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fevereiro 26, 2005
Flor Vermelha

Poderia amar-te na aurora das revoluções,
com o amor alucinado
dos anarquistas loucos,
em caves desertas e cinzentas de fumo,
sob furacões de balas e multidão,
no delírio sangrento
da queda da ordem
e das tiranias
Amar-nos-íamos!
Amores crispados,
amores profanos,
amores inquietos de pólvora
e arame farpado.
Ficaríamos depois,
ombros nos ombros,
alheios às chamas,
olhando a imensa flor vermelha
irrompendo
por entre os escombros.
Poema de Manuel Filipe
Oração das 02:08 PM | | Comentários (16)
fevereiro 25, 2005
Um dia final, de um mês qualquer

Encontraram-se no jardim no dia aprazado
Um dia final, de um mês qualquer.
Ela riu: Estás ridículo nesse fato, mas era o combinado.
Ele disse: E tu és só camisola e gola alta, como tinhas prometido.
Sentaram-se num banco ao acaso
Porque o acaso os juntara
E no acaso tinham caminhado
E o acaso os levara àquele jardim
Àquele banco escolhido ao acaso
Onde, trocando vidas, riram dos sucessos, riram dos fracassos
Riram dos medos, das esperanças, das desilusões,
Ele apertado num fato caro, a viola ao lado,
Ela só gola alta e caneta na mão.
Houve também silêncio porque a amizade
Não é feita só de palavras
Mas de compassos, de dar tempo ao tempo e sabe esperar
Ela disse: Anoiteceu, está lua cheia!
Ele respondeu: Como prometido e combinado.
E juntos caminharam até à ponte prometida
Onde entoaram trovas à lua e cantos de revolta
Acompanhados de uma viola que ria
Ele de fato novo, ela de gola alta.
E a noite era deles, porque única, prometida
Porque era noite de rindo de si rir da vida
Porque era noite de soltar a voz.
E a cidade parou para ouvir o canto
E a cidade era espanto da ousadia
De quem quebrava o canto silêncio da cidade morta,
De quem se suspendia na ponte
Entre as duas margens que fazem a vida.
Em baixo corria o rio,
Uma corrente contínua, monótona, nunca antes quebrada
Deram o passo à frente na ponte prometida
Quando rindo calaram canto e viola.
E no dia seguinte foi o pasmo na cidade
Um rio parado separava as margens da ponte contínua da vida
Um fato novo e uma viola retinham o som da corrente antiga
E uma camisola cara empunhando uma caneta dizia palavras inauditas.
Nunca encontraram quem a roupa vestiu
Quem se sentou no banco do acaso
Quem com um passo em frente parou o rio
Quem ousou rindo de si rir da vida
Quem ousou quebrar a corrente
Estender a mão e guardar liberdade.
Poema da Encandescente
Oração das 12:46 AM | | Comentários (10)
fevereiro 24, 2005
Triângulo Mágico

Entra no bosque como se florisses
no ventre das roseiras bravas
e monta o alazão ao rés do sol
Absorve esta luz de âmbar
a alquímica verdade das árvores
para ouvires os segredos da bruma
no voo mítico das aves
Age como fazes
quando ingeres uma paixão
das que se tomam sem pressa
com a lentidão de quem degusta
lentamente a vida
Buscarás na floresta
a essência rara de amar
a síntese do jasmim
com as mimosas ao sol e
o pólen do malmequer que
espalham as obreiras do mel
ouvirás o rumor das fontes
na cristal sombrio dos teus passos
Não há murmúrios que não
tanjam o centro da tua voz
como harpa tocada pelo vento
Saberás onde revolver o húmus
com a espada de Artur e
o olhar profundo de Merlin
aí mesmo
no bosque do teu olhar antigo
encontrarás a raiz do desassossego.
Extirpá-la é ingerir
a síntese de todos os sofismas
que buscas e registas na tua
sempre inconclusa obra
Brilhará no ar um voo de centauro
que tomas pela pira funerária
de todos os teus sonhos
segue-o porque
te conduz à transparência
da razão única do ser
amanhecerás pássaro
e verás na neblina
a corça da esperança que
perseguirás como quem
busca o corpo amado
entre risos e gargalhadas
até ao círculo onde cresce
a Árvore
Verás nela a clorofila do silêncio
que bebes para apaziguar
a morte no seu canto
Então, mas só então
todas as coisas que pressentes
te poderão falar de ti
O sol, o vento,
a brisa que te beija o cabelo
e a Árvore no seu triângulo sereno
onde confluem todos os tempos
Verás que para ela
como para quem ama
não há passado nem presente.
Apenas crescimento... e então
entenderás todas as viagens
no interior de ti mesmo
Ninguém sabe ao certo
o segredo inscrito
em cada pedra
do círculo mágico da floresta
Só no sonho
só no sonho que nos resta
Poema da deSaraComAmor
Oração das 11:59 AM | | Comentários (5)
fevereiro 23, 2005
Carta ao Zeca

