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março 31, 2005

O verso e o reverso

de saber da vida o verso e o reverso

De bruços sobre o verso
Controverso
Depuro-o sem apelo
Pelo reverso
Num estilo porventura bem perverso
Só para ver se o verso versa
Contra o verso
Nessa pressa
Incontrolada
E manifesta
De saber da vida o verso
E o reverso
Que começa na aventura de um poema
Para que tudo
Por fim
Nos valha a pena.

Poema indecentemente roubado ao OrCa

Oração das 11:10 PM | | Comentários (13)

Apetece declamar hoje

aborto
Gritos Mudos

Durante anos fui silêncio
E os versos que escrevia
Eram gritos que ecoavam dentro
Mas a que não dava voz
Instantes a que não voltava
Portas que fechava
E não voltava a abrir.

Agora que lhes dou voz
Que os ponho em palavras
Confrontam-me a cada instante
Gritam-me
Ferem-me os olhos
Mas sei
Que por cada palavra dita
Há mil outras que calarei.


Poema da Encandescente

Porque hoje no Tribunal de Setúbal decorre mais um julgamento de mulheres acusadas de aborto


"Em Portugal. No século XXI. Depois de amanhã contaremos às nossas filhas que ainda somos do tempo em que as mulheres eram levadas a tribunal por abortarem. Tal como acontecia em Inglaterra em 1950."
Cris
Lilás com gengibre

Oração das 10:33 AM | | Comentários (8)

março 30, 2005

Dia

detestavel

Amanhece.
O poeta de penas já cantou.
Já nos seus altos versos adormece
O fantasma da noite que passou.

Como um halo de sonho acontecido,
A luz das coisas vai nascendo em nós;
Desenha-se na sombra o pressentido,
E a vida já tem gestos e tem voz.

Já novamente o sol doira a frescura
Da relva verde e do lençol de linho.
Outra vez há ternura
De gente a ver-se e de se ver caminho.


Miguel Torga in "Diário II - 1943"

Oração das 09:41 AM | | Comentários (15)

março 27, 2005

Ilha de Cós

um lugar de harmonia

Eu sabia que tinha de haver um sítio
Onde o humano e o divino se tocassem
Não propriamente a terra do sagrado
Mas uma terra para o homem e para os deuses
Feitos à sua imagem e semelhança
Um lugar de harmonia
Com sua tragédia é certo
Mas onde a luz incita à busca da verdade
E onde o homem não tem outros limites
Senão os da sua própria liberdade

Manuel Alegre in "Chegar Aqui"

Oração das 07:44 PM | | Comentários (18)

março 24, 2005

O Mensageiro

o mensageiro

Escrevo na linha dúbia que regula a imoralidade das estações,
e é por entre as linhas quebradas da chuva
que me tolhe a visão cíclica do alazão branco a chegar,
pluvioso de tímido... suado de chuva e torpel e nele um escravo
negro de terror, mensageiro esfarrapado de vestes húmidas
gestos que vêm do passado, dos eixos que foram outrora
a terra cavada de esperança.

É por entre os fios dispersos ao vento que evoco o riso louco, o canto inerte das mulheres -- Marias, três, não mais,
que carpiram o judeu e o limparam, untuosamente cingindo-lhe
as alvas carnes com os dedos mudos de desejo, a paixão impressa na orla branco da sua túnica de linho
tintado de sangue e sacrifício.

Escrevo no momento em que do passado escorrem mendigos flutuando na indecisão das cabras feridas nas artérias
e se instalam na noite florida de morteiros,
enevoada esta de sirenes e melopeias falaciosas, bailando como inúteis
destroços das fábricas de conserva e mantimentos trazidas
de um qualquer cidade relâmpago do ocidente.

Escorre a eternidade das coisas que nasceram entre os férteis rios
e fizeram o passado que nenhuma voz chama já por ser a sombra dos silêncios por tecer. Embrulho em lençol de seda os despojos lamentáveis vermineiras dos que não conheceram os abstractos desejos do infinitivo verbo haver.

Rasgam-se e ungem-se os véus de um templo profanado, sudário onde a chuva não chega nem as límpidas marés-baixas. A terra abriu-se para verter o seu vórtice negro em forma de vómito de ouro. E o alazão branco trouxe o escravo negro.

