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abril 19, 2006

O caminho

Caminhava por aquela estrada sinuosa, estranha e desconhecida, há muito tempo. Tanto que já nem se lembrava quando e onde tinha começado a andar, e muitos dos passos que tinha dado e muitos dos lugares por onde tinha passado estavam esquecidos também.
Atravessava agora uma zona de floresta coberta por um manto de nevoeiro frio e o caminho era sombrio, silencioso e assustador. Pouco conseguia ver a não ser uns poucos metros fosse qual fosse a direcção para onde olhasse.
Pensou em cantar para tentar afastar o medo que o ia tomando mas receou chamar a atenção às criaturas estranhas que por ali podiam andar.
Tentou lembrar-se do caminho percorrido e em especial daqueles lugares onde se tinha sentido bem, onde tinha sido feliz. Sorriu quando recordou momentos de grande felicidade e uma sensação de calma invadiu-o quando se lembrou de outros em que o caminho ou o local tinham sido pacatos, tranquilos, sem sobressaltos. E o medo atenuou enquanto caminhava imerso nessas recordações.
Mas umas lembranças puxam outras e recordações que há muito tinha arrumado bem no fundo do armário da sua memória, e que julgava já mortas e reduzidas a pó pelo passar do tempo, ganharam vida e assaltaram-no. E todos os maus momentos por que tinha passado na sua caminhada e aqueles em que o medo tinha tomado conta de si, como agora, em lugares como aquele, momentos em que tinha sido agredido e respondera de volta, momentos em que tinha caído e se levantara, momentos em que o sofrimento fora insuportável, todos o rodearam, agora, ali.
E as marcas que tinham deixado doíam-lhe agora.
E as recordações eram como fantasmas que não conseguia afastar por mais que lutasse, e que o rodeavam e que lhe gritavam que o mesmo ia acontecer agora naquele lugar frio, no nevoeiro, sem nada ver e sem ninguém que o pudesse ajudar ou guiar pelo caminho.
Começou a correr como um louco, gesticulando e tentando afastar os espectros sem resultado, eles rodeavam-no repetindo incessantemente o mesmo.
Tropeçou, caiu, levantou-se, continuou a correr.
E os malditos riam-se dele e não o deixavam.
Esgotado e ferido mas correndo ainda passou uma curva apertada da estrada e viu-se perante uma encruzilhada...
Parou ofegante, as vozes dos fantasmas diziam-lhe para ir pelo caminho à esquerda, garantiam-lhe que se fosse por ali nada lhe aconteceria.
Com tranquilidade e certeza dirigiu-se para o caminho da direita, os passos cada vez mais firmes apesar dos protestos deles.
Sorriu-lhes e sem hesitações deu o último passo que o lançou no abismo negro que tinha à frente.
Os fantasmas não o acompanharam.

Ognid

Publicado por ognid às abril 19, 2006 07:23 PM

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