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abril 30, 2005

fronteira

nevoeiro.jpg


Acordou com a pressa de todos os dias.
Saiu com a pressa de todos os dias.
De todos os dias iguais.

Entrou no trânsito denso, lento.
Entrou na fila densa, lenta, dos carros habitáculo.
Olhou através dos vidros fechados, os rostos nos outros carros.
Fechando-se.
Perdendo singularidade, identidade, a cada quilómetro percorrido.

Os olhos nos carros, fixos na ponte que separava as duas margens.
Tornando-se, a cada quilómetro, impenetráveis.
Tornando-se, a cada quilómetro, iguais.
Rostos de todos os dias.

Olhou os pilares fronteira.
Estava ainda aquém da outra margem.

Cerrou os dedos no volante.
Fechou o rosto.
E, máscara impenetrável, atravessou a fronteira.
Entrou no nevoeiro.

Conto da Encandescente

Oração das 04:02 PM | | Comentários (7)

abril 28, 2005

feiticeira

Este post é uma homenagem ao Poemas de trazer por casa e outras estórias que comemora hoje o seu primeiro aniversário. À Sara e aos restantes colaboradores agradeço tudo aquilo que connosco partilharam e desejo que continuem por muito mais tempo a fazê-lo.

feiticeira


Já se cumpriram todas as órbitas de todos os planetas à volta do sol abrasador.
Já bebi do silêncio as águas claras, no areal de todas as memórias. Do entardecer fiz a sesta enamorada, no ninho destas roupas despojada: estios, guitarras no silêncio plácidas os corpos tensos num céu de malvas, dedos dedilhando as cordas perturbadas.

Busquei em vão todas as sedes nas águas marinhas, lagos e recifes. Em traineiras e pressurosas redes pesquei pintando de escarlate a poesia, sem mais arte que esta insana fantasia. Nesta filosofia do enamoramento, este simples saber sem asas semeado, ergui montanhas, ceifei metáforas matei a sede a jograis e bardos. Espalhei tempestades de vogais, colhi silêncio dos deuses assustados. Fui fénix, penélope, circe e pandora por cada novo ninho feito e derrubado.

Amei mais que a mim mesma outro olhar; venerei o seu corpo no meu corpo; perturbei mansamente as águas plenas com palavras plácidas obscenas. Comi estes jejuns em cada madrugada, venenos que esta paixão destilava. Li nos rostos a fome ensanguentada e nas vísceras o sonho atormentado.

Poções fiz tais de ervas aromáticas que meus olhos em Medusa transformei - plantei jardins de pedra em sóis de prata e nas fontes fui a sede ácida que mata. Reúno estes despojos, estas fábulas, resumo os meus dias pontes estáveis: sou como Vénus eterna enamorada e como ela por todos e por ninguém amada.

Arranco-me das estrelas, verto magma, desnudo-me e vou descalça pela praia. Encontro a sul minha alma naufragada coberta de algas frescas e feridas saradas. Sim, são poções de mar e mais amor a amanhecer entre o sal das palavras e eu por feitiço renasço em conchas alvas - pura, limpa, de olhos lavados de mágoas...

deSaraComAmor

Oração das 08:16 PM | | Comentários (13)

abril 27, 2005

poema de amor para uso tópico

rosto de brancos cansaços

Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

Poema de Nuno Júdice

Oração das 09:38 PM | | Comentários (10)

abril 25, 2005

Blogs em Beja - IV

gato fedorento

E aqui chegamos por fim à parte dos bloggers ou blogueiros ou o que queiram. Gostei de ouvir este Gato Fedorento. Como sempre com um humor excepcional.

gotinha


Esta Senhora Gotinha não disse muita coisa mas uma ficou-me no ouvido - que não sabia o que é que estava ali a fazer. Foste à prova do Barca Velha foi o que foi :)

joao pedro costa

Gostei de ouvir o João Pedro Costa das Ruinas Circulares. Bom senso e afirmações correctas.

mar


A Mar fez a apresentação do painel e esteve à altura dos acontecimentos.

Resta dizer que gostei de ouvir a Cat, embora discorde daquela afirmação da selecção natural nos blogs assim como o José Mário Silva e que, deste último, achei extraordinária a capacidade de falar tanto tempo sem deitar sequer um olhar para a audiência. O Charquinho foi discreto nas afirmações.

Despedidas feitas e deixando uns pobres brasileiros a cantar sozinhos fomos comer uns cachorros e recolhemos aos aposentos. Belo almoço ainda ontem com a Mad e o João, a quem agradeço a simpatia e boa disposição com que nos receberam.