E se de todas as bocas saísse hoje a palavra liberdade?
E se saíssemos das casas conforto, comodismo
E na rua olhássemos a miséria de frente,
A hipocrisia que alastra,
O egoísmo do eu feito preocupação diária?
E se em vez de sobreviver
Vivêssemos?
E se a indignação fosse decreto,
Obrigatoriedade, dever cívico a cumprir?
E se a miséria fosse crime público
E quem a permite, julgado e condenado pela lei?
E se disséssemos ao Zeca:
Olha pá, tentámos manter Abril vivo
Mas os cravos hoje são todos sintéticos como a liberdade.
Olha Zeca, a malta perdeu a memória
Esqueceu a história e não vai em revoluções
Senta-se no sofá e faz zapping ao mundo.
E o povo Zeca, já não ordena
O povo, Zeca, esqueceu o que é fraternidade!
Poema da Encandescente
Ao Zeca no dia em que passam 18 anos sobre a sua morte. Por tudo o que representou na minha formação.
Oração das 12:39 PM | | Comentários (14)
fevereiro 22, 2005
Fragmentações

I
No folhear das memórias
nunca saberemos em que noite
sonhámos o mesmo sonho
numa concha de corpos desnudados
e de aromas pressentidos
com a imprecisão dos sabores que
ficam apenas no palato
no entanto é sabido que há um nome
gravado na dureza coralífera
da pele que nos reveste a alma
talvez apenas um poema calado
uma sala abandonada
em que as palavras esvoaçam
e inventam pássaros insensatos
como se fosse possível
saber um nome e permanecer
na concha azul de amar
sem dizer nada...
II
no entanto soletro as letras
uma a uma e sabem-me a sal
o sal puro das estrelas
a cinza azul dos astros
a caliça das paredes desoladas
de cada lugar desabitado
onde gritam vozes nos recantos
palavras reclinadas loucas
insensatas desfocadas
porque nomear o sonho
é uma ciência inexacta...
III
e depois
as manhãs são como os vidros
não reflectem todas as formas dos
móveis dispostos no olhar
mesmo que as cadeiras nos esperem
moldando os corpos para ficar
num balanço aleatório de marés
há lugares vazios nos canapés
e esta dor deixou um trilho
escavado nas margens do olhar
que hoje me vês
IV
moro na intermitência de um farol
desabitado desde que te vi
acendo e apago o sonho
conforme a navegação do teu olhar
os vidros reflectem sombras
e contam histórias de naufrágios
a passagem de anjos e demónios
nos navios por afundar
mas no silêncio cintilante
há murmúrios que deves saber ouvir
dizem-te os sulcos que as mãos
escavam no destino
para que a voz se cubra de tinta fresca
e as paredes ganhem luz
como dantes nas manhãs
que irrompiam pelo olhar
de súbito
sem se esperar
Poema da deSaraComAmor
Oração das 09:33 PM | | Comentários (7)
fevereiro 21, 2005
Refúgio

Olhou ao longe a multidão,
sem ver.
Não se sentia parte da multidão.
Gente só, numa rotina diária, feita de horas e minutos
contados ao segundo.
Virou-se. Respirou fundo, caminhando agora lentamente.
Sabia-se protegida. Sabia-se esperada.
Ninguém mais conhecia aquele caminho. Ninguém o percorria
como eles.
Tinham-no construído devagar, e esconderam-no do mundo não
permitindo as entradas.
E nos passos que dava revia outros passos, e as
sombras escuras eram protecção.
E uma voz chamava-a no final do caminho.
E na voz a paz oferecida na mão estendida.
A mão, final do caminho.
A mão local de paz, espaço sem tempo onde ficavam.
Longe das gentes com horas e minutos contados ao segundo.
Poema da Encandescente
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Do OrCa:
Refúgio ou ninho
Procurar em mim caminho de ficar
E sobrar sempre esta vontade
Premente
De andar
De andar...
Da Olho-de-Mocho:
no fim do caminho
encontrava-te
difícil conjugar-te
no passado
já que és o amor
presente no meu fado.
penso-te lá sozinho
à minha espera
anima-me que essa solidão
te seja alegre
como dantes para ti
esperar-me, era.
Oração das 05:36 PM | | Comentários (7)
A ribeira

