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fevereiro 26, 2006
Da blogosfera
Tinha jurado a mim próprio que nunca iria escrever sobre a blogosfera. Em primeiro lugar porque não faz o meu estilo divulgar julgamentos de valor sobre posicionamentos, atitudes, qualidade ou falta dela. E digo divulgar porque fazê-los é inevitável mas, normalmente, não os expressamos porque não queremos ferir susceptibilidades e gostamos de nos manter “socialmente correctos”, seja lá isso o que for. Em segundo lugar porque os objectivos e a linha que tenho tentado manter no Catedral não passam por aí.
Mas, há sempre porras de mas que se metem pelo meio, um pequeno “fait-divers” que aconteceu ontem foi a chamada gota de água que me fez decidir despejar cá para fora todo o líquido que o copo já continha. Vamos portanto a isto.
Em conversas com pessoas ligadas ao “meio blogosférico” sempre fui contra a divisão dos blogs em categorias ou campeonatos ou ligas ou o que fosse. Nunca me senti muito convencido da minha argumentação (já estou a ver o sorriso de orelha a orelha dessas pessoas…) mas incomoda-me a ideia de “classificar” blogs ou as pessoas que os mantém. Aliás o meu problema estava mesmo nas pessoas e não nos blogs em si. Mas a realidade é que há diferenças e muito grandes entre a qualidade, o posicionamento, os objectivos, as atitudes.
A comunidade “blogueira” divide-se, regra geral, em grupinhos que funcionam mais ou menos em circuito fechado e que se auto-alimentam. Ou seja o Zé, o Manel, a Maria e a Francisca formam um grupo que se comenta entre si, que, com muita frequência, transforma os blogs em autênticos chats e que fundamentalmente acabam por escrever uns para os outros. Depois há elementos desse grupo, por exemplo o Manel e a Maria, que se integram também noutro e que acabam por estabelecer uma relação entre os dois grupos. E por aí fora. Os grupos são de diversos tipos.
Temos aqueles em que os conteúdos (está na moda falar de conteúdos) são do tipo “hoje acordei com uma dor no dedo grande do pé” e provocam de imediato uma onda de solidariedade pelo referido dedo dos outros elementos do grupo. Ou em que se coloca uma fotografia de uma inscrição na areia a dizer “eu amo-te” e o post tem 250 comentários a elogiar a sua extrema qualidade. Ou ainda aqueles que, face a um acontecimento grave na vida pessoal e real do autor, têm como primeira reacção vir ao blog escrever um post expondo a sua vida privada (que assim se devia manter) aos olhos de toda a gente e provocando também uma onda de solidariedade. Interessante como é bom de ver. Normalmente muitos dos participantes destes grupos têm também como hábito visitar 300 blogs por dia deixando comentários do tipo “que lindo poema sobre o amor”, e este já é um comentário elaborado para o habitual, quando o autor estava a lamentar-se da morte da tia ou qualquer coisa do género. São as chamadas visitas sociais que se espera evidentemente que sejam retribuídas sendo esta “troca de mimos” a única razão delas existirem porque, regra geral, quem as faz não está minimamente interessado no que o outro editou. São visitantes assíduos também de blogs do tipo do Murcon (perdão Professor, o Senhor não tem culpa nenhuma) onde deixam comentários, poemas e toda a espécie de disparates que lhes vem à cabeça na esperança de uma referência, por mínima que seja, do autor. Nestes grupos englobam-se os comentários mais deliciosos – do tipo Corin Tellado. Normalmente conhecidos como “lambidelas” dirigidas para o engate virtual. Consistem em palavras que comentam não o post em si (que pode ser de boa ou má qualidade, não interessa) mas o/a autor/a ou misturam as duas coisas. Género muito abundante. São pessoas (não nos esqueçamos que são pessoas reais que estão atrás dos virtuais blogs) que, de um modo geral, já nem distinguem a vida real da virtual. Ou que até invertem as coisas – a sua vida real passa a ser a virtual. E que normalmente se esquecem (ou nem se preocupam sequer com isso) que ao tomarem determinadas atitudes, sejam elas de engate ou do que for, podem estar a prejudicar gravemente a vida real de outros. E estas são as mais “soft”. Porque depois temos aquelas, não são tão poucas, que utilizam deliberadamente os blogs e todo o mundo que os circunda (msn por exemplo) para se empenharem dedicadamente na tarefa de lixar com ph de pharmácia a vida real do próximo. E aqui temos um campeonato, não necessariamente fechado, que reconheço que existe.
Outro grupo há, que quase se poderia chamar dos peixes piloto, que se alimenta do que os outros blogs produzem. Ou seja compensam a falta de criatividade e de imaginação pela utilização do trabalho dos outros referindo ou não a autoria do que foram buscar. Aqui há que estabelecer uma diferenciação entre aqueles blogs que uma vez por outra utilizam trabalhos de terceiros porque consideram que são de boa qualidade e os querem divulgar, o que é perfeitamente legítimo e saudável, e aqueles que o fazem sistematicamente sem qualquer critério. Não consigo sequer estabelecer uma classificação para este grupo. Não se enquadra em nada.