Oração das 07:46 PM | | Comentários (13)

Blogs em Beja - III

arte publica

Depois de uma caracolada (para os outros...) no Pulo do Lobo (café, não o do Cavaco) onde estava o Ricardo Araujo Pereira e família, seguimos de novo para a biblioteca onde reencontrei, com gosto, a Gotinha. O ambiente estava interessante mas o jantar que se seguiu foi, sem dúvida, bem mais apelativo. De novo os nossos guias se esmeraram e comemos uma grelhada excepcional. Bem mais satisfeitos, seguimos, de novo, para a biblioteca onde alguém apresentava um livro sobre o Barca Velha, que não duvido ser de grande interesse, mas que achei talvez um pouco deslocada em Beja (vinho do Douro no Alentejo ?)... mais interessante foi a prova que se seguiu, essa sim com grande entusiasmo por parte dos presentes. Antes dos blogs realço o painel do Gato Fedorento que não consegui ver porque não cabia mais gente no auditório e a excepcional actuação do grupo de Beja, "arte publica" com o nome "Camões é um poeta rap". E não é que demonstraram que o homem era rap sem o saber? Belissima actuação que acabou com toda a gente de pé a cantar em rap as duas primeiras estrofes dos Lusíadas com refrão do General D pelo meio. Francamente surrealista e surpreendente.

Oração das 07:18 PM | | Comentários (1)

Blogs em Beja - II

bdteca

Da biblioteca seguimos para a Casa da Cultura onde decorria uma excelente exposição de banda desenhada onde, calmamente, se podiam apreciar belissimas pranchas de diversos autores. Esta aqui é dedicada à heroina que tem assim uma espécie de fetiche pelo aranhiço.

bateristas

Podiam como disse, porque depois da nossa entrada tudo se tornou um pouco mais complicado, principalmente quando a Luna e o Nikonman resolveram mostrar os seus dotes de bateristas enquanto, mesmo ali ao pé, decorria um erudito painel... Vergonhas por que se passa...

Oração das 07:01 PM | | Comentários (4)

Blogs em Beja - I

performer

Acabadinhos de chegar a Beja (eu e a Wind levámos tempo a refazer-nos do susto que foi ser conduzidos pela heroina de Lisboa até lá) e depois de nos termos encontrado com os nossos "guias", Mad e João ao pé do cemitério (coisas do João, não sei se será fetiche) seguimos para a biblioteca da cidade onde tive o prazer de conhecer o Charquinho. Muita gente, muita animação e, na entrada, decorria este espectáculo para crianças.

Oração das 06:35 PM | | Comentários (4)

abril 23, 2005

a borboleta do Caeiro

borboleta-3.jpg

borboleta-4.jpg

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas a borboleta
E a flor é apenas flor.

Poema de Alberto Caeiro

Ao repetir este poema apenas quero fazer uma pequena provocação a alguém que não gostou da última vez :)

Oração das 11:08 AM | | Comentários (16)

abril 21, 2005

Deus, Deus, Deus

deus, deus, deus

"- Deus, Deus, Deus? disse o anarquista. Há séculos que Deus morreu; mas tem levado tanto tempo a fazer-lhe o caixão que já infesta o ar de seu apodrecimento."

Fernando Pessoa - Aforismos e Afins

Oração das 08:15 PM | | Comentários (19)

abril 20, 2005

sem título



"God is God's best joke"

Fernando Pessoa - Aforismos e Afins

Oração das 10:14 AM | | Comentários (16)

abril 19, 2005

Só a música

Música, meu amor...

Música, meu amor... Naquele dia
em que senti teu coração gelar,
só a música soube aconchegar
um peito que em pedaços se partia...

Um banho refrescante de harmonia
lavou-me a alma, encheu de luz o ar,
e os sons em que enfim pude repousar
aqueceram-me a cama mais vazia.

Trompetes, trompas, flautas e oboés
derramaram-se em mim, como as marés
inundando de vida um areal...

E agora que me cravas tuas farpas
o meu corpo devolve-tas em harpas,
que a música dissipa todo o mal.


Soneto do Fernando "cidadão do mundo" a quem agradeço a parceria

Oração das 09:20 AM | | Comentários (15)

abril 17, 2005

Dias do silêncio

dias de silencio

Não sei porque chegam
os dias do silêncio.
Atam as mãos, a boca, a alma.
Há palavras paradas na voz
sem caminho de saída.
Sei-as mas não as junto
na única frase necessária
naquela tonalidade certa.
As letras afogam-se em mim
e afogam-me nelas.
Náufrago de mim
procuro a luz da saída
formo a palavra chave
a primeira que liberta
o grito fechado.
Será assim (re)nascer?

