« pescadores em terra | Entrada | um instante »

outubro 29, 2005

contra a corrente

Fresquinho na minha mão, o livro acabado de publicar pelo nosso amigo Jorge Castro aka OrCa. Poemas escritos (e ditos) entre 2000 e 2003, belissimos. Que outra coisa se poderia esperar, aliás? Recomendo vivamente a sua compra e aqui vos deixo um dos que me encanta desde há muito.


da ausência

Esta noite poderia escrever-te os versos mais tristes
como Pablo Neruda
ou dizer-te da minha recorrente vontade de ir a Samarcanda
como Bernardo Soares
diversa apenas a vontade de ir a Samarcanda
porque a tua presença me seria imprescindível
eu que nem mesmo sei que língua falam hoje em Samarcanda
ou o que por lá estará hoje acontecendo

Porque a tua ausência te cala em mim
poderia mesmo escrever-te uma carta de amar
que gritasse dentro de mim a tua ausência
e que no voo tangente das palavras
todos achariam ridícula
só eu não

- e daí quem sabe? -

Poderia imaginar-te silhueta
por entre silhuetas de pinheiros
feita de bilros e devaneios da Lua Cheia
derramando-se de luz ao longo de todo o mar
até tropeçar com o areal
e a terra toda
até envolver todos os amantes
que à beira-mar se consumam
como se o tempo se lhes acabasse ali como a terra
ou apenas se desesperam no amor
como se amassem apenas porque se procuram
quando o areal barra a luz fluida vertida pela Lua

poderia dançar contigo um tango argentino
conduzir-te na volúpia dessa dança
que
conforme dizem
ao homem compete conduzir
apenas para
e por uma vez só
te conduzir
eu de negro
Gardel
Terrível e alucinado
e tu
o teu vestido vermelho
rasgado com uma faca de seda
ambos efémeros, diáfanos e amantes
... se eu soubesse dançar

Ah, se eu soubesse dançar!

Poderia até tentar dizer-te um poema
que me impressionasse
apenas por te impressionar
um poema que falasse de Neruda
de Bernardo Soares
e de silhuetas diluídas nos pinheiros
mas que tivesse um lugar íntimo
para as estrelas de outros céus imaginados
luas
amores
e areais de vento
um lugar que nos enleasse no ritmo das marés
e seríamos românticos e dramáticos personagens de Pratt
solitários navegantes numa paixão de quimeras
Maltese com um brinco a preto e branco
vendo o Sol poente enfunando as nossas velas
com cores de luz que o Sol traz do mundo todo

E é por isso
que aqui estou
perto de ti
tenho as mãos quase cheias de nada para te dar
mas tenho um mar que não é meu
e um poema
sinto a Lua que nos foge entre os pinheiros
sinto ânsias de enleio em doce tango argentino
e hei-de sentir-te junto a mim em Samarcanda

Jorge Castro

Publicado por ognid às outubro 29, 2005 10:56 AM

Trackback Pings

TrackBack URL para esta entrada:
http://catedral.weblog.com.pt/privado/mt-tb.cgi/110363

Comentários

Eu o tenho e é mesmo belíssimo.
beijo do lado de cá do mar.

Publicado por: Márcia em novembro 2, 2005 05:58 PM

lindo... simplesmente...
;-)

Publicado por: elsa em novembro 1, 2005 10:07 PM

Uma homenagem destas só poderia vir de um coração como o teu.
Parabéns a ti por continuares a ser sempre o mesmo amigo e parabéns ao Jorge por nos dar a oportunidade e por nos brindar com a sua poesia.
A poesia tem que ter cheiro a papel e tem que ter o som das folhas para a podermos sentir em toda a sua plenitude.
Não há presente mais bonito que um livro de poesia e eu vou presentear-me assim que possa.
Bjs.

Publicado por: mad em outubro 31, 2005 02:30 PM

Amigo "maior que o pensamento", a tua homenagem vai para além da ponte que atravesso, neste calcorrear de vida.

Fico por aqui, com o brilho nos olhos e a vontade de um abraço.

Publicado por: OrCa em outubro 30, 2005 10:49 PM

Belíssimo poema. parabén aos Jorge e a ti pela escolha.

E eu qaté já fuyi a Samarcanda com amor e tudo...

:D Bjs e bfs

Publicado por: Pedra em outubro 29, 2005 12:04 PM

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)