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agosto 31, 2005
o varredor


Oração das 10:14 PM | | Comentários (6)
agosto 30, 2005
resistência

Oração das 09:56 PM | | Comentários (10)
agosto 29, 2005
variações sobre a carris


Oração das 08:11 PM | | Comentários (9)
agosto 26, 2005
escorrendo


Oração das 10:11 PM | | Comentários (11)
agosto 25, 2005
outros mundos (II)

Oração das 10:20 PM | | Comentários (7)
agosto 24, 2005
outros mundos (I)

Oração das 08:15 PM | | Comentários (9)
agosto 23, 2005
campainhada
As duas ou três vezes que me abriram
A porta do salão onde está gente,
Eu entrei, triste de mim, contente -
E à entrada sempre me sorriram...
Mário de Sá-Carneiro
Oração das 08:37 PM | | Comentários (5)
agosto 22, 2005
joana

Oração das 11:40 PM | | Comentários (7)
saudades do outono



Oração das 09:56 AM | | Comentários (8)
agosto 21, 2005
sem titulo

Oração das 03:52 AM | | Comentários (16)
agosto 20, 2005
até sempre!
Oração das 03:38 PM | | Comentários (6)
agosto 19, 2005
silêncio
o silêncio
um pouco de nada no dia que passa
uma aragem gelada no calor da tarde
um frio suor nas noites de insónia.
nada existe
para lá da certeza exacta da distância
que em nós interiormente se afirma
no amargo sopro do desencanto.
nem a espera
a vida não tem margem que a pare
e as horas arrastam-se e correm
num mesmo tempo simultâneo.
só a esperança
que entra pelas frestas do desejo
de viver.
Poema da Lique
Oração das 09:55 PM | | Comentários (6)
agonia

Oração das 09:33 PM | | Comentários (2)
agosto 18, 2005
até cair
Seduzido pelo rodopio
Embriagado de vertigem
Os néons ferindo como gritos
Deixo-me possuir pelo frémito da multidão
Num desejo de girar sem parar
Até cair...
Até cair...
(...)
Adolfo Luxúria Canibal / Carlos Fortes
Oração das 08:09 PM | | Comentários (4)
agosto 17, 2005
espera
Vou-me sentar aqui. Neste banco. Assim, inclinado. Vale a pena a espera?
Oração das 09:22 PM | | Comentários (7)
agosto 16, 2005
dias de raiva


Oração das 08:22 PM | | Comentários (9)
agosto 15, 2005
migrações
Um dia pensarei que passei por ti como passam os pássaros
por este campo que há-de tornar-se seco, no inverno; e que a
primavera que vivemos não há-de voltar, ao contrário dessa
que todos os anos sucede ao inverno, trazendo consigo esses
pássaros de que me lembro ao pensar que estou sem ti, agora
que todas as viagens chegaram ao fim, e uma pausa se prolonga
até se tornar definitiva. Mas não é por pensar isso que me sinto
longe de ti: o que talvez me faça sofrer, como se o sofrimento
não fosse uma parte do amor, e se substitua a ele, quando o
tempo impõe as suas regras, e nos lembra que dependemos
de pequenas coisas para que tudo mude, de um dia para o outro,
tornando-nos outros do que fomos, embora continuemos a
sentir o que sempre sentimos. Então, dirás,
alguma coisa valeu a pena? E eu respondo que
a migração dos pássaros é um sintoma de que os hábitos
não mudam quando queremos; e a vontade dos que
querem ficar leva-os à morte, como se entre morrer e amar
houvesse um elo que não sabemos de onde vem, mas se manifesta
na melancolia de um bater de asas, sob os ramos da árvore,
quando o céu de chuva impede o voo para cima dos seus
ramos. Mesmo que peguemos nessa ave, de pouco servirá: o
seu destino foi escolhido por ela, e quando isso acontece nada
podemos fazer. Debate-se, procurando escapar aos dedos
que a prendem; e esse gesto leva-a para onde não lhe chegamos,
a não ser com o olhar, sabendo que no dia seguinte o ramo
irá ficar vazio. Assim, voltei ao café onde tantas vezes te
esperei: e não havia ninguém na mesa, como se a maldição
tivesse tomado conta do lugar. «É do inverno», disse
o patrão, «ninguém sai de casa com este tempo.» Não lhe
dei outras razões. O que eu sei, levaste-o contigo, neste
inverno em que nem os pássaros querem ficar.
Nuno Júdice in O Estado dos Campos
Oração das 10:29 PM | | Comentários (6)
povo de marinheiros (I)



Sempre fui fascinado pelas traineiras, os portos, a faina, a lota. O mundo da pesca. Aqui começa uma série, irregular, de fotos sobre esse tema. Não sei se com textos a acompanhar ou não. As palavras andam fugidias. Mesmo as dos outros.
Oração das 10:12 AM | | Comentários (5)
agosto 13, 2005
variações



