« um ano depois | Entrada | aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #8 »

dezembro 27, 2005

jardins de pedra

jardins de pedra

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêm?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

"Devia morrer-se de outra maneira" de José Gomes Ferreira

Publicado por ognid às dezembro 27, 2005 07:38 PM

Comentários

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)