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julho 29, 2005
vai pelo cais fora um bulício de chegada próxima
(...)
Vim aqui para não esperar ninguém,
Para ver os outros esperar,
Para ser os outros todos a esperar,
Para ser a esperança de todos os outros.
Regresso à cidade como à liberdade.
(...)
Poema de Álvaro de Campos
Oração das 10:17 PM | | Comentários (13)
julho 28, 2005
quase haiku - I
Poema de Rosa Teixeira Bastos retirado do livro Poder das Luas recentemente lançado pela arcadasletras - editora e que recomendo vivamente. Os meus agradecimentos à autora e ao Zé Gomes pela oferta.
Nota: o título é meu.
Oração das 11:16 PM | | Comentários (7)
julho 26, 2005
coisa amar
Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
Poema de Manuel Alegre
Oração das 09:52 AM | | Comentários (13)
julho 25, 2005
sonhos diferentes
Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.
Poema de Ricardo Reis
Oração das 09:36 AM | | Comentários (9)
julho 23, 2005
cantiga de amigo
Nem um poema nem um verso nem um canto
tudo raso de ausência tudo liso de espanto
e nem Camões Virgílio Shelley Dante
- o meu amigo está longe
e a distância é bastante.
Nem um som nem um grito nem um ai
tudo calado todos sem mãe nem pai
Ah não Camões Virgílio Shelley Dante!
- o meu amigo está longe
e a tristeza é bastante.
Nada a nao ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Camões Virgílio Shelley Dante:
o meu amigo está longe
e a saudade é bastante!
Poema de José Carlos Ary dos Santos
Oração das 04:05 PM | | Comentários (12)
julho 21, 2005
orgia vocabular
Diria Camões à sua amada:
De vós senhora, é meu coração cativo
Em meu peito guardo vossa imagem serena.
Oh donzela de olhar distante e altivo
Meu coração por vós arde, meu corpo por vós pena.
Se um dia no meu leito vosso corpo reclinar
Quedar-me-ei admirando vossa forma e formosura.
Oh deuses! Cegue eu do outro olho se ousar profanar,
Vosso corpo, vosso encanto. Oh divina criatura!
Diria Bocage a uma ex-donzela:
Eu, Bocage não seria, se ao ver-te seminua
Não levantasse tua saia, tuas rendas e teus folhos
Não montasse e cavalgasse tuas ancas
A minha espada desembainhada, entesoada.
Eu, Bocage não seria, se ao ver-te deitada no leito
Pernas abertas a preceito, não te tirasse virgindade e honra
E se no final da peleja donzela fosses, eu, Bocage,
Arrancaria não um olho! Mas os tomates e a minha porra.
Florbela suspiraria pelo amado:
Ah vem…
Espero-te deitada só de suspirar fico cansada
Sem fôlego, trémula, sem alento.
Meu amor, vem…
Mas vem depressa
Ou quando chegares estarei dormindo a sesta
E terás perdido ao vir, ou não.
O meu desejo, o ensejo, o momento.
Ary declamaria arrebatado:
Meu amor. Meu amor.
Deitada não és certeza. És espanto.
Amar-te não é arder em fogo brando
Mas soltar corpo, grito, pensamento.
Arder em fogos brandos é para parvos
E burgueses de desejo fraco, coisa mole e verso breve.
Contigo meu cavalo solto até ao orgasmo.
E me arrebento no teu corpo
E me revejo no teu espasmo.
E Pessoa questionar-se-ia:
Penso que te amo. Mas será que te amo?
Vou fumar um cigarro na esplanada
E pensar mais um bocado.
Amo-te?
Ou como poeta sou, finjo amor e amando-te não te amo?
Não sei!
É melhor esperares deitada.
Digo-te lá mais para o fim da tarde.
Poema da Encandescente
Oração das 08:48 PM | | Comentários (16)
julho 20, 2005
para ser flor
Para ser flor há que ser raiz
Plantada bem no fundo da mãe terra
Para ser cristal há que ser areia
Roubada sem mercê aos domínios da água
Para ser borboleta há que ser larva
Arrastada em si própria pelos troncos
Para ser pássaro há que ser rasteiro
Agarrado ao chão em tempos ancestrais
Para voar, o homem tem que ter os pés
Assentes na terra, na água, nos troncos, no chão
E procurar nas origens as asas que o elevam.
Poema da Lique publicado no livro Noites de Poesia em Vermoim
Oração das 10:00 PM | | Comentários (9)
julho 19, 2005
1º aniversário do Fraternidade - VIII






Oração das 02:19 PM | | Comentários (6)
1º aniversário do Fraternidade - VII

A mais rápida e mais prolifera habitante da comunidade blogosférica - a Wind.