A ribeira está ali.
Cheia de pedras, ervas caídas.
Troncos caídos permitem que a atravessemos.
Passamos ou deixamo-nos arrastar pela corrente?
A água em baixo chama-nos
e por vezes é mais fácil ir com a corrente.
Do outro lado está o futuro, a terra prometida.
Mas passar os troncos exige coragem, sacrifício.
Eu vou passar! Queres a minha mão?
Poema de Carlos António
Que a tua travessia seja rápida e segura
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Da Olho-de-Mocho:
Fresco fresco
límpida manhã
um povo redescobre
que é senhor
do destino
que quse lhe fugia
freco fresco
este rumor de gente
querendo saúde paz
trabalho alegria
será verdade?
fresco fresco
corre o rio
do vivo sonho
que quem trabalha
cria.
fresco fresco
é o renovado povo
que esta manhã
sorria.
Oração das 12:37 AM | | Comentários (7)
fevereiro 19, 2005
Balanço

Sei que para lá de ti,
há outros rios, outros sóis, outras marés,
que eu não aprendi.
Mas quero-te, apesar daquilo que não és.
Sei que para lá de ti,
há castelos com tesouros que não mereço,
um céu que ri.
E amo-te ainda, por aquilo que desconheço.
Sei que para lá de ti,
espreitam negruras e carreiros de solidão,
que já percorri.
Partir, será ainda solução?
Sei que para lá de ti,
há maravilhas que não me podes dar,
e que eu pedi.
Pode um egoísta como eu, saber amar?
Poema de Manuel Filipe
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Da Luna:
amar podes sempre
amamos até os egoistas
amamos até sem nada pedir
amamos só para ser amados
amamos esquecendo-nos de nos amar
para amarmos...só amarmos!
Da M.P.:
Para lá de ti
há caminhos
nunca te exigidos.
Para lá de ti
há sóis merecidos
sem fulgor
porque esquecidos.
Para lá de ti
Há Olhares
Há Vidas
Há Amores
Ainda a repartir.
Para lá de ti
Há vós...
Para lá de ti
Há Chegar.
Para lá de ti
Há ainda Amar...
Da Vivian:
Lá
existe sim
amor sem fim
amor pra vc
amor pra mim...
Lá
onde as almas se encontram
os amores se fortalecem
tudo é lindo
tudo é belo
tudo verde, e amarelo...
Lá
onde não há solidão
há amor no coração
e até o maior dos egoístas
Lá amor vai encontrar...
Oração das 11:39 AM | | Comentários (16)
fevereiro 17, 2005
O Homem Guitarra

Tão juntos que eram um
O homem e a guitarra
Num abraço apertado
O homem e a guitarra.
E a guitarra gemia
Sons impossíveis
E o homem arrancava
A nota inatingível
E abraçava
Apertava
Tocava
Acariciava
E o diálogo era amor
E a guitarra era corpo
E o homem era corda
E a guitarra tocava o homem…
Tão juntos que eram um
O homem e a guitarra.
Poema da Encandescente
Ao Carlos Paredes que faria hoje 80 anos
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Da M.P.:
E a Guitarra gemia,
e a Guitarra tocava
a melodia
que te enebriava
que te beijava
como amante
louca de Paixão
ardente de Emoção
toda Coração.
E tu
não mais só Homem
compuseste
a Cantata da tua Paixão
Ária de Salvação,
o caminho certo
que te levou
à Redenção
Da Seilá:
encostada ao peito
em deleite aninhada
uma guitarra soa
a música que ouves, linda
é o bater dum coração
o tic tac de quem a dedilha
Oração das 07:57 PM | | Comentários (14)
fevereiro 16, 2005
Dias meus

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.
(...)
Poema de Alberto Caeiro
Ao som de Samuel Barber - Adagio for Strings
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Da Náufrago:
".........
Sino de Belém, que graça ele tem!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.
Sino da paixão. - pela minha irmã!
Sino da paixão. - pela minha mãe!
Sino do Bonfim, que vai ser de mim?...
Sino de Belém, como soa bem!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.
Sino da paixão... Por meu pai?...-Não! Não!
Sino da paixão bate bão-bão-bão.
Sino do Bonfim, baterás por mim?...
......."
Manuel Bandeira
Da Menina_marota:
Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
— Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
— Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.
Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
— Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essas luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
— Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.
[Almeida Garrett in As Minhas Asas ]
Oração das 01:18 AM | | Comentários (16)
fevereiro 15, 2005
Algarve, amendoeiras e pôr do sol...




