« povo de marinheiros (I) | Entrada | dias de raiva »

agosto 15, 2005

migrações

Um dia pensarei que passei por ti como passam os pássaros
por este campo que há-de tornar-se seco, no inverno; e que a
primavera que vivemos não há-de voltar, ao contrário dessa
que todos os anos sucede ao inverno, trazendo consigo esses
pássaros de que me lembro ao pensar que estou sem ti, agora
que todas as viagens chegaram ao fim, e uma pausa se prolonga
até se tornar definitiva. Mas não é por pensar isso que me sinto
longe de ti: o que talvez me faça sofrer, como se o sofrimento
não fosse uma parte do amor, e se substitua a ele, quando o
tempo impõe as suas regras, e nos lembra que dependemos
de pequenas coisas para que tudo mude, de um dia para o outro,
tornando-nos outros do que fomos, embora continuemos a
sentir o que sempre sentimos. Então, dirás,
alguma coisa valeu a pena? E eu respondo que
a migração dos pássaros é um sintoma de que os hábitos
não mudam quando queremos; e a vontade dos que
querem ficar leva-os à morte, como se entre morrer e amar
houvesse um elo que não sabemos de onde vem, mas se manifesta
na melancolia de um bater de asas, sob os ramos da árvore,
quando o céu de chuva impede o voo para cima dos seus
ramos. Mesmo que peguemos nessa ave, de pouco servirá: o
seu destino foi escolhido por ela, e quando isso acontece nada
podemos fazer. Debate-se, procurando escapar aos dedos
que a prendem; e esse gesto leva-a para onde não lhe chegamos,
a não ser com o olhar, sabendo que no dia seguinte o ramo
irá ficar vazio. Assim, voltei ao café onde tantas vezes te
esperei: e não havia ninguém na mesa, como se a maldição
tivesse tomado conta do lugar. «É do inverno», disse
o patrão, «ninguém sai de casa com este tempo.» Não lhe
dei outras razões. O que eu sei, levaste-o contigo, neste
inverno em que nem os pássaros querem ficar.

Nuno Júdice in O Estado dos Campos


Publicado por ognid às agosto 15, 2005 10:29 PM

Comentários

um abraço para a turma do 8ºd

Publicado por: pedro em setembro 25, 2006 02:27 PM

Qual a tristeza que fez vergar as flores da tua melancólica e LINDA foto? Beijo!

Publicado por: M.P. em agosto 16, 2005 09:28 PM

Uma ausência dorida, cujas palavras, por melhor escritas que sejam, jamais trarão de volta... por ora. A imagem reforça o estado de espírito de quem escreveu, aumentando ainda mais o clima pungente do texto.
Transcrevo algo que me tocou sobremaneira:
“O que eu sei, levaste-o contigo, neste
inverno em que nem os pássaros querem ficar.”

Publicado por: batista filho em agosto 16, 2005 12:16 PM

Sublime texto de amor e morte. Ambos andam muitas vezes juntos. A foto é o texto. Belo post! beijos

Publicado por: wind em agosto 16, 2005 12:27 AM

"...e a vontade dos que
querem ficar leva-os à morte, como se entre morrer e amar
houvesse um elo que não sabemos de onde vem, mas se manifesta
na melancolia de um bater de asas, sob os ramos da árvore,..."

A sagração da vida...o princípio e o fim...está entre o amor e a morte...

Um abraço ;)

Publicado por: Menina_marota em agosto 15, 2005 11:55 PM

"amor e morte. que faço com eles?"

O Amor e a Morte. Há muito tempo pergunto se haverá outros temas para a arte.

Juntaste-os com tal força a ambos que me fizeste dizer: não não há!

Um Grande Beijo, meu Irmão.

Madalena

Publicado por: rain-maker em agosto 15, 2005 11:45 PM

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)