Temos também o grupo daqueles blogs que se divertem de um modo saudável e sem preconceitos com os mais diversos assuntos e dos quais destaco, sem favor, a funda São. Quem os frequenta diverte-se sem segundas nem terceiras intenções sem chatear aqueles que apenas pretendem estar aqui para fazer e partilhar qualquer coisa que gostam.
O grupo daqueles que também apenas pretendem mostrar aquilo que fazem como hobby ou noutra qualidade qualquer e apreciar e aprender com o que outros editam e o fazem de um modo honesto também sem se meter na vida de terceiros é multi-facetado e poderiam ser englobados, consoante a qualidade, em diversos campeonatos.
Por ultimo temos o grupo dos blogs políticos. Sejam eles de jornalistas (em franca proliferação), de grupos políticos ou de cidadãos comuns que querem aproveitar os blogs para dar a conhecer as suas opiniões e análises. É um grupo muito heterogéneo onde se pode encontrar de tudo. Desde o muito bom (referência fundamental, o Jumento) até ao péssimo.
E fico por aqui. Não é uma análise exaustiva. Nem sequer uma análise. É mais um desabafo. Escrito de um fôlego sem preocupações de estilo. Também não sou escritor nem tenho pretensões a tal. Quem gostar gosta, quem não gostar tem bom remédio – tem os comentários abertos e pode dizer o que pensa ou tão simplesmente salta para outro blog e não volta cá.
Pergunta do leitor – e o teu, onde se encaixa? Francamente não sei. Sei que apenas pretendo mostrar aquilo que faço ao nível da fotografia, divulgar escritores ou pintores ou ilustradores de que gosto, apoiar causas que considero justas. Comento se e quando me apetece ou tenho tempo e gosto do que vi ou li. Não espero também que me comentem nem vivo fixado nos números de visitas. E tenho, por vezes, como hoje, uma vontade enorme de carregar no “delete blog” ou de nunca ter entrado nisto tudo. Mas como penso que se calhar me iria arrepender depois, prefiro meter cá fora isto que me estava a encher, esfriar a cabeça e depois tomar decisões.
E agora pessoal é cascar à vontade que eu pus-me a jeito e isto não acontece todos os dias.
Publicado por ognid às fevereiro 26, 2006 05:49 PM
Comentários
Na mouche. Por issom é que deixei o meu primeiro blog (com sucesso) Analfabeto, estava farto de ler nos comentários " Passei para deixar um beijinho) xiça.
Publicado por: polittikus em março 4, 2006 01:02 PM
Ai Ognid há tanto para dizer sobre isso! Creio que há varias fases por que todos passamos de um modo quase geral. A fase em que começamos um blog só porque sim, depois queremos dar a conhecer o blog e ai passamos a frequentar outros, depois a fase da retribuição, em que nos sentimos quase assim, em falta , com quem delicadamente nos deixa um comentario (ou não), depois a fase em que estamos saturados, queremos mais é escrever o que nos apetece, visitar quem nos apetece e as vezes que nos apetece. Claro que concordo contigo em praticamente tudo e ja estive tentada a escrever sobre a blogosfera , mas agora depois de mais uma das minhas 35556676 pausas :) volto de novo sem comentarios, o que por um lado é bom porque nao sinto aquela quase obrigação de ir até ao blog do fulano A que vem todos os dias ao meu, por outro tenho a tal liberdade de visitar e ler quem gosto e me apetece e ate posso dizer só "ola passei para um beijo" quando de facto so passei pelo blog e queria dizer á outra pessoa "olha nao vim ca ler-te, vim ca porque me lembrei de ti e se fosse no mundo real agora dava-te um beijo", por outro não temos o tal feed back dos outros e ás vezes sentimos falta disso. Mas tambem há os contadores não é? e sabemos quem gosta de facto de nos ler. Depois mantenho links e vou a blogs nao tanto pelo que se escreve mas porque gosto das pessoas que os escrevem e é uma forma de saber algo sobre a pessoa tambem (pessoas essas que muitas vezes nao conhecemos, e das quais nada sabemos a nao ser um nick). Com o passar do tempo apetece-nos dizer "ola o meu verdadeiro nome é tal e estou farta do nick. Eu sou esta (e aqui mostramos a foto ou não). Confesso que ja varias vezes me senti tentada a tal mas tenho uma paixao por aquela gaivota que é uma coisa brutal. :) e pronto basicamente é isto, mas há tanto. tanto, tanto para dizer á cerca da blogosfera! Na verdade é como a vida real, com pessoas lindas, pessoas de grande coração, pessoas que nos dizem muito, outras que nos dizem pouco, algumas não nos dizem nada e algumas ainda mais valia que não tivessem acesso a um pc.
Beijo Ognid! (creio que nesta salganhada consegues entender-me)
Publicado por: lyra em março 2, 2006 07:52 PM
Que pena...... ninguém "cascou".