E é por entre os fios dispersos ao vento que ouço, mas não evoco o riso louco, o canto inerte das mulheres -- Marias, três, não mais,
que carpiram o judeu e o limparam, untuosamente cingindo-lhe
as alvas carnes com os dedos mudos de desejo, a paixão impressa na orla branco da sua túnica de linho
tintado de sangue e de inútil sacrifício, esse seu gesto de desfalecimento que havia de circuncizar o mundo...

Quando as entranhas da terra se abrem e assim vomitam arfantes
espectros de espada em riste, o mundo em vista,
a morte em direcção ao presente inseguro em torres de betão,
é toda uma nuvem de gente que rasga o silêncio de mortos,
carregados com o peso da dúvida entre as raízes quebradas dos seus
jardins ou as flores colhidas de pânico e cobertas do jasmim final de uma qualquer vala comum.

No seu branco corcel,
quem é este mensageiro,
afinal?

Poema da LibeLua publicado originalmente no Poemas de trazer por casa e outras estórias

Oração das 11:26 PM | | Comentários (23)

março 23, 2005

Dia Azul

jogos-luz

Num dia azul, meu amor,
Irei contigo.

Porque é fatal partir,
(há outras ilhas)
porque a alma se vai embalando de vazio,
porque o corpo definhará com a espera.

Anunciado já o fim das maravilhas,
desterrei os meus olhos pelo rio
até ao mar,
cintilante refúgio da quimera...

E de repente
no ar vibrou, breve e plangente
o apelo insistente da sirene;

Largaremos lentamente em fumo e sonhos,
entre as gaivotas que pairam no poente.

Manuel Filipe in "Num Relance"

Oração das 10:35 AM | | Comentários (13)

março 21, 2005

Dia Mundial da Poesia

flores

Lavoisier

Na poesia,
Natureza variável
Das palavras,
Nada se perde
Ou cria,
Tudo se transforma:
Cada poema, no seu perfil
Incerto
E caligráfico,
Já sonha outra forma.

Carlos de Oliveira in "Sobre o Lado Esquerdo"

Oração das 08:03 PM | | Comentários (14)

Nevoeiro

carro

Parado no transito da ponte.
As luzes que brilham,
O Cristo Rei entre nuvens.
Põe o rádio bem alto.
A chuva que finalmente cai
Dá-lhe uma sensação de conforto.
Os vidros embaciados,
O cheiro que paira,
Lembram o nevoeiro que ficou para trás
E momentos inesquecíveis.
Um sorriso vem-lhe aos lábios.
Lisboa é bela nestes momentos.

carro-interior-1.jpg

Oração das 01:06 AM | | Comentários (9)

março 18, 2005

viver

"Viver é a coisa menos frequente do mundo
A maior parte das pessoas existe e isso é tudo"

Joaquim Pessoa in 125 Poemas

Oração das 12:58 AM | | Comentários (20)

março 16, 2005

Nevoeiro

fuga

O nevoeiro
rodeou teu vulto negro
e eu vi bem
que não te debateste nos seus braços
e que lentamente ele te bebeu.

Eu compreendo
a tortura que sofre o nevoeiro,
a tortura que a água sofre e geme.
Sim, nós não podemos beber
a essência, o móbil de nós mesmos;
a água não se pode beber a si mesma
portanto morre de sede.

E chora e geme e procura-se
e vem em nevoeiro
e sobe
e desce
e envolve os vultos negros
e bebe-os...
dissolve-os...

Porque deixaste o nevoeiro rodear-te?...

Para quê dar de beber ao nevoeiro?

Jorge de Sena in "40 anos de servidão"

Oração das 10:30 PM | | Comentários (8)

março 15, 2005

(mais outra canção para a Inventada.)

maos

Dá-me a tua mão

Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.

Poema de José Gomes Ferreira

Oração das 10:32 PM | | Comentários (7)

Poema fodido

poema fodido

Apetece-me escrever como o Bocage
Mandar tudo para o caralho
E que se lixem as boas maneiras.
E num poema fodido
Porque estou com um humor de cão
Mando à merda a boa educação
E escrevo o que me apetece.
E dou um murro no poema
Como se desse um murro nas trombas
De quem não gosto e me chateia.
A merda que escrevo é só minha
Não sou correcta, educada, certinha
E na escrita sou
E faço o que me apetece!
Portanto mando a poesia para o caralho
E num poema fodido
Esmurro a página e a linha
Porque escrevo o que me apetece
E a merda que escrevo é só minha!

