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setembro 30, 2005

blue moon

blue moon

Blue Moon
You saw me standing alone
Without a dream in my heart
Without a love of my own
Blue Moon
You know just what I was there for
You heard me saying a prayer for
Someone I really could care for
And then there suddenly appeared before me
The only one my arms will hold
I heard somebody whisper please adore me
And when I looked to the Moon it turned to gold
Blue Moon
Now I'm no longer alone
Without a dream in my heart
Without a love of my own
And then there suddenly appeared before me
The only one my arms will ever hold
I heard somebody whisper please adore me
And when I looked the Moon had turned to gold
Blue moon
Now I'm no longer alone
Without a dream in my heart
Without a love of my own
Blue moon
Now I'm no longer alone
Without a dream in my heart
Without a love of my own

Canta Ella Fitzgerald (e não só)

Oração das 11:19 PM | | Comentários (7)

setembro 29, 2005

tu pensas que os cardeais

cathedral

Tu pensas que os cardeais
não se masturbam,
que não vêem
as telenovelas,
que vêem, quando muito, os filmes
de Bergman
e o Evangelho segundo São Mateus de
Pasolini.
Não, eles nunca lêem os livros pornográficos
e nunca pensaram em ter amantes.
Eles não conhecem o turbilhão das visões
das figuras eróticas,
eles lêem os exercícios espirituais
de Santo Inácio
e têm o odor da santidade
e irão para o céu porque nunca pecaram,
nunca acariciaram um pénis,
nunca o desejaram túmido e ardente
na sua boca casta.

Ah os cardeais como são exemplares
mesmo quando os espelhos os perseguem
com os membros e órgãos de mulheres
na fulguração da nudez liquida e candente!

Todavia eu conheço a obstinada chamado
desejo,
a sua glauca ondulação,
os seus olhos deslumbrados pela oceânica
vertigem
de um corpo embriagado pela sua simetria
e pela volúvel coerênciados
seus astros dispersos.

Não, eu não creio na inocência imaculada
dos solenes cardeais.
Eu sei que a sua carne é a mesma argila
incandescente e turva
de que o meu corpo frágil é composto.
Eles conhecem o sofrimento de ser duplos,
o vazio do desejo,
a violência nua das imagens monstruosas
,a adolescência do fogo nos labirintos negros.

Mas eu sei que os cardeais não gritam,
nem levantam a voz,
nem atravessam a fronteira do pudor
e adormecem ao rumor das orações.
É esta imagem que eu quero conservar
na religiosa monotonia do meu sono.

António Ramos Rosa

Oração das 10:46 PM | | Comentários (4)

liberdade

mas ninguém te cala pensamento

Quem marca uma fronteira
Aquela nuvem
a asa que é a sua sombra
onde mora?

Sob as mordaças
calam-se as palavras
mas ninguém te cala
pensamento.

Quem manda à semente
não germines
ao fruto dela
que o não seja?

Amarram-se os pulsos
com algemas
mas ninguém te amarra
pensamento.

Quem impõe ao dia
que não nasça
ao sol que é sua fonte
que não brilhe?

Fecham-se as janelas
com tapumes
mas ninguém te cega
pensamento.

Quem diz ao amor
é impossível
à lembrança que é seu laço
que o não seja?

Separam-se os amantes
na distância
ninguém te roubará
meu pensamento.

Joaquim Namorado

Oração das 09:43 PM | | Comentários (3)

setembro 28, 2005

receita para fazer um herói

serve-se morto

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embebe-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

Reinaldo Ferreira

Oração das 06:32 PM | | Comentários (6)

setembro 27, 2005

engrenagem

A engrenagem trincou pobre e pequeno insecto.
E a hora certa bateu, grande e exacta, em seguida.

Mas o toque daquele alto e imenso relógio
dependia daquela exígua e obscura vida?