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fevereiro 14, 2006

Da revista Vértice #5

sidónio muralha

O Bidé

Quando, sobrevoando os Alpes, o meu vizinho falou de sua recente visita ao Paquistão, expus-lhe o que pensava da arrasadora explosão demográfica e de seus inconvenientes. É vital, disse-lhe eu, encontrar soluções lúcidas e colectivas.
- Cada ser que nasce é um consumidor em potência, argumentou o meu vizinho. Eu sou a favor da explosão demográfica. Que rebentem mas comprem.

Conheço este tipo de indivíduo. Sua vocação é o monólogo. Devolvo-o ao silêncio que ele próprio quebrou. Se eu lhe provar o absurdo da sua posição, vai esquivar-se e dizer-me:
- Mudando de assunto: você sabe que quase todos os gatos siameses são estrábicos?

E se eu mandar ao diabo o estrabismo dos gatos siameses e lhe garantir que o que me interessa é que a humanidade não seja estrábica, talvez arranque dele alguma frase inesperada:
- A propósito de bichos: os pinguins fazem uma grande confusão com os sexos. Às vezes, dois machos namoram-se durante semanas. Quando descobrem o equívoco ficam furiosos.

Penso no homem que me falou do Paquistão, agora que estou longe dos Alpes, em terra firme, na América Latina. O dono do hotel entrou e pediu uma cerveja. Está visivelmente nervoso. Seu filho, um jovem espigado, chega logo a seguir e ele gesticula:
- Sabes? A mulher da limpeza do sexto andar lavava as vidraças quando caiu...
- Caiu?
- Sim. Caiu para o lado de dentro, em cima do bidé e quebrou...
- Quebrou o bidé?
- Não, quebrou a perna.
- Ah! Pensei que fosse o bidé! - exclamou o filho.
E teve um suspiro de alívio.

Sidónio Muralha in Vértice nº 353 de Julho de 1973

Publicado por ognid às fevereiro 14, 2006 02:42 PM

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