Ary dos Santos: Tempo da Lenda das Amendoeiras
(...)
A Princesa
Ai portas do meu silêncio.
Ai vidros da minha voz.
Ai cristais da minha ausência
da terra dos meus avós
desatavam-se em soluços
os seus cabelos desfeitos.
(...)
O Rei
Dizei-me magos oragos
anões duendes profetas
adivinhos e jograis
sagas videntes poetas
como hei-de secar o pranto
daqueles olhos de rio
como hei-de calar os ais
daquela boca de estio
como hei-de quebrar o encanto
que numa tarde de pedra
talhada pela tristeza
selou com dedos de chumbo
o sorriso da princesa
que suspira pela neve
da ponta do fim do mundo.»
Roubado indecentemente ao TCA porque não estava com paciência para procurar e dedicado aos meus anfitriões deste fim de semana no Algarve pela sua amizade e simpatia. Ao som do Adagio de Albinoni.
---------------------
Da M.P.:
Tempo de fel
Tempo de mel
Fel sem tempo
Mel de tempo
Tempo sem fel
Tempo de mel
Mel sem fel
Tu no tempo
Tempo com tempo
Tempo contigo
Tempo com outros
Tempo teu
Tu e outros
Tu e o Tempo
Tu e tu
sem fel
Com tempo
para ti
para outros
Vida
A tua Vida
O teu Tempo
Com Tempo
Para ti!
Da Menina_marota:
Quem me compra um jardim
com flores?
borboletas de muitas
cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis
nos ninhos?
Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro
e a hera,
Uma estátua da Primavera?
Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua
canção?
E o grilinho dentro
do chão?
(Este é o meu leilão!)
[Cecília Meireles in Leilão de Jardim]
Oração das 02:36 AM | | Comentários (19)
fevereiro 14, 2005
Regresso

Volto a casa,
com os olhos cansados de mortos
e negro das cinzas que caíram
de jardins incendiados.
Volto a casa,
Com a alma em farrapos, sem sorrir,
por todas as auroras que ruíram
e pelos restos de cravos decepados.
Volto a casa,
perdidos que foram os meus portos,
vergado pelas noites sem dormir.
Aguilhoado pelas traições da esperança,
quero cair num longo sono de criança,
que sufoque o desespero que me abrasa.
É com a dor dos derrotados,
que volto a casa.
Poema de Manuel Filipe
Porque há dias em que a tristeza, a desilusão e o sentimento de inutilidade pesam demasiado. Porque hoje sinto as traições da esperança e a dor dos derrotados. Porque me está a apetecer fazer "delete". Ao som de Michael Nyman - The Piano (Theme).
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Da Seilá (a grande amiga marafada :) ):
"Fogo que desesperança se cola na minha inquietude de início de semana! e no entanto o sol brilha... porventura,nem devia brilhar e sim, chorar a desesperança em lastros de chuva de modo que as sementes se reflorissem e os teus e os muitos sorrisos e esperanças e os sonhos e ilusões enganalassem as desilusões várias que, mais não são, que a nossa infinita crença de que podemos sonhar."
Nota: para que não digas que para aqui só vem o que é escrito na vertical...
Da Náufrago:
o sol é que me salva
liberta-me da noite.
todos os dias!
quer eu queira quer não.
aí está ele a ferir-me os olhos
que se querem fechar e só dormir.
o sol é que nos salva.
abençoado seja!
se a vida é uma só
de que serve fugir?
Oração das 01:31 AM | | Comentários (12)
fevereiro 11, 2005
Depois da Guerra

