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agosto 08, 2005
a brusca poesia da mulher amada (III)
A Nelita
Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido
herói sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a
bilirrubina
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco
quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as
confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância
já me chega o rastro.
É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos
ventos
Empós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas... Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo... Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!
Rio de Janeiro, 1963
Vinicius de Moraes in Poesia completa e prosa: "Poesia varia"
Publicado por ognid às agosto 8, 2005 10:31 PM
Comentários
Como já é do conhecimento público, posso confidenciar-te: sou eu a musa inspiradora do nosso candidato Vieira!
(por isso te roubei as fotos... mas gentilmente)
§(~_~)§ beijo da Afrodite
Publicado por: Afrodite em agosto 9, 2005 03:50 PM
Que prazer estar aqui.
Aproveitei, fui lendo.
Aderi imediatamente ao candidato Vieira!
Gostaria de ter o hino.....
(mas não sei como tu roubar...)
Hino da campanha do candidato Vieira (ouvir aqui):
Portugal alcatifado
Temos táxis e hotéis
Temos pontes e bordéis
Temos ceguinhos e trutas
Lulas fritas ararutas
Temos castelos e pontes
Temos tractores e fontes
Temos incineradoras
Temos morenas e louras
Temos muita insegurança
E emigrantes em França
Temos o 13 de Maio
Temos queijo e temos paio
Temos o céu sempre azul
Temos São Pedro do Sul
Temos o rei que não é
Lavamo-nos no bidé
Deputados às dezenas
Contas bancárias pequenas
As pinturas do Malhoa
E as gravuras de Foz Côa
Temos Lisboa e Porto
Temos o não do aborto
Temos marcas importadas
Cidades degradadas
E prisões superlotadas
Temos cada vez mais estradas
Muito mal pavimentadas
Lixeiras a céu aberto
E meio pais deserto
Temos muitos tubarões
E buracos de peões
Portugal alcatifado
Bebe vinho e canta o fado
Este blog, face às alternativas, todas em reflexão, já escolheu o candidato Vieira. O único que durante 20 anos de carreira e de militância politico-erótica se manteve erecto e coerente.
//(~_~)\\ um beijo da Titas
Publicado por: titas em agosto 9, 2005 03:48 PM
Já Chove!!!
:)
Publicado por: rain-maker em agosto 9, 2005 11:24 AM
Cuidadamente bem postado este seu post, boa selecção de poema. Cumprimentos, Maria do Céu.
Publicado por: Maria do Céu em agosto 9, 2005 10:44 AM
Genial post! Um belo poema e o trabalho de fotografia um espectáculo, a condizer com o poema. beijos
Publicado por: wind em agosto 9, 2005 10:35 AM
Eu fico-me pela imagem que o poema já conheço.
E só vejo um pavão belo a quem falta uma pena que está ali tão tão ao lado que parece perdida (como eu estou neste comentário...).
Encanto!
:) bjs.
Publicado por: rain-maker em agosto 8, 2005 10:52 PM
Poesia broteja quer das esferográficas de Vinicius aprontadas em riste para a escrever quer da imagem que conseguiste para ilustrar a Poesia que Vinicius registou sem ver a Poesia que tu criaste.. :)**
Publicado por: M.P. em agosto 8, 2005 10:42 PM