Poema da Encandescente

Porque estou farto de gente reles. Porque como alguém disse "O poema, sendo bem escrito (como sempre), tem uma característica adicional que eu prezo muito: dá um murro na vesícula às mentes tacanhas. E Portugal precisa muito disso... penso eu de que...". Porque me apeteceu.

Ao som de Metallica - Nothing Else Matters

Oração das 12:04 AM | | Comentários (29)

março 13, 2005

Cantiga, partindo-se

meus olhos, por vós, meu bem

Senhora,partem tão tristes
Meus olhos, por vós, meu bem,
Que nunca tão tristes viestes
Outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

João Roiz de Castelo Branco (séc. XV)

Oração das 08:19 PM | | Comentários (20)

março 12, 2005

Cântico sem esperança

cantico-1.jpg

Nos confins da raiva, de dentes cerrados
nas ânsias da angústia - prantos não chorados,
corre-se para a morte, que a esperança escasseia,
esquecidos ideais, dispersos na areia.

Caimos por fragas de fauces abertas,
olhos escancarados, nas almas desertas;
Sonhos de criança volteiam no ar,
e, descem connosco, ao fundo do mar.

Na treva adensada, em vigília dorida,
corpo extenuado da longa corrida,
erguemos às estrelas um lírio selvagem...

Desafiada a vida, esgotado o prazer,
sem norte nem sorte, que vamos fazer?
Ser mais outro vulto, de pé, na paisagem?

Poema de Manuel Filipe

Oração das 01:01 AM | | Comentários (12)

março 11, 2005

Faz hoje um ano

flor vermelha

E o homem é besta que espalha o horror
Em mil pedaços de carne despedaçada
Gritos lancinantes,ferro retorcido.
E o homem cria o caos, o vazio,
O nada e a ausência
Dos mortos de ocasião.
Os mortos são a mensagem do homem besta.
E o homem espectador cala, faz silêncio
Porque para o horror não encontra palavras
E não há frase que defina o nada.
Cala um grito que devia ser solto
Não silenciado,
Porque calados estão
Os mortos de ocasião.
A dor que sentiram
O sofrimento da carne, a morte
Devia sair em raiva,revolta
Num grito contra o homem besta
Que num minuto despedaçou
Tornou ausência e silêncio
Os mortos de ocasião.

Escrito pela Encandescente a 11 de Março de 2004

A foto é repetida mas achei que se adequava à situação

Oração das 10:30 AM | | Comentários (11)

março 10, 2005

Vendem-se castanhas

mulher castanhas

Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono,à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.

É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.


Letra: Ary dos Santos
Música: Paulo de Carvalho
Canta: Carlos do Carmo

Oração das 10:27 AM | | Comentários (16)

março 08, 2005

Mulher

mulher

(...)No dia 8 de Março de 1857, a luta travada pelas operárias têxteis de Nova Iorque pela redução do horário de trabalho, por melhores salários e condições de vida mais justas, transformou-se num marco importante. 129 tecelãs da Fábrica de Tecidos Cotton pararam o seu trabalho, reivindicando o direito à jornada de 10 horas.

A polícia, a mando dos patrões, reprimiu-as violentamente, fazendo com que as operárias se refugiassem dentro da fábrica. Os donos desta, juntamente com a polícia, trancaram-nas dentro da fábrica, uma indústria têxtil mal ventilada que ocupava os 3 últimos andares de um prédio de 10 andares e atearam-lhe fogo. O soalho coberto de materiais inflamáveis e de lixo que se amontoava por todos os cantos, sem saídas de incêndio, foi rapidamente pasto de um grande incêndio que envolveu 500 mulheres jovens, a maior parte imigrantes judias e italianas.

Quando os bombeiros chegaram já 147 mulheres tinham morrido carbonizadas ou estateladas na calçada da rua, para onde saltavam, ao tentar escapar das chamas.(...)

Texto descaradamente roubado ao Zé Gomes do Movimentum e que pretende de algum modo enquadrar a composição fotográfica.