Eram tantas, tantas raivas pra matar
Eram tantos, tantos medos pra vencer,
Eram tantas, tantas sombras pra apagar
Eram tantas, tantas dores pra esconder...
Eram tantas, tantas feridas pra sarar
Eram tantas, tantas mágoas pra esquecer
Eram tantas as estradas por rasgar
Eram tantas, as vidas por viver...
E eram tantos os campos por lavrar
Eram tantos os sois para nascer
Eram tantos os filhos por criar
Eram tantos, os poemas por escrever...
Eram tantas as saudades do teu beijo
E tanta a falta do teu ombro forte,
Era tanta a tortura do desejo
De tão varrida a alma a vento norte...
Que então parei, nunca mais fugi!
Sepultei os muitos já caídos
Fiz tratados de paz, sobrevivi
Estendi a mão, uni-me aos já unidos...
Lavrei os campos e reconstruí
Todas as casas que tinham ruído
Olhei o longe, vi futuro e sorri
E a vida, voltou a ter sentido!...
Poema de Maria Mamede
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Da M.P.:
Depois da Guerra...
junta-se os destroços e as forças.
Luta-se para vencer a Morte,
busca-se um qualquer Norte
que nos afaste do descalabro...
Faz-se das lágrimas forças,
troca-se os medos por ânimo,
adoça-se com mel os travos amargos de revolta
apazigua-se os terrores com renovados Amores
em fuga célere do Abismo...
E parte-se em Rumo Novo
para um Futuro de Luz
onde o Sonho é directriz
com o Poder Sobrenatural
de tornar a Vida Feliz.
Da Menina_Marota:
"A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.
Muita gente infeliz assim não pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?
Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a crença de fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro - avança!
E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da morte a me bradar: descansa!"
"Augusto dos Anjos in A Esperança"
Do OrCa:
Do casario inocente ainda brotava
O sangue das paredes destruídas
Empapando a terra profanada
Pelas botas cardadas homicidas
E contudo renscia num recanto
Da semente que a vida nunca esquece
Uma flor num fio de voz
Um acalanto
E a mãe embala o filho numa prece
Tanto inverno e tanta dor na tempestade
Tanto ódio sem saber da vida o rumo
Mas naquele recanto só a Humanidade
Do entrondo da metralha
Espanta o fumo
Nada os cobre ou os protege
Nada abriga
Aquela mãe e o filho que amamenta
E o sorriso que ambos têm contra o frio
É a vida que de simples se sustenta.
Da Sónia:
...eram tantas em tantas vezes
sentidas do tanto
deste (meu)querer tanto!
Oração das 02:53 PM | | Comentários (16)
fevereiro 09, 2005
Vamos inventar a vida escritora?

Vamos conversar?
Tu levas o chapéu
eu as gangas, os camisolões.
Sentamo-nos no banco do jardim,
e falamos das vidas. Das nossas.
Do que perdemos, do que não ganhámos,
do que vivemos, do que deixámos de viver,
dos projectos que não realizámos.
Das demasiadas perdas.
Vamos sim, escritora!
Eu levo o chapéu e a máquina,
tu as gangas, os camisolões,
o bloco de notas e a caneta.
Sentamo-nos no banco do jardim,
e tu escreves das nossas vidas,
do que vamos ganhar, do que vamos viver,
dos projectos que vamos concretizar.
E eu fotografo a vida que tu inventas.
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Da LibeLua:
era ali
o lugar onde se ouvia
a voz dos objectos
havia o reflexo e o volume
havia a palavra ainda oculta
havia o brilho, a cor aflita,
a intensidade e a textura
da verdade ainda fria
havia a luz, a lente, o foco
e havia a palavra
havia o ângulo e o olhar
e havia a saturação da cor
nas coisas que aguardavam
uma forma de (se) dizer
na estória que tinham para
contar
era ali, sim o espaço e o momento
em que o silêncio se fragamentava
em ecos de gente a gritar...
Do OrCa:
Naquele banco de jardim
Que o Sol enchia de luz
O fotógrafo sentou-se
E traçou sobre a direita
A sua perna esquerda
Olhou a vida toda inteira à sua frente
E toda aquela de que era feito
Com olhos de quem se habituou
A circunscrever a realidade
Dividida em fragmentos interactivos
Para a tornar mais próxima
E assim mais universal
Respirou profundamente
Enquanto um sorriso afluía
Descuidado à sua face
E inquietamente sereno
Traçou sobre a esquerda
A sua perna direita
O poeta que se sentava
Naquele banco de jardim
Que o Sol enchia de luz.
Oração das 09:22 PM | | Comentários (19)
fevereiro 08, 2005
Sinfonia em Veneza

