valioso para mim, por ter coincidido com o AVC da minha mãe e me ter ajudado a cuidar melhor dela e a entender melhor o que se passaria na sua mente...
É um testemunho magistral e didáctico, de que não conheço paralelo, pelo que sempre sentirei a maior gratidão pela existência deste livro perturbador e magnífico.

Publicado por: Rosa Teixeira Bastos em agosto 2, 2005 06:23 PM

Li este livro... tão intenso, tão humano, mas ao mesmo tempo, tão trágico...sobre a própria doença vascular cerebral do autor... um livro emocionante até ao fim...

A imagem que enquadras aqui é surpreendente, também...

Grata pela partilha.

Um abraço ;)

Publicado por: Menina_marota em agosto 2, 2005 05:04 PM