Poema da Lique

Oração das 09:33 PM | | Comentários (12)

abril 16, 2005

Sonho Lendário

sonho lendario

Pedras, é tudo que o olhar alcança na alma escondida da serra. Tem-se esta vaga sensação do olhar toldado por papoilas na luz aguda da tarde. As mãos tacteiam o ar rarefeito como espigas contrafeitas a abanar ao sabor do vento, sem nunca partirem da terra que as sustenta. As mãos são os ramos do desejo. Com as mãos acenamos como anjos ou rasgamos silêncios. Mas não escavamos o vazio nem demovemos sequer o vento. Queria conter o ímpeto do vendaval que vem serra abaixo, indolente e brusco como se anunciasse a descida ao povoado das almas perdidas na voz das fragas. Mas não há quem contenha o medo ou a imaginação ou as forças ínvias que desconhecemos. Ainda por cima, acabara de vislumbrar a anta que sabia estar mais ou menos por ali. Admirou-se com o materialismo que sentiu emanar do conjunto arquitectónico. Pedras. Dispostas para receber a morte, mas apenas pedras corajosamente plantadas no passado, sem que o homem moderno tivesse sido capaz de as abater. Admira-se da falta de grafittis marcando a passagem urbana da civilização. Nem sequer corações assinalando a passagem do amor, no dia hipotético em que um apaixonado entendesse salpicar o lugar da morte com sinais do seu efémero encantamento. Nada que o resgatasse para um presente familiar. O medo de esbarrar de súbito consigo mesmo levou-o a recuar para longe do espaço formado pelas pedras e onde couberam em tempos os despojos de tantas vidas...

Os homens são capazes de confrontar a natureza, mas ainda não puderam confrontar o lugar da morte guardado dentro de si. Este homem marginava o seu próprio abismo na impendência de perder-se no seu interior e não sabia ainda que nesse labirinto da sua indivisibilidade seria a natureza a confrontá-lo.
Foi então que o vento serenou, como choro de mulher extinto a meio de um eco de dor. Do cume da serra descia uma nuvem branca que espalhava um silêncio maior em volta do homem e o impelia para o centro de um qualquer vórtice situado nas entranhas mortas da anta. Cresceram-lhe as papoilas do olhar em espirais de vermelho e o mundo era uma imensa papoila ensanguentando a tarde de carmim, enquanto os braços abanavam como espigas sopradas para o remoinho, disseminando definitivamente a última semente da razão. O homem pensou que morrer era como cair no meio de um filme apocalíptico cheio de efeitos especiais e depois não pensou mais nada.

Além disso ela estava mesmo ali ao lado, olhando-o como se o esperasse. Sou Amaia, filha de Lysias que era filho de Baco e moro na boca do povo que me erigiu como símbolo de pureza e senhora dos lugares por habitar. Aqui fui sacrificada à luxúria de um pastor e na ribeira próxima corre ainda a brancura do meu nome. Sente a frescura destas mãos apostas sobre o teu corpo enquanto ouves o rumorejar do tempo e as vozes que gritam dentro de ti como espinhos, como cravos ferindo-te os sentidos. Eu sou o arquétipo que procuras na natureza e sempre esteve dentro de ti. Sou a fêmea que domou o fogo para espantar os espíritos e afastar os bichos quando a seu lado medrava o perigo maior. Nutri com o meu seio o homem ao meu lado e ungi os seus membros com os meus aromas de mulher. Sou a origem e o fim de todas as coisas. Tive vários nomes mas sempre a minha fronte trazia palmas e o meu corpo a serenidade das fontes. Posso ter sido a romana plácida que derramava ânforas de prazer nos banhos álgidos de águas cristalinas e porém santas. A deusa que povoou estes lugares de rosas-malva e de bosques verdejantes e se doou à vida passando a ser dela representação única. A bruxa solitária domando a natureza, o homem e os seus dogmas, vencida apenas pela purificação do fogo, a única que a resgatou do tempo a que não pertencia. A moura esquecida entre muros, quando os estandartes cristãos treparam pelas ameias e sagraram seus os paços onde seu senhor a tomava em noites de luar e raiares de madrugada. A Soror da esperança entre grades, acobertada ali por desígnios patriarcas alheios ao corpo quando este lhe comandava anseios e doces palavras. Desencantaste-me quando deixaste vazia uma anta dentro de ti e agora posso facilmente aninhar-me dentro dessa fortaleza aberta como ceifeira coberta de sangue ou Eva subtraindo-te a todas as trevas, talvez Lilith a empurrar-te para elas.