Como discordo totalmente da existência deste dia que, na minha opinião, só demonstra a quem pudesse ter dúvidas a discriminação sobre a mulher que perdura sob os nossos olhares condescendentes, aqui fica um poema com que me identifico:


Café e cigarro, computador ligado
E de repente fico com humor de animal em vias de extinção
Em todos os blogs: O dia internacional da mulher.
Hoje não haverá mulheres preteridas nos empregos... Porque são mulheres.
Hoje não haverá mulheres maltratadas... Porque são mulheres.
Hoje todas as mulheres se sentirão felizes...Porque são mulheres.
Hoje é, excepcionalmente dia da mulher
E todas as mulheres deviam sair para a rua
E celebrar hoje:
O dia do homem que inventou o dia da mulher.
E oferecer a cada um deles, em homenagem e protesto
Os símbolos, que nos outros dias do ano as representam:
Um avental, uma tábua de passar a ferro, um fogão.
Eu que sou mulher que não precisa de dias
Porque faço de todos os dias, meus
Eu que não preciso que um dia por ano
Homenageiem a minha condição de mulher
Eu, que acho que igualdade seria
Não haver, um dia excepcionalmente da mulher
Eu que acho o dia da mulher negativamente discriminatório
Fico com humor de animal em vias de extinção.
E acendendo um cigarro
Recuso-me a ler mais homenagens à mulher
E espero que ninguém tenha o azar,
De hoje, dia excepcionalmente da mulher
Me oferecer uma flor.

Poema da Encandescente

Oração das 12:38 AM | | Comentários (12)

março 06, 2005

"O poeta é um fingidor..."

o_pensador

Um bom poeta é um escultor de palavras
Arredonda-as ou aguça-as
Lima-lhes as imperfeições
Entrega o verso perfeito
Na mão de quem o lê.
Um bom poeta faz magia com as palavras
Dá-lhes sabor, polvilha-as de cheiros
Sentindo
Desperta os sentidos
De quem lê aquilo que escreve.
Um bom poeta embeleza,
Ou mente de tal forma no verso,
Arrebata-se e arrebata de tal forma na descrição
Que quem lê
Vê uma estátua de Rodin.
Quando o poeta afinal
Olha e descreve,
Um simples cagalhão.

Poema da Encandescente

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Do OrCa:

Vendo só o que não sabe
Ou sabendo o que não vê
Faz-se poeta o que arde
Quando procura o porquê
Porque mais cedo ou mais tarde
É poeta o que não crê
Em tudo o que vê ou sabe
Porque lhe falta um porquê

Entretanto o canto enforma
Do poeta o riso e o pranto
Rindo tanto afinal chora
Chorando por se rir tanto

E tu que o ouves lá fora
Não lhe estranhes essa luz
Que brilha no escuro agora
Quando um poema se faz
Pois o poeta é capaz
De inventar uma aurora
No negrume pertinaz
Só p'la luz que nele mora

E só vê só porque sente
E só sabe porque ignora
Mas vê com olhos de gente
Que sabe rir quando chora
E finge sempre a fingir
Que o fingimento é mais forte
Que a vida que leva a rir
Chorando da vida a morte

Será pois poeta aquele
Que brande intensa a palavra
Pela vida que o impele
No chão da vida que lavra!

Oração das 11:49 PM | | Comentários (10)

março 05, 2005

A flor é apenas flor

flor

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.

Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos

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Do Zé Gomes:

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

Alberto Caeiro


A Encandescente que manifestamente não concorda com o Pessoa diz:

uma flor não é apenas flor
Alheia e estranha ao conceito
Sigo o poeta na contradição entre movimento borboleta
Cor, perfume, flor.
Movimento não é apenas bater de asas
Tem sentido, objectivo, direcção
Cor e perfume não são conceitos abstractos
Levam a borboleta a amar a flor.
Palavras sim são simples palavras
Um poema é apenas um poema
E eu troco palavras e poemas
Pela cor nas asas da borboleta
Com perfume de flor.