Oração das 11:48 PM | | Comentários (10)
fala do velho do restelo ao astronauta
Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme
José Saramago in Os Poemas Possíveis
Oração das 12:05 AM | | Comentários (6)
agosto 11, 2005
sangre y fuego
No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.
Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.
Tal vez consumirá la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.
En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.
Pablo Neruda in Cien Sonetos de Amor
Oração das 10:02 PM | | Comentários (5)
agosto 10, 2005
born to be wild
Get your motor runnin'
Head out on the highway
Lookin' for adventure
And whatever comes our way
Yeah Darlin' go make it happen
Take the world in a love embrace
Fire all of your guns at once
And explode into space
I like smoke and lightning
Heavy metal thunder
Racin' with the wind
And the feelin' that I'm under
Yeah Darlin' go make it happen
Take the world in a love embrace
Fire all of your guns at once
And explode into space
Like a true nature's child
We were born, born to be wild
We can climb so high
I never wanna die
Born to be wild
Born to be wild
Letra e música de Mars Bonfire - Steppenwolf
Oração das 11:51 PM | | Comentários (6)
agosto 09, 2005
os paraísos artificiais
Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.
Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.
O cântico das aves — não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.
Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.
A minha terra não é inefável.
A vida na minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
Jorge de Sena
Oração das 09:50 PM | | Comentários (8)
agosto 08, 2005
a brusca poesia da mulher amada (III)
A Nelita
Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido
herói sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a
bilirrubina
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco
quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as
confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância
já me chega o rastro.
É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos
ventos
Empós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas... Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo... Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!
Rio de Janeiro, 1963
Vinicius de Moraes in Poesia completa e prosa: "Poesia varia"
Oração das 10:31 PM | | Comentários (7)
agosto 07, 2005
está na hora da mudança
Em vez de sermos uma república das bananas temos a hipótese de eleger um banana para uma república. O único candidato que já prometeu que só desiste se for eleito.

Slogans do candidato Vieira também conhecido como Orgasmo Carlos:
Os outros fazem, eu prometo
Um Ferrari para cada português, 100 mil euros em cada conta bancária
Não sejas paneleira vota Vieira

Hino da campanha do candidato Vieira (ouvir aqui):
Portugal alcatifado
Temos táxis e hotéis
Temos pontes e bordéis
Temos ceguinhos e trutas
Lulas fritas ararutas
Temos castelos e pontes
Temos tractores e fontes
Temos incineradoras
Temos morenas e louras
Temos muita insegurança
E emigrantes em França
Temos o 13 de Maio
Temos queijo e temos paio
Temos o céu sempre azul
Temos São Pedro do Sul
Temos o rei que não é
Lavamo-nos no bidé
Deputados às dezenas
Contas bancárias pequenas
As pinturas do Malhoa
E as gravuras de Foz Côa
Temos Lisboa e Porto
Temos o não do aborto
Temos marcas importadas
Cidades degradadas
E prisões superlotadas
Temos cada vez mais estradas
Muito mal pavimentadas
Lixeiras a céu aberto
E meio pais deserto
Temos muitos tubarões
E buracos de peões
Portugal alcatifado
Bebe vinho e canta o fado
Este blog, face às alternativas, todas em reflexão, já escolheu o candidato Vieira. O único que durante 20 anos de carreira e de militância politico-erótica se manteve erecto e coerente.

Oração das 05:38 PM | | Comentários (7)
agosto 04, 2005
fado
Hoje a grande desgraça não fui eu:
Foi um velho navio que partiu
E me deixou no cais
Sem nenhum sonho mais.
Miguel Torga in Diário I
Oração das 08:09 PM | | Comentários (13)
agosto 03, 2005
quase haiku - II

Oração das 10:39 PM | | Comentários (10)
agosto 02, 2005
de profundis, valsa lenta

(...)
Lembro-me de que essa manhã foi invadida por um aguaceiro desalmado, ouvia-se uma chuva grossa e pesada lá fora mas deve ter sido passageira porque quando acabou a Edite ainda estava ao telefone. A partir de então tudo o que sei é que me pus ao espelho da casa de banho a barbear-me com a passividade de quem está a barbear um ausente - e foi ali.
Sim, foi ali. Tanto quanto é possível localizar-se uma fracção mais que secreta de vida, foi naquele lugar e naquele instante que eu, frente a frente com a minha imagem no espelho mas já desligado dela, me transferi para um Outro sem nome e sem memória e por consequência incapaz da menor relação passado-presente, de imagem-objecto, do eu com outro alguém ou do real com a visão que o abstracto contém. Ele. O mesmo que a mulher (Edite, chama-se ela mas nada garante que esse homem ainda lhe conheça o nome, que não a considere apenas um facto, uma presença) exacto, esse mesmo Ele, o tal que a Edite irá encontrar, não tarda muito, a pentear-se com uma escova de dentes antes de partirem de urgência para o Hospital de Santa Maria e o mesmo que, dias depois, uma enfermeira surpreenderá em igual operação ao espelho do lavatório do quarto.
(...)
Extracto do livro De Profundis, Valsa Lenta de José Cardoso Pires.
Oração das 04:36 PM | | Comentários (10)
agosto 01, 2005
el suicida
No quedará en la noche una estrella.
No quedará la noche.
Moriré y conmigo la suma
Del intolerable universo.
Borraré las pirámides, las medallas,
Los continentes y las caras.
Borraré la acumulación del pasado.
Haré polvo la historia, polvo el polvo.
Estoy mirando el último poniente.
Oigo el último pájaro.
Lego la nada a nadie.
Remordimiento por cualquier Muerte
Libre de la memoria y de la esperanza,
ilimitado, abstracto, casi futuro,
el muerto no es un muerto: es la muerte.
Como el Dios de los místicos,
de Quien deben negarse todos los predicados,
el muerto ubicuamente ajeno
no es sino la perdición y ausencia del mundo.
Todo se lo robamos,
no le dejamos ni un color ni una sílaba:
aquí está el patio que ya no comparten sus ojos,
allí la acera donde acechó sus esperanzas.
Hasta lo que pensamos podría estarlo pensando él también;
nos hemos repartido como ladrones
el caudal de las noches y de los días.
Poema de Jorge Luis Borges
Oração das 10:19 AM | | Comentários (10)