Toma-me tua elevando os meus seios a colinas onde o prazer se reclina dócil e desce depois as tuas mãos languidamente no corpo oferenda, esta rosa de fogo que sabes conter toda a luz da eternidade e se demora sobre ti num parênteses de prazer. Arqueia-te sobre o meu corpo e faz dessa elipse um vórtice entre a angústia e a evasão. Arranca-te às tuas próprias entranhas para te verteres nas minhas, como o fruto e como verbo primeiro de todas as coisas. Depois, deixa-te escorregar devagarinho na seda macia como se penetrasses um palácio forrado de cetim. Sente os aromas do desejo a impregnar todos os objectos que tomas no prolongamento do meu corpo. Sente a implosão do universo nas paredes que tremem e pulsam como se tomadas por um exército silencioso. Serás meu nesse vislumbre de infinito que observas nas seteiras abertas vulneráveis aos teus ataques. Abaterás todas as pedras, rasgarás todos os véus e hímenes até alcançares a tua verdade no final do túnel obscuro em que te moves. Verás a Deus como os monges solitários na sua ascese, mas tu saberás ainda ouvi-lo para te encontrares contigo mesmo. Eu sou a verdade que procuras. Toma-me e dispersa-te nela como se todos os teus átomos se desagregassem na entropia última do despojo. Vem, vem, agora, agora, eu sou a verdade, a noite última do teu cérebro. Vem... Perdeu-se no veludo da sua voz. E foi.

Mas já ela se prendia no silêncio dos ramos e se tornava um eco ausente. O homem apenas soube que a noite se fizera dia para voltar à brumosa consistência de entardecer feito de fiapos de bruma. Viu-se a abraçar o desconhecido, colina acima, deixando atrás de si o Palácio de cetim onde apenas um lenço de cambraia lhe acenava à janela da mente. Sentia mais do que nunca a certeza de cada passo. Afinal a colina rasgara-se em aridez e em seu lugar erigia-se uma pirâmide perfeita apenas coberta de castanheiros nus, sobrevoada de corvos e águias que o visavam no seu voo rasante. Então vislumbrou a Catedral da sua busca. O Cavaleiro Templário ajoelhou as suas dúvidas na grandiosidade da luz vinda do denso edifício milenar. Uivava o vento como lobo solitário, vendo na lua a instintiva luz da trevas. O homem na sua nova pele de Cavaleiro procurou o Palácio dos sonhos de cambraia e a mulher de cetim. Mas estava de novo perdido no seu labirinto de espelhos e a verdade aguardava-o nas pedras da Catedral. Abriram-se os véus do templo para expor a luz feérica de mil velas humedecidas na penumbra amorfa. Penetrou cada vez mais fundo dentro de si. A mãe oficiava a uma missa de palavras inexplicáveis, na litania cadente dos sonhos. Ungiu-lhe a fronte com o que parecia incenso mas bem podia ser cinza ou o pó das memórias. Cresceste, dizia-lhe o olhar dela. Cresceste. Parte de mim, voa deste ninho onde te nutriste com o conhecimento do mundo. Agora deverás perscrutar a sua essência, posto que o consumiste no leite que te ofertei sem que o entendesses. Faço-te Cavaleiro da Luz e enfeito de esperança esse manto de estrelas que carregas sem saber. Saberás despir uma a uma as certezas que te cobrem a pele quando entenderes que o caminho nunca termina, a não ser quando te encontrares nu frente a ti mesmo sem temeres. Farás aí a genuflexão do amor perante ti mesmo. Tu és o Senhor que buscas e só através de ti Ele se revela. Parte agora como partiste ao nascer pois assim foi e assim será até ao fundo dos tempos.

Viu-se só no templo com o rumorejar silente das velas e uma candeia acesa no olhar. As sombras fizeram-se luz intensa e a Catedral sucumbiu como super nova a explodir em mil fragmentos. O choque foi terrível. Sabia que a provação maior se ocultava no regresso às suas improváveis origens imateriais. Parecia que o corpo se lhe contraía para dentro do olhar. Cavaleiro já não era nem sequer homem, mas uma esfera imperfeita na nebulosa noite sideral. Tudo se tornara tenso e denso na sua nova condição existencial. Caminhava para o nada? Desagregavam-se os nemes, os neurónios, as células e o que restava do pensamento parecia fazer parte do próprio pulsar do universo. Como se caminhasse para o orgasmo de Deus, a esfera parecia prestes a desaparecer ela também. Não há futuro para o homem moderno? Pensou ainda antes da esfera se transformar na própria noite eterna da não-existência...