1º andamento
Que diabo faz um nobre veneziano parado na ponte dos Suspiros? Quem se mascara formalmente de “bauta”, “tabarro” e capa de seda, para ficar a contemplar as águas na esplendorosa noite de Carnaval? Eu, claro! Sou apenas um turista que poupou o ano inteiro para vir ver a mítica cidade de Columbina, e a verdade é que não sei como deixar de sê-lo, para passar a assumir a minha máscara. Vacilo nos gestos e na postura como se me tivessem enfiado um fato de monge. Claro que esta máscara é comum por aqui, mas carregada de simbolismo. Devia dar-me uma pica enorme, mas tudo que consigo é sentir-me um misterioso Pierrot que encara filosoficamente o mundo e os excessos carnais. Assim um sagaz cortesão que do alto da sua firmeza observa as misérias humanas que as máscaras escondem, a luxúria, a cobiça, a vaidade, mais do que aquilo que a lua revela, as pedras das igrejas, os canais, os velhos palácios e as suas torres. Mas, porra, penso. Para ficar a ver a vida passar, como uma solteirona sem par a ver o baile, mais valia ter ficado em casa. Na verdade, começo a sentir que gostaria mesmo é que algo acontecesse à minha volta para ficar assim com a ousadia dos cavaleiros que a coberto deste disfarce aguardavam um sinal de luz numa das janelas dos palácios para se introduzirem na alcova das amadas. Esquecer que sou apenas um turista desfasado e cair no turbilhão de uma paixão quinhentista que me cerque o coração por esquinas e travessas ao longo dos canais...
Sente-se o crescendo lento na sinfonia dos meus passos. A continuar assim, no final da ponte dos Suspiros haverá já em mim um Don Giovanni que quer experimentar uma descida aos infernos. Suspiro. Esta é certamente a ponte dos desejos. Tenho de me juntar à multidão para passar a fazer parte da euforia colectiva, ou estou tramado. Vejo um grupo de saltimbancos que se aproxima a rir. Vêm audazes e pigarreiros prontos a varrer à sua frente qualquer réstia de tristeza. Quero segui-los pois que os vejo mascarados por dentro e por fora. Vou. Daria como Fausto a alma ao demo para me transformar num Guidobaldo corajoso e salvar a doce Vanina na trança do vento. Sinto-me cada vez mais audaz à medida que a noite me guia para o mistério, num “allegro ma non tropo” ainda aprisionado na minha máscara de turista. Perto do Florian, os saltimbancos param. Um deles fala pelo telemóvel em italiano com alguém, os outros esperam. Ainda ninguém me estranhou, no meio da confusão de damas e senhores altaneiros, navegantes e pintores renascentistas. Eu decidi que os seguiria, na esperança que montassem ali mesmo uma genuína comedia dellarte. Mas não. Sentam-se no café à frente de umas míseras cervejas, como qualquer cidadão do novo milénio ao fim de um dia de trabalho, em qualquer cidade da Europa...
2º andamento
Perdido o encanto, dedico-me a observar o desfile enquanto a massa humana me quer arrastar para o centro desse rio de riso e cor. Mas eu sou uma ilha e estou preso nos meandros da lagoa. À minha volta emergem as águas escuras do canal e o som de mil vozes coloridas, cálidas, cristalinas, enquanto do céu chove esta poalha luminosa em tons de fantasia garrida. A lua é o único elemento sóbrio e silente neste cenário onde continuo mascarado de turista sob o meu fato de príncipe. Mas então, houve um instantâneo que me cegou, talvez um flash de uma foto, talvez um piscar de néon ou um mar de serpentinas sobre o candeeiro da rua. Cegou-me a luminosidade lunar da mulher que vejo avançar para o café. Caem confettis sobre os seus ombros de deusa e ela aparece, transparente como se viesse nua . Ela, uma borboleta no olhar e um corpo de cortesã feita para amar. Assim um sopro a passar com a leveza das pombas. Uma Columbina pronta a seduzir os admiradores, que se atravessassem galantes no seu caminho. Um dos saltimbancos faz jus ao radical latino da palavra Carnaval. “Carne vale”. E, se contam os prazeres da carne, vai de passar a mão na doce Columbina no sítio onde lhe pareceu que mais havia. E a estalada caiu como um golpe de florete na cara do folião. Columbina saiu deixando o saltimbanco a massajar o rosto no meio da risota geral. Quis segui-la. Perdi-a no meio da algazarra. Os saltimbancos permanecem entre tempos. Eu regresso enfim ao meu, apesar de nem sequer dele ter saído.
Ponho-me a caminho do hotel, prestes a tirar a máscara, no desalento de uma noite banal. Afinal sou a máscara de mim próprio e estou encarcerado nela.
3º andamento
Mas a noite emudeceu num virar de esquina e o tempo pareceu retrair-se como quando uma vaga se forma. Então, sob as colunas de São Todarro, um luar mais denso e... ela! A minha Columbina aguarda-me, sob a iluminação da rua, brilhando tanto a sua máscara de borboleta, como a hematite do seu olhar. Sou péssimo a falar línguas, qualquer uma, mas busco todas, alinhavo várias e as palavras saem como balas esperando alcançar o alvo do entendimento.
Gargalhada rasgando a noite como pio de coruja e a minha Columbina sai-se com esta proeza! Pergunta-me em bom português se quero segui-la. Se quero? A todo o lado, digo-lhe. Menos a igrejas, responde-me. Afinal és portuguesa? Talvez. Vamos. Guia-me nesta cidade lacustre. É esse o teu maior desejo? Sim. Pois seja!
Corremos na neblina, cercamos as colunas, jogamos os jogos do desejo. Enlaço-a, perco-a, encontro-a. Sou agora um cortesão perseguindo a minha dama nos labirintos do jardim da noite. Deixo de a ver, aparece-me no vão das vastas escadarias, ou no lugar onde nasce a escuridão e a sombra morre. Aí mesmo a cerco. Damos as mãos num compasso sereno e vamos sentar-nos perto da ponte de Rialto. Entre risos, o beijo ardente. Decido que esta ponte assinalará o último andamento da minha opereta. A posse. Tomo o seu corpo num ritmo “moderatto” sob as vestes. Percorrendo as longas pernas, sinto as ligas e num toque inesperado a carne quente e palpitante. Apalpo o sexo em fibra de cetim, e mergulho os meus dedos nesse canal de prazer. Ela suspira sob o meu tacto, enquanto com os dentes lhe arremesso o vestido, agora já num “allegro cantabile” quase frenético, e lhe descubro os seios ebúrneos completamente entumecidos de desejo. Arfamos como dois lobos num ritmo agora selvático que me enlouquece de desejo e ela que tão bem sabe trabalhar-me o membro, o grito preso na garganta a explosão prestes a tornar a noite branca e eu só penso, afinal vim a Veneza para comer uma columbina ao luar vestido de príncipe, mas com a tusa de um primata embrutecido. Sinto vontade de a virar para a tomar pelas ancas, mas ela antecipa-se e levanta o vestido abrindo para mim a caverna húmida do prazer. Cascatas de riso felino, e a minha ninfa senta-se descendo sobre o meu sexo, deslizando-me para dentro de si, o muco palpitante e quente que me suga para o interior da noite mítica e eu fauno enlouquecido de prazer escorrego para dentro da minha máscara e já não sei quem sou. E num meneio ousado das suas ancas, eis a explosão maior, desde que a última super nova se estilhaçou no longínquo firmamento. A sinfonia termina num “staccatto” lento e espasmódico quase interminável, naquele canal por onde agonizava a minha gôndola.
4º andamento
Meu Deus, disse e nada via pois a noite era um pontilhado de serpentinas luminosas. Mas assim que chamei Deus para testemunhar o prodígio, sinto-a que estremece sobre o meu peito. Apenas dei pelo relâmpago a estalar no céu de chumbo. Um sinal de fumo e a minha Columbina subia, subia, desfazendo-se em neblina, Os pés, rápido, apanhá-la ainda pelos pés que a quero minha. Mas nas minhas mãos ficaram os cascos bifurcados de uma cabra montanhesa, enquanto brilhava em queda a máscara de borboleta. Apanhei-a de encontro ao peito no alvoroço do fenómeno e foi então que dei por aquele cão negro que me fitava inexpressivo. Agora já não era o audacioso Don Giovanni, mas um Dante a regressar dos Infernos onde a minha Beatriz se havia desfeito em fumo. Fugi num “presto” galopante para tomar o primeiro “traghetti” que me levou dali para a realidade. Despertei no meu hotel, alagado em suor. O recepcionista da noite passada já voltara ao seu posto. Soube por ele que vários saltimbancos e uma columbina me tinham trazido ao hotel completamente ébrio. Nunca mais voltei a Veneza. E não me tem apetecido tomar cerveja.
Um conto da LibeLua a quem agradeço a oportunidade de retomar uma parceria em que tenho imenso gosto.
Oração das 12:05 PM | | Comentários (8)
fevereiro 06, 2005
Mascarada

