« Lisboa e Tejo e tudo #2 | Entrada | Portos #1 »
agosto 08, 2006
Entremos na morte com alegria!
Entremos na morte com alegria! Caramba
O ter que vestir fato, o ter que lavar o corpo,
O ter rins, fígado, pulmões, brônquios, dentes.
Coisas onde há dor e sangue e moléstias
(Merda para isso tudo!)
Estou morto, de tédio também
Eu bato, a rir, com a cabeça nos astros
Como se desse com ela num arco de brincadeira
Estendido, no carnaval, de um lado ao outro do corredor,
Irei vestido de astros; com o sol por chapéu de coco
No grande Carnaval do espaço entre Deus e a vida.
Meu corpo é a minha roupa de baixo; que me importa
Que o seu carácter de lixo seja terra no jazigo
Que aqui ou ali a coma a traça orgânica toda?
Eu sou Eu
Viva eu porque estou morto! Viva!
Eu sou Eu
Que tenho com a roupa-cadáver que deixo?
Que tem o cu a ver com as calças?
Então não teremos nós cuecas por esse infinito fora?
O quê, o para além dos astros nem me dará outra camisa?
Bolas, deve haver lojas nas grandes ruas de Deus.
Eu, assombroso e desumano,
Indistinto a esfinges claras,
Vou embrulhar-me em estrelas
E vou usar o Sol como chapéu de coco
Neste grande carnaval do depois de morrer.
Vou trepar, como uma mosca ou um macaco pelo sólido
Do vasto céu arqueado do mundo,
Animando a monotonia dos espaços abstractos
Com a minha presença subtilíssima.
Álvaro de Campos, excerto de «A Partida»
-------------------------------
Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.
Quantos, se pensam, não se reconhecem
Os que se conheceram!
A cada hora se muda não só a hora.
Mas o que se crê nela, e a vida passa.
Entre viver e ser.
Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa.
Se é para nós que cessa.
Aquele arbusto.
Fenece e vai com ele.
Parte da minha vida.
Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo.
Nem distingue a memória.
Do que vi do que fui.
Se recordo quem fui, outrem me vejo.
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo.
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente.
Não é de mim nem do passado visto.
Senão de quem habito.
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada.
E quem sou e quem fui.
São sonhos diferentes.
(Poema de Fernando Pessoa)
Publicado por ognid às agosto 8, 2006 10:54 AM
Comentários
Olá :) ora viva a minha sobrinha cidadã do mundo :)) ainda bem que gostaste do poema e da imagem.
Publicado por: ognid
em agosto 8, 2006 11:33 AM
Comecei a ler este poema e pensei: so pode ser Alvaro de Campos. Ninguem como ele manda tudo a merda, Morte e Infinito inclusive. Obrigada, sei que posso sempre contar com o teu blog para me matar saudades da lingua portuguesa e de belas imagens do meu pais. :)
Publicado por: Ana em agosto 8, 2006 11:17 AM