Ela vinha estrada fora a ouvir John Miles e a trautear ao vento a alegria de viver, num dia tão ridente como aquele. “Music was my first love and that will be may last. Music of the future, and music of the past…” . Guiava desprendidamente, levada por um rio de pensamentos sem cor como se não conduzisse a máquina mas fosse esta a conduzi-la na placidez do Domingo. A estrada formava uma elíptica curva de esperança desocultando odores e aromas, certamente vindos dos girassóis semeados em redor. Algo inebriante a fazia acelerar o velho jeep que usava nas suas saídas de campo, como se caminhasse para a essência primordial de todos os perfumes de todas as rosas e açucenas plantadas nos jardins do inconsciente. Vivia naquela terra fértil de sinais do tempo e o seu trabalho consistia em lê-los e catalogá-los. Nunca tentara entendê-los. Travou a fundo quando viu uma figura masculina debruçada para a sua anta, não em observação mas como faz um homem que planeia atirar-se para um poço. Estranho! Pensou se lhe cumpria intrometer-se. Mas talvez o homem se tivesse sentido mal e precisasse de ajuda.

A música ficou a encher a planície como a melodia do presente no misterioso entardecer dos deuses. Ela voou para onde o homem permanecia, uma mão a tapar o rosto a outra cravada na pedra como se em profundo sofrimento. Tocou-lhe no ombro. Assustou-se com o estremecimento provocado por uma espécie de corrente de ar quente, uma sensação de dunas ardentes. Talvez não devesse ter parado, muito menos tocado naquele homem pálido, inusitado, fora de todos os tempos. Vestia roupa da cidade, calças muito vincadas, camisa branca alva e um blusão de cabedal. Ao longe divisava um carro cujas formas dinâmicas indicavam luxo e faziam pensar num executivo enervado no meio do trânsito de uma cidade prestes a chegar ao esgotamento de si própria.. Que fazia ali? O sorriso confuso que lhe arrancou não era porém um sorriso da cidade. Era um sorriso luminoso como se lhe crescessem lentamente papoilas no olhar. Ou como se a reconhecesse...
Ah, voltei a ti. Voltei. Estás de novo aqui. Tomou-lhe as mãos. Ah, a frescura da tua pele. Estão frescas as tuas mãos. Não me deixes outra vez no meio do nevoeiro. Perco-me sem ti. Não permitas que a bruma me embrulhe de novo e me leve para onde estive. A verdade. Agora sei qual é a verdade que tanto procurava. Nada importa. A identidade é apenas uma falsa questão. Por mais peles que nos vistam, somos sempre nós. Beijo-te minha dama lendária, vinda das sombras do tempo. O arquétipo único da vida és tu, Mulher!

Ela deveria estar estupefacta. Talvez devesse até ter medo ou fugir daquele amplexo em direcção à segurança perturbadora da sua música. Talvez a felicidade consistisse apenas na transitoriedade da evasão que a estrada, e um percurso descomprometido com a vida, lhe permitiam. Mas o homem emanava o perfume dos deuses, inscrito nos seus genes de mulher. Optou por dar-lhe a mão. Falou carinhosamente, como só falam as mães ou as mulheres que se sabem amadas. Anda. Estás confuso. Adormeceste e tiveste um sonho mau. Não nos conhecemos. Mas vou levar-te até ao teu carro para poderes seguir viagem. Descansa um pouco aqui no meu. Entraram.

Ele olhou-a e captou-lhe o perfil acentuadamente feminino, apesar do amadurecimento perceptível no recorte dos traços. Não sei o que se passou ali... Mas emergi da morte com um candelabro aceso para a vida. E tive-te nos meus braços, ali mesmo naquele lugar. Fizemos amor por entre as estrelas e mergulhamos na explosão da massa etérea de todo o universo. Reconheci na minha divisibilidade a unicidade da tua presença. Quem és? Que fazes?
Eu? Sou apenas uma arqueóloga da cidade que desterraram ara aqui... Garanto-te que nunca estive nos teus braços e por sinal, ultimamente nos de ninguém. Riu nervosamente. Ele sentiu-lhe a autenticidade. Não havia dúvidas que ela não o reconhecia. Mas o homem sabia-a sua e disse, movido pela necessidade de a ter também no mundo da matéria palpável.

Hummm, arqueóloga, é? E... aquela anta tem assim alguma coisa de especial? Perguntou, antes dela pôr em marcha o motor e uma espécie de mistério no olhar. Espalhava-se no aragem do entardecer a mesma melodia. “Music was my first love... Ela recomeçou a trautear “And that will be my last one...” Interrompeu para soltar uma gargalhada cristalina. Diz a lenda que os caminhantes se perdem normalmente por ali...
O homem quis contemplar a anta vazia junto ao rochedo aceso em bruma.
Hummmm, não é verdade. Disse ele, feliz. Eu encontrei-me e encontrei-te. Ou foste tu que me encontraste a mim? Ficaria sempre a dúvida.