E eu abstenho-me de dizer o que penso.
Publicado por: matahary em março 1, 2006 10:13 PM
oh rapaz, agora adivinha lá porque é que eu andei retirada mais de um mês? Cansaço, puro cansaço... Nunca seria capaz do delete, mas retirei-me por uns tempos, até porque a vida não me permitia "trabalhar os conteúdos" e não me apetecia postar parvoíces.
Agora voltei, porque já me apetece postar parvoíces, tás a ver!? ehehehe...
A tua análise é excelente, e para quem está de regresso faz pensar. Obrigada!
e beijos com saudades (genuínas estas, hein!)
Publicado por: pandora em março 1, 2006 12:23 PM
Concordo! Por aquilo que tenho visto parece-me uma análise muito correcta.
Publicado por: LG em fevereiro 28, 2006 10:55 PM
Olá! Escolhi bem o momento para a visita. Gosto de textos que põem com clareza os pontos todos nos is. Revejo-me em muito da tua análise. Também eu não aprecio o jogo social que busca dividendos. Conheces-me. Circunscrevo-me aos meus cantinhos e não é raro ter zero comentários ao que escrevo, o que só dá mais valor aos que surgem descomprometidamente, já que ninguém me deve retorno. Os comportamentos que enumeras são as virtualidades e desvirtualidades do meio virtual. Ainda está por fazer um estudo sobre os efeitos sociais e comportamentais de se viver dentro da caixa: netmorfoses, diria eu. O melhor mesmo é ter um olho na caixa e os dois pés bem de fora. Uma coisa é certa, a escrita despontou, transbordou, a criatividade e a partilha aumentaram e cada um pôde mostrar o que faz e com isso dar prazer aos outros. É o que tu fazes aqui. E isso é que conta.
Um abraço de saudade.
Publicado por: Aziluth em fevereiro 27, 2006 03:08 PM
Tu sabes mesmo deixar uma gaja toda molhadinha... hmmm...
Publicado por: São Rosas em fevereiro 27, 2006 11:24 AM
Concordo em absoluto com o que escreves/descreves. Certa blogoesfera não é muitas
vezes quer "bonita", quer "saudável". O que deveria ser um espaço de criação e liberdade é muitas vezes espaço de má-lingua e outros etc's. Com comentários não me chateio quem quer ler, lê e pronto eu comento quando e se me apetece, uma vez li alguém que dizia que desprezava blog´s sem comentários é um ponto de vista eu acho ridiculos a maior parte dos comentários é o MEU ponto de vista. Como classifico o meu blog? Meu! Gostei fotografo. Mesmo muito!!
Publicado por: encandescente em fevereiro 26, 2006 11:24 PM
Mas que redacção!!
Vinha aqui desejar-te mais uma vez os PARABÉNS e o que vejo??
Bem... acho que tens MUITA razão naquilo que dizes!
Também já passei pela fase do "delete" não por motivos que apontas (felizmente!) mas por motivos de má disposição particularmente particular (???), de não entrosamento de circuitos e até de vários curto-circuitos! Mas depois, tal como dizes, sei que me iria arrepender!...E ningém teria nada a ver com os meus repentes!..LOL
Sabes já de cor como e porque influências eu comecei esta actividade. Depois foi o "bichinho" que se entranhou e nunca mais saiu.
Como tu dizes, a vida particular deve ficar particular se bem que haja projecção do que se sente naquilo que se publica.
O vir para a Net insultar, difamar e quejandos é uma atitude que também considero de uma BAIXEZA a toda a prova. Assuntos pessoais tratam-se de olhos nos olhos e não usando a blogospfera para ajuste de contas!
Quanto a utilizar o que outrém produz, tenho isso na conta de ROUBO e como tal está sujeito às leis vigentes no País.
Claro está que a interactividade dum espaço como estes tem também uma certa ética: quem é visitado visita quem o visitou e é daí que nasce todo este aproximar de tantos bloguistas.
Foi assim que aterrei aqui e noutros espaços onde fui ficando, ficando, ficando... E não dou por mal empregue o ter ficado, ó Mouro Malandro! Não é que tenho aprendido umas coisas?
Apesar de tudo o que tens passado ou (te tenham feito passar!..)ainda bem que continuas por aqui e espero que por muito tempo!
Sabes que PREZO a tua Amizade! Beijo.
Publicado por: M.P. em fevereiro 26, 2006 10:51 PM
Na mouche! Também me cansei dos "fait-divers" e a vonta é mesmo "delete blog". Adiante, que a vida é muito mais do que isto.
Resumo: excelente análise.
Abraço cheio de gerúndios.
Publicado por: nikonman em fevereiro 26, 2006 09:59 PM
No próximo sábado contas-me o pequeno "fait-divers" ao vivo, está bem? Admito que, de vez em quando, adoro umas cusquices. ;)
Publicado por: fgs em fevereiro 26, 2006 07:54 PM