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novembro 18, 2005

só puta

street-lamp.jpg

Era puta.
Não puta fina. Puta.
Vestia roupas simples. Não usava adereços. Só pintura.
Pintava-se de forma exagerada para anunciar o que fazia.

Fazia da cara cartaz. Anúncio.
Quem olhava a cara pensava: É puta.
Quem olhasse só o corpo, nu de cor, coberto, envergonhado, não dizia da profissão.
Olhavam só a cara cartaz.

Esperava a noite sentada no escuro.
Todas as noites, à mesma hora, vestia uma roupa simples e saía.
Todas as noites, à mesma hora, parava na mesma rua, no mesmo local.
Ficava imóvel debaixo de um candeeiro que lhe iluminava o rosto pintado com cores de puta e lhe tapava o corpo envergonhado e nu de cores.

Quando abordada não sorria.
Escondia a voz com o mesmo pudor com que escondia o corpo.
Dizia o preço mecanicamente.
Levava o cliente para o mesmo quarto barato de sempre, onde como sempre, mecanicamente, lhe tomavam o corpo previamente pago.
No final de cada acto mecânico, rotineiro, esperava.
Olhava os clientes que abotoavam as calças sem a olhar.

O orgasmo pago. O esperma despejado num corpo pago para o receber.
Saíam com o mesmo alivio de quem sai da casa de banho sem olhar o local onde urinou.

Levantava-se.
Vestia as roupas simples sem olhar o corpo envergonhado.
Refazia a pintura carregando nas cores.
Voltava ao mesmo local. Á mesma luz.
Era puta.
Só puta.

Encandescente

Publicado por ognid às novembro 18, 2005 07:14 PM

Comentários

Já conhecia e gostava do poema.

Acho muito bom esse candeeiro em trio. Bom post, no total.

Bjs

:)

Publicado por: ferina em novembro 20, 2005 01:12 AM

poema forte, duro, realista
gostei de ler

jocas maradas

Publicado por: susanagar em novembro 19, 2005 10:08 PM

Poema forte com já foi dito anteriormente... Constatação de uma realidade antiga que é sempre presente... Bom fim de semana! Beijo.

Publicado por: M.P. em novembro 19, 2005 02:30 PM

Poema-realidade com a marca de qualidade a que a Encandescente nos habituou e uma fotografia excepcional. Post sem mácula. :)
Beijos

Publicado por: agua quente em novembro 18, 2005 08:59 PM

Um poema forte de uma realidade dura!

"...Levantava-se.
Vestia as roupas simples sem olhar o corpo envergonhado."


Beijo meu

Publicado por: Poesia Portuguesa em novembro 18, 2005 07:31 PM

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