Conto da deSaraComAmor a quem agradeço mais esta parceria

Oração das 05:53 PM | | Comentários (7)

Cadeia de Literatura



Ex-libris da tugoesfera

"é iniciada aqui uma cadeia de literatura pela blogosfera portuguesa, vou chamar-lhe o ex-libris da tugosfera.
a iniciativa foi do barrie do the pink bee, que fez o primeiro post a 7 de março, e foi-me passada pelo guy do non tibi spiro para lhe dar "o sabor do sul da europa". espero que a sigam."

A Wind passou-me esta batata quente, coisa que não lhe agradeço :)

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

- O Lello Universal porque me poupava trabalho de pesquisa.

Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?

- O Capitão Nemo do Júlio Verne.

Qual foi o último livro que compraste?

- Lugares comuns de João Luís Barreto Guimarães

Qual o último livro que leste?

- Obra Poética de Miguel Torga.

Que livros estás a ler?

- Photoshop 7 – Manual de Referência Profissional (leitura diária obrigatória), O Código Da Vinci (quase há um ano), Poesia Completa e Cartas de Cesário Verde.

Que livros(5) levarias para uma ilha deserta?

- Aqui vou repetir o que a Mad já disse (tirou-me a ideia) – 4 manuais de sobrevivência e o Robinson Crusoe.

A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?

- À Blue porque tenho imensa curiosidade nas respostas dela.
- À Maria PDV porque ela escreve tão bem como fotografa.
- Ao Príncipe Lunático por curiosidade de ver como é que um jovem tão promissor como ele se desembaraça (e já agora para me vingar de algumas secas…)

E os vencedores são:

- Não é concurso, pois não?

Oração das 09:57 AM | | Comentários (3)

abril 14, 2005

Catedrais só há duas...

band catedral

Andava a tentar ganhar inspiração para editar quando me lembrei que tinha esta foto. Nada melhor. Catedrais só mesmo estas duas...

p.s. rói-te de inveja Finúrias!!

Oração das 03:35 PM | | Comentários (22)

abril 13, 2005

Os fantasmas da cidade

sem-abrigo-1.jpg

Quando a cidade se esvazia
Das gentes que a alimentam e fazem crescer
Um exército de gente despojada, deserdada
Sai dos esconderijos diurnos
E deambula nas ruas desertas da cidade.
Os olhos acesos das lojas
Iluminam os olhos apagados dos fantasmas da cidade.
Putas baratas esperam clientes baratos.
Clandestinos, emigrantes do País e da vida
Procuram nas sobras dos outros
Os restos para sobreviver.
Corpos que fazem da droga e do álcool
Refugio e paraíso ziguezagueiam,
Cruzam-se,
Nas ruas da cidade.
Os passos das gentes fantasmas
Não ecoam na calçada
As suas vozes não se elevam.
São o lado oculto da noite
Vidas clandestinas
A face perversa da cidade.
Não ouves dentro de ti
As vozes dos fantasmas da cidade?

Poema da Encandescente

Oração das 11:34 AM | | Comentários (12)

abril 12, 2005

O teu olhar

o teu olhar

O teu olhar
fala-me de viagens
e lugares distantes.
O teu olhar
fala-me de solidão
em certos instantes.
O teu olhar
fala-me de saudade
e de doçura.
O teu olhar
fala-me de desejo
e de quentura.
O teu olhar,
caminhante em mim...

Poema da Jacky a quem agradeço a parceria

Oração das 11:16 AM | | Comentários (18)

abril 11, 2005

Mundos

estão lá

"O mundo exterior existe como um actor num palco: está lá mas é outra coisa"

Bernardo Soares

Oração das 03:01 PM | | Comentários (5)

abril 08, 2005

Graffiti - I

bob marley
Setubal 2005

A propósito do tema "pinturas murais" e "graffiti", surgiu um desafio para uma disputa amigável entre mim e a Zia. Eu tirei algumas fotos de graffitis cá em Lisboa, enquanto ela lá pelo Porto arranjava material também. Aqui vai o resultado... uma pequena história sobre o Graffiti e os graffitis de Lisboa e do Porto.

Apesar do graffiti (do grego "graphein" e do latim "graffito" – desenho ou rabisco numa superfície) ter já referências na Roma antiga, o termo contemporâneo designa a inscrição de mensagens clandestinas, sobretudo nas paredes e no mobiliário urbano, que podem ir de simples monogramas de uma cor até composições mais elaboradas e de diferentes matizes. Criada nos guetos americanos como demarcação de território, os graffiters logo tomaram consciência dos seus dons artísticos e passaram a retratar o quotidiano de sofrimento e violência das comunidades, a falta de oportunidades, as drogas, a opressão do sistema, etc.