O Zé Gomes que distribuiu poesia por todos nós.

A Cris do Sementes.
Oração das 02:15 PM
1º aniversário do Fraternidade - VI

Quim desculpa mas esta tinha que ser assim. E a cores.

O Bertus e a esposa, do Porquinho da India.

A Patijo.

E a nossa :) Pandora.
Oração das 02:13 PM | | Comentários (4)
1º aniversário do Fraternidade - V

Foi um prazer conhecer a Pamina e o Viktor (em baixo) do BonaMusica


A Baby MJM.

Eu disse que publicava!
Oração das 02:10 PM | | Comentários (2)
1º aniversário do Fraternidade - IV

A Mitsou.

A Menina Marota

E a Milu
Oração das 02:08 PM | | Comentários (3)
1º aniversário do Fraternidade - III

O Fernando foi agraciado com uma comenda pelo pessoal do norte carago! Eis o momento histórico.

Uma das surpresas da noite foi a visita da Micas que aqui está com o nosso anfitrião.

E de novo o aniversariante. Esclarece-se que apesar das aparências não estava já a cantar o fado.
Oração das 02:05 PM
1º aniversário do Fraternidade - II

As Linas também estiveram presentes.

A Amita veio do Porto vestida de acordo com o nome do blog :)

Foi uma agradável surpresa conhecer a Blue C bem como os penduras - Espectro #999 e Bulbucus Íbis - que trouxe com ela.
Oração das 02:01 PM | | Comentários (14)
1º aniversário do Fraternidade - I

O Fernando, nosso anfitrião.

A Blimunda durante a sua actuação.

O Viktor e a Blimunda dizendo alguns poemas do livro que o Zé Gomes distribuiu.

Como nem tudo são rosas houve que deitar contas à vida.
Amanhã publicarei mais umas quantas fotos e começarei a enviar aos interessados.
Oração das 12:03 AM | | Comentários (12)
julho 16, 2005
a meu favor
A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
Poema de Alexandre O'Neill
Oração das 01:52 PM | | Comentários (19)
julho 15, 2005
walking around
Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.
Todavia, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.
Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas.
Poema de Pablo Neruda
Oração das 10:29 AM | | Comentários (10)
julho 14, 2005
confissão
Doce encanto, não morre e não perece
Sentido sem regra e reserva e sem lei
Pois que tão só felicidade me merece!
É amor que hoje te canto aqui e além!
Ai!, que não morra na boca de alguém
A poesia que te murmuro como prece!
Ó meu amor!, não conheço maior bem
Que amar assim, deixa que o confesse
Pois se memória de mor tristeza ficar
E me não queiras este tanto querer-te
Pois maior sej' a alma que pôde ter-te
Ai tragédia, se meu olhar o teu não vir
Não me vás amor que se te vejo partir
Mais quero morrer e mais quero amar!
Soneto da Litostive a quem agradeço
Oração das 09:52 AM | | Comentários (5)
julho 12, 2005
a escada - (da minha Irmã)
parece e assim a nomearam
quem nomeia é autor
uma espécie de deus
que a tudo dá o nome e a luz e a cor.
e no entanto
eu já subi por uma escada assim
toda quebrada
subi-a com o peso de quem desce
ao inferno.
carregada de mim
de tudo o que perdera
de tudo o que temia
do próprio desamor que então
me acometia.
subi como quem desce
a impossível escada
e ela não quebrou
nem eu quebrei, nem nada.
lá em cima no topo
brilhava a luz do dia
cá em baixo, do chão sem risco
espiava a hipocrisia
- o tudo que eu não queria.
bendita escada! abençoado dia!
Poema da Anti-Memória a quem agradeço.
Oração das 11:10 PM | | Comentários (5)
julho 11, 2005
das utopias
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
Mário Quintana in Espelho Mágico