Hoje é dia oficial de pôr a máscara
Assumir a capa
Tornar visível o Carnaval
Hoje usa-se a máscara
Como se não a usássemos todos os dias
Como se hoje, Carnaval
Fosse um dia excepcional
E não um dia igual a todos os outros
Em que usamos máscaras
Mas não as assumimos
Poema da Encandescente
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Da Náufrago:
tirei a máscara e olhei o espelho
não mudei
era o mesmo rosto a mesma dor
o mesmo olhar de espanto
que usei
todo o ano face ao mundo
em meu redor.
colou-se à pele a máscara?
é a minha?
não sei é mesmo de outra que me vá.
vivo o meu carnaval sem rei e sem
rainha.
oiço os gritos lá fora. a diversão:
tantos os foliões. vou dormir mal.
que faço?
tomo um chá.
Do Espectro #999:
Escoam-se as verdades
Ocorrem leviandades
Mas verdadeiras maldades
É não assistir às festividades.
Assim brota em mim uma torrente
que procura a festa e rebaldaria
nestes dias que ao demo mais parece
ser o Carnaval sua pertença.
Do OrCa:
O riso cruza o amargor da calçada
E tropeça no langor da Columbina
Perdeu o Arlequim a sua máscara
E disfarça a dor da festa que já finda
Há folguedos nas paredes
Mal pintados
E destroços feitos de ossos e carniça
Há palhaços que lavando a maquilhagem
Dão com a cara de palhaço que é a sua
E a moça do desfile da sociedade
Vê que é tarde para andar assim tão nua
Outro dia lá vem
Outros folguedos
Para trás ficaram ruas com seu lixo
Que a chuva indiferente já percorre
Pela frente outros enredos e desfiles
Outro tempo feito da vida que corre...
Talvez traga um carnaval de nova esperança
Este tempo de que somos todos feitos
E haja risos e Sol e tanta dança
Que as máscaras de nós
Os preconceitos
Enfim caiam ao chão
E assim renasça
Das cinzas da cidade
O carnaval.
Oração das 05:58 PM | | Comentários (21)
fevereiro 04, 2005
Peregrinações (em mim) - II