Actualmente a discussão sobre os graffitis centra-se em questões como se o graffiti é vandalismo (encarado do ponto de vista legal) ou se pode ser considerado uma forma de arte se for feito numa base legal. Susan Phillips, investigadora da UCLA, vê o graffiti como uma forma de arte já que possui cargas simbólicas e formas estéticas baseadas num código de grupo que não deve ser entendido isoladamente mas sim como parte integrante de uma cultura de rua mais vasta que inclui música (hip-hop e rap) e dança (breakdance).

"Legalizar o graffiti através da criação de muros especificamente destinados para a pintura não é a solução, porque há-se haver sempre quem queira pintar em locais ‘ilegais’", explica Biph, pseudónimo de um graffiter do Porto. Ao seu lado, Odd, uma das poucas raparigas que na cidade integra um grupo de graffiters, refere que a ilegalidade é a sua própria "essência" e que regulamentá-lo seria destrui-lo, ou como argumenta Neck, pseudónimo de um dos mais conhecidos graffiters alemães: "a pintura ilegal faz parte desta cultura".

Após a revolução do 25 do Abril, os murais em Portugal deixaram praticamente de ter uma conotação política e passaram a estar associados a imagens e mensagens generalistas e/ou individualistas, como é o exemplo do graffiti. "Essa mensagem política perdeu-se porque se calhar também se perdeu um pouco da consciência política que caracterizava esse período", opina Odd. "Não faz sentido confundir graffiti com murais, nomeadamente políticos, já que o graffiti restringe-se habitualmente ao espaço que rodeia o writer. A única semelhança é estarem pintados numa parede", diz.

Mas as diferenças entre os murais e o graffiti não se restringem apenas ao nível do conteúdo. As técnicas também mudaram: da tinta e do pincel passou-se ao spray, mais limpo, rápido e fácil de camuflar do que os primeiros. Com as latas de spray desenvolveram-se igualmente os apetrechos que permitem criar diferentes estilos de pintura que se encontram incorporados nos vários aerossóis à venda no mercado (caps). Em alguns países onde esta arte está mais divulgada, o mercado de caps pode ser bastante lucrativo.

O objectivo primordial do graffiti é "ter um estilo", explica Biph. "Não um estilo em vão, mas um estilo pessoal que se reflecte naquilo que se faz". Odd, por seu lado, define o graffiti como uma "motivação para melhorar os espaços degradados das cidades" e "personalizar o espaço que nos rodeia".

Referências:
- Soeiro, José e Lopes, João Teixeira (2003). A Comuna.
- Cufa (2004). Central Única das Favelas.
- Costa, Ricardo Jorge (2001). A Página da Educação.
- Gejo (s/d). Manuscrito.
- Bacelar, Jorge (s/d). Notas Sobre a Mais Velha Arte do Mundo.
- Rodrigues, Rita e Carvalho, Rita (2000). A Arte de Graffitar.

Não quero deixar de agradecer à Zia o trabalho de pesquisa que fez e que aproveitei por inteiro (a preguiça é grande) para fazer esta introdução. O trabalho é extenso de modo que agradeço a vossa paciencia.

Oração das 06:17 PM | | Comentários (23)

Graffiti - II (Grande Lisboa)


Oeiras 2004


Paço d'Arcos 2004


Oeiras 2004


Oeiras 2005


Oeiras 2005


Oeiras 2005

(continua)

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Graffiti - III (Grande Porto)


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005
(continua)

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Graffiti - IV (Grande Lisboa)


Lisboa 2005


Lisboa 2005


Lisboa 2005


Lisboa 2005


Lisboa 2005


Lisboa 2005
(continua)

Oração das 06:17 PM | | Comentários (2)

Graffiti - V (Grande Porto)


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005
(continua)

Oração das 06:17 PM | | Comentários (2)

Graffiti - VI (Grande Lisboa)


Oeiras 2004


Oeiras 2004


Oeiras 2004


Oeiras 2004


Oeiras 2004


Oeiras 2004

(continua)

Oração das 06:17 PM | | Comentários (4)

Graffiti - VII (Grande Porto)


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005
(continua)

Oração das 06:17 PM | | Comentários (3)

Graffiti - VIII (Grande Lisboa)


Lisboa 2005


Oeiras 2005


Oeiras 2005


Oeiras 2005


Oeiras 2005


Oeiras 2005


Oeiras 2005


Oeiras 2005

Oração das 06:17 PM | | Comentários (2)

Graffiti - IX (Grande Porto)


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005


Porto 2005

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abril 06, 2005

Penumbra

jogos luz

Hoje não sou cor, sou penumbra,
porque sombrios são os tempos
e aqui venho anunciar,
proclamando sentidamente,
a dispersão final do sonho,
que quebrou mas está lá,
como farol que se extinguiu,
mas que em noites de luar
ainda projecta a esguia sombra,
no prateado do mar...