Oração das 01:50 AM | | Comentários (14)

março 02, 2005

Apocalipse

apocalipse

Do céu escuro caiem estrelas de metal fundido
Girândolas de fogo rodopiam no seu rasto
O ar queima
a terra estremece
levanta-se o vento
Sentimos o galopar dos cavaleiros
No ar que vibra com os cascos das montadas.
Acordo em pavor.
Olho pela janela para a rua.
À luz dos candeeiros estrelas os cavaleiros colhem as vítimas
Do apocalipse nosso do dia a dia.
Deito-me
abraço-te.
Amanhã é o mesmo dia
Com uma noite pelo meio.

ognid


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Da Sara:

Os Cavaleiros


Vieram os cavaleiros e povoaram o dia.
Traziam lanças e espadas e broquéis
montados em levíssimos brancos corcéis
e
vieram em hordes galopantes, crinas ao vento,
corações de aço, ensopados os corpos
no suor acre dos animais,
anunciar que hoje se cumprem os sinais
da última noite que encerra as demais,
e
o sol mergulhou em câmara ardente, lago infernal
de vulcão latente e aquecendo as gentes, as iludiu
julgando-se estas em tempo de benção permanente
e
nos corações mais amenos, escondeu o sol os seus raios.
E nos cavaleiros os homens viram apenas,
a imagem flutuante do sonho.

Quando veio a noite e os céus se rasgaram em violáceas
pinceladas de roxo azulado e denso, e do céu caíram nuvens
de negro incenso, os homens guardaram o sonho
e
os cavaleiros entraram por ele a dentro com suas espadas
e faces sem rosto

das suas mãos negras saíram golpes de fogo
e os homens no seu sono, montaram os brancos corcéis,
para desaparecer no rasto de mil sóis sem retorno
como nos contos imorais, presos aos cabelos esvoaçantes
de mulheres incandescentes, corpos celestiais onde o desejo
se prende e não se sacia jamais.

Vieram os cavaleiros e o coração dos homens não leu os seus lúgubres sinais.


Inspirado em "Les Cavaliers" - óleo sobre tela
de Amadeu de Souza-Cardoso

Oração das 11:48 PM | | Comentários (16)

Peregrinações (em mim) - III - Rosas Pretas

pedinte

Noventa e quatro. porta encarnada. não deixes cair. não deixes cair. pronto molhou-se. a alma dela foi para o céu. não te sujes...a tua mãe... Mãeeeeeeeeeeeee. Nãooooooooo. porra a puta da cadela na vai parir os cães aqui. Jorgeeeeeeeeeeee. o que é que o senhor disse? Oh! Madalena tira esta merda daqui. foda-se outra vez a chover. Alberto, Alberto, Albeeeerto....Mãeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

A boca entreabria-se num esgar. Sorriso amolecido na cara escorrendo numa baba transparente e grossa. Sorrindo o víamos nas tardes de fim de tarde quando a casa nos chamava e entre ela e a rua depois do trabalho...qualquer trabalho...se interpunha a rua cheia de gente com, precisamente, uma casa e um trabalho e entre o desejo do primeiro e a fuga do segundo, aquela ou uma outra rua apinhada de outras gentes nas mesmas condições de ir correndo entre. Nesses fins de tarde era que ele se sorria, ou era quando a gente não tinha tempo para o ver sorrir, mas via que ele estava sempre ali naquele meio recanto da loja, muito arrumado aquele monte de cartão e a manta de xadrez e o jornal. Havia sempre um jornal diário muito arrumado em cima da manta.
Na pressa de encurtar a distância do chegar a casa, a gente via, um bocadinho de todos os finais de cada uma tarde correndo entre, a gente ia vendo um dia mais um bocadinho que se enfiava num recanto do ver que às vezes era mais que olhar e deixava assim um quente em alguma parte do corpo da gente que corria entre o trabalho e a casa de recolha do cansaço. E quando esse ficar o corpo a levar o que tinha visto, fosse a baba, o cabelo pastoso e encanecido, a manta, o sorriso. Quando uma imagem qualquer se deslocava colada numa zona qualquer de quem passava, ficava aquilo a que se costuma chamar pena ou tristeza ou raiva ou alguma coisa assim dependendo de quem era a pessoa ou, mesmo, de que intervalo era o que se estava a passar naquele dia entre o trabalho e o rever a casa.

Tremias tanto, Alberto! Foda-se, a merda do jornal ficou de lado. Porra o jornal ficou torto. Arre a merda do jornal tem que ficar direito. Mãeeeeeeeeeeee. Ei! Ai! Olha aquele papagaio de papel do António rasgou-se. Mãeeeeeeeee. Mãeeeeeeeeeee.