Oração das 11:20 PM | | Comentários (4)
julho 10, 2005
graffiti - X


Chibos interesseiros. Intrujas manhosos.
Bacanos desorientados à espera d’ algo, sem saber o quê ao
certo,
mas a com a certeza de que o saberão quando a cena finalmente
surgir.
Miúdas que quase que fazem uma mamada em troca de um algodão.
Quase que fazem, o caralho, fazem mesmo.
Caras e corpos de 40 anos que na verdade viveram apenas metade desse tempo.
Barracas impregnadas com aquele ar nauseabundo.
Muletas ligaduras hematomas sangue coagulado.
O cheiro, não se consegue afastar o cheiro.
Surgem vozes de todo o lado:
-“Boa branca”, “boa castanha”, “Serenal”, “Paxilfar”,
“prata”, “bombas”, “amoníaco”, “sai do meio da rua e encosta à parede!”,
“Filha da puta do carocho só faz é merda”!!!
Vai fechar a loja mas o puto não comprou nada,
Não comprou nada,
Não comprou…
São duas da manhã mas a loja tá aberta, como sempre.
Seja natal ou fim-do-ano, o negócio não pode parar,
não consegue parar, e por isso, logicamente não vai parar.
(Disponível num centro perto de si)
Dinheiro puxa dinheiro como vício puxa vício…
Enquanto houver gente a comprar, vai haver gente a vender,
enquanto houver gente a vender, vai haver gente a comprar…
O bicho já apanhou mais de metade dos consumidores,
mas sabes bem que a fruta dos contentores dá moca e tira as dores
faz voar sem sair do chão e afinal de contas quem é que não
gosta da sensação da…
-“Boa branca”, “boa castanha”, “Serenal”, “Paxilfar”,
“prata”, “bombas”, “amoníaco”, “já te disse para saíres do meio da
rua e encostares à parede!”,
“Filha da puta do carocho só faz é merda”!!!
Vai fechar a loja mas o puto não comprou nada,
Não comprou nada,
Não comprou…
da weasel - loja (canção do carocho)


Oração das 10:30 PM | | Comentários (9)
julho 09, 2005
haiku - 5
XIV
Nunca traces tu frontera,
ni cuides de tu perfil;
todo eso es cosa de fuera.
XV
Busca a tu complementario,
que marcha siempre contigo,
y suele ser tu contrario.
XVII
En mi soledad
he visto cosas muy claras,
que no son verdad.
Poemas de Antonio Machado (1875-1939)

Oração das 10:04 PM | | Comentários (1)
julho 08, 2005
correu o dia
Correu o dia
Correu a hora
Alarguei a vista?
Alcancei promessas?
Fiz-me clara,
Nestas águas turvas
Em que o escuro impera?
Dei-me a algo,
Que valesse a pena?
Tomei medidas
Que tivessem resultados?
Desfiz os muros
Do meu pensamento?
Correu o dia
Correu a hora
Fiz o que devia?
Vamos embora...
Poema da hana_le
Oração das 09:43 AM | | Comentários (7)
julho 07, 2005
nos braços do desejo

Sem mesmo o conhecer, queria-o. E estranhamente tinha a certeza que também ele a queria. Como se houvesse uma voz melosa a sussurrar-lhe ao ouvido as coisas que ele queria fazer com o corpo dela. Estavam a dançar há uma hora juntos, sem se afastarem um do outro, sem ligarem ao que se passava em redor. De repente a música mudou. Começou a tocar uma música suave, e os dois olharam-se, como que tentando adivinhar o que o outro estava a pensar.
“Como é que estas músicas se dançam, mesmo?”, perguntou ele, sorrindo. Com uma desfaçatez que a surpreendeu a ela própria, a rapariga limitou-se a colocar os braços à volta do pescoço dele, e, encostando o corpo ao dele, disse “ É assim.” Quis poder ficar assim para sempre, sentindo a pele quente do pescoço dele, a linha musculada dos ombros… Quis ficar para sempre nos braços do desejo.
Conto roubado à hana_le que é boa rapariga e me perdoa ;)
Oração das 11:36 PM | | Comentários (2)
ar livre

A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.
Leva o arco-íris em cada fio do cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
pintam leves alvoradas de neblina.
Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando o seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.
E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.
Poema de Cecília Meireles
Oração das 10:03 AM | | Comentários (5)
julho 06, 2005
haiku - 4

Chovem nos meus olhos
mágoas passadas, perdidas
ainda em mim...
da Jacky
Oração das 07:49 PM | | Comentários (4)
os amigos
Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria -
por mais amarga.
Poema de Eugénio de Andrade
Oração das 10:47 AM | | Comentários (7)
julho 03, 2005
haiku - 3
Chut
Si nous
Faisons du bruit
Le temps
Va recommencer
Paul Claudel - Cent phrases pour éventails
Oração das 11:26 PM | | Comentários (7)
julho 02, 2005
fire and ice
Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favour fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.
Robert Frost (1874-1963)

Oração das 12:06 AM | | Comentários (7)