Hoje venho contar do vento
gemido louco e sibilante
que canta à minha janela
como pulsar insistente
das marés por confrontar.
Assobia e rodopia, e tolhe
de espanto o silêncio,
torre esguia sem sustento,
como voz enlouquecida
que não fala, não sussurra,
não é a voz clara de alguém,
mas apenas um lamento,
triste, incolor e pungente.

Hoje não trago luzes
para iluminar o presente,
foscos estão os olhos de miopes
que acendem relampejos
falsos, de um brilho opaco,
rajadas frias de vento um clarão cego,
só estremecimento,
rasgando o algodão da noite.

Hoje só venho anunciar
que um barco também navega
mesmo num mar sem farol
e, levado pelo temporal
salta a linha do horizonte
vogando para o país sem nome,
onde a sede de emoção
se faz poema e voa.

Hoje venho anunciar que o sonho
ainda é ponte para a margem azul
da dor e que o dia não é luz,
a noite não é claridade e eu
não sou eu, mas uma sombra
sem contornos, um perfil na bruma
dos faróis, a luz que uma vaga maior,
por certo silenciou na mudança
das marés...


Poema roubado à LibeLua. Obrigado

Oração das 10:17 AM | | Comentários (13)

abril 04, 2005

Jantar da Pandora - I

pandora

No sábado realizou-se o jantar do Pandora's Box. Foi mais um agradável momento de convívio e que juntou 44 pessoas - ver a lista dos participantes aqui que a Jacky nestas coisas não brinca em serviço. À Pandora quero agradecer a oportunidade que nos deu para mais este encontro. Não sei porquê mas, a dada altura, a nossa anfitriã, como se vê pela foto, já estava quase a fazer uma prece. Seria pelas excelentes performances da Blimunda e da Vanrose, do OrCa numa das suas odes, ou do Rui com o seu excelente momento de magia? Não sei, mas foi bom rever amigos com que não estava há algum tempo e um prazer conhecer novos companheiros(as) destas andanças na blogoesfera.

Oração das 07:33 PM | | Comentários (17)

Jantar da Pandora - II

mad e nikonman

Sem qualquer menosprezo pelos outros que estiveram presentes e que ainda não conhecia, não posso deixar de salientar o enorme prazer que tive em conhecer duas pessoas que me dizem muito e com as quais sinto afinidades importantes. Gostei imenso de os conhecer, Mad e Nikonman, e espero que, em breve, tenhamos oportunidade de nos rever e de conversar sem as limitações naturais de um encontro deste tipo.

Oração das 06:56 PM | | Comentários (3)

Jantar da Pandora - III

yardbird

Pelo mesmo tipo de razões que invoquei no post acima, afinidades, não quero deixar de realçar o enorme prazer que tive em conhecer (finalmente) em carne e osso este amigo - o Yardbird.

Oração das 06:50 PM | | Comentários (4)

Jantar da Pandora - IV

alex e companhia

Que me desculpem os outros mas não podia deixar de por aqui a foto de um dos casais mais simpáticos da blogoesfera - o Alex e a Ana. É sempre bom (re)vê-los.

Oração das 06:44 PM | | Comentários (2)

Jantar da Pandora - V

blimunda

A Blimunda e a Vanrose fizeram uma declamação de grande impacto e que agradou bastante. Fica aqui uma foto do momento.

Oração das 06:24 PM

Jantar da Pandora - VI

orca de murça

O amigo OrCa como é seu timbre, e ainda bem que assim o é, não quis deixar de "oder" (vem de ode, tá? e peço desculpa à São Rosas pelo abuso do termo)em honra da anfitriã. À falta de foto do momento aqui fica o registo de algo que ajudou à necessária concentração...

Oração das 06:15 PM | | Comentários (6)

abril 02, 2005

Outro adágio sobre a morte

desenganados deste mundo

A alegria do amor é uma centelha,
fugaz e trespassada por espinhos,
que trocamos, quando estamos sozinhos,
pela da morte,
(vela o sono moribundo
dos já desenganados deste mundo...)
que é o riso descarnado de uma velha.

Poema de Manuel Filipe

Bjork - Dancer in the dark

Oração das 03:32 PM | | Comentários (10)