Um nascer do sol inesquecível nas Quatro Águas em Tavira, em 1974.
Leve, se descobre a manhã
Leve, se descobre a manhã.
Da noite clara ficou
o orvalho e a luz
(mel do estio)
derramada no céu.
Foi o silêncio?
Que véu nocturno fez tremer o sono?
Que canto triste nos impediu de sonhar?
Há certa hora,
curta,
serena,
em que o olhar se apazigua
e a dor fenece como a Lua:
- Devagar
Manuel Filipe
-----------------
Da M.P.:
Peregrino
em ti
renovas em passos
os trilhos
percorridos
espaços idos
de tempos
em ti
passados
com silêncio
que mata
temores
de Luar prata
que se esvanece
calmo e pálido
na madrugada
dourada
de Sóis
por descobrir.
Da MJM:
talvez
no nada dizer se diz
o sim e o não, talvez
que o silêncio
urde enormes catedrais
magnete de peregrinas dúvidas
dízimo sempre adiado
como o vinho dentro das uvas
(9.NOV.2004)
Do OrCa:
Há um rio de Sol
E há um rio de barcos
E uns braços que remam
Na vida de charcos
Formados na vaza
E o lodo constrange
E há uns braços que remam
Na vida de charcos
Que o lodo constrange
E há um rio de barcos
Que se fazem coragem
Na nova viagem
De um rio de Sol.
Oração das 10:58 AM | | Comentários (16)
fevereiro 03, 2005
Sob a luz do meretrício

Sou meia-luz
Sou meio-irmão
Sou meia-noite
Meio-limão
Meia-idade
Sou meio mau
Sou meio-fio
Sou meia-nau
Sou meia-laranja
Sou meio-gás
Sou meia-lua
Meio rapaz
Meio-tempo
Sou meia-final
Sou meio-jogo
Sou meio animal
Sou meio tia
Sou meio-tom
Sou meia-lona
Meio bom
Meio-termo
Sou meio-corpo
Sou meio-vivo
Sou meio-morto.
Apague a luz se faz favor
Porque agora é meio-dia.
Poema de Nino Garbin
Oração das 02:16 AM | | Comentários (13)
fevereiro 01, 2005
Olha bem...

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...
Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos
Oração das 02:41 AM | | Comentários (14)