As mãos rebuscavam o jornal em gestos rápidos com desvelos. O rosto rasgava-se num rito de ansiedade. Uma voz aparou-lhe o rolar do seu constante pensar-falar-silêncio ruidoso.
- Senhor Alberto! Vamos comer a sopinha?!
Um olhar muito verde desfez-se-lhe de medroso em terno. As mãos pararam sobre as folhas de jornal muito novo, muito folha sobre entre folha. As mãos colocaram o jornal sobre o monte de manta e papelão. O jornal arrumado. O olhar muito verde muito sorriso sempre fixando aquela “Senhor Alberto! Vamos comer a sopinha?!” na cara rosada da D. Marieta de todos os fins de tarde que trazia sempre duas rosas bordadas nos olhos pretos.
Depois da sopa, ela levava as duas rosas que tinha bordadas cada uma no negro dos olhos e deixava-lhe uma luz que se aninhava num nele, no mesmo dele que vibrava sempre que pensava...estava sempre a pensar...e nesse pensar ouvia um ele que nem sabia se ainda era ele ou outro que lhe ficara despegado numa zona do ter sido; e essa luz que as duas rosas deixavam, brilhava no mesmo sítio de si de quando pensava em grito que era tão grito que nunca percebeu porque nunca nenhum dos que passava na rua, entre o trabalho e o ir para casa, lhe perguntou porque é que gritava assim
Mãeeeeeeeeeeeeeeeee.

Texto da Seilá

Publicado originalmente na Lique e que republico aqui por a foto fazer parte das minhas "peregrinações" e o texto da Seilá ser de excepção.

Oração das 12:31 AM | | Comentários (13)

março 01, 2005

PARABÉNS LIQUE

PARA A LIQUE COM UM BEIJO DE PARABÉNS
anos

Já te ofereci:
Musica
Livros
Flores
Bibelots
Até um saco/mala tipo hippie
Que te trouxe de Londres
E usaste anos a fio até ficar sem fios.
Mas a ti nada te chega.
Recebes tudo com uma cara meio enjoada
E só obrigada dizes obrigada!
Por isso este ano fartei-me e tomei uma decisão:
Não te vou dar nada.
Pronto!

Este é meu e da Encandescente

anos

Com que então caíste na asneira

Não, não vou seguir por aí
Hoje não é quinta-feira
E tu não fazes vinte e cinco anos
Pelo menos olhando ao nome do teu blog.

De me provocares aqui há uns meses, lembras-te?

Mas se não os fazes
Não sendo hoje quinta-feira
Donde vem essa frescura que te leio
Onde buscas essa juventude que te conheço?

Lembras sim e há sempre um tempo para uma pequena vingança

Não é importante. Só quero mesmo deixar-te aqui
Hoje, dia do teu aniversário
Um poema mal amanhado, uma foto, uma musica.
E um beijo enorme de parabéns.

E este meu e da Maria Branco


E agora clica aqui abaixo para ouvires a musica - sugerida pela puta_madre



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Da Seilá:

...podíamos ter vindo
um aum em romaria
juntar a nossa voz a mais um
e dizer com comoção
em Amizade
toma o meu beijo
recebe de mim os Parabéns
MULHER!

Do OrCa:

A IDADE DE ROSAS


Nasce em busca do teu Sol
De orvalhadas primaveras
Cresce papoila em trigal
Cresce sempre no teu sul
De mar temperado e quimeras
Faz-te brisa na colina
Sente o musgo nas falésias
Corre já vento em escarpas
Leva o perfume das frésias
Ao mar alto em que te encarpas
Vê o que de novo nasce
Respira o pulsar dos mares
Sente a maré que já cresce
Lá por onde tu andares

Mas sê sempre uma roseira
De espinhos
Folhas
Flores
Pois representam caminhos
Tais quais fossem eles amores
Cresce botão pela seiva
Que em ti corre no anseio
De florir o ano inteiro

E quando
Enfim te cumprires
Em pétalas aveludadas
Vai-as deixando cair
No regato dos sentires
E leva ao mar do teu sul
Alvoradas perfumadas.

Do Manuel:

No reino da blogesfera
Está uma estrela brilhar
Desespero na minha espera
Também a quero agarrar...

Passa o tempo passam anos
Passa a vida a correr
Não deixes que os desenganos
Toldem o perfume de Mulher

Oração das 12:00 AM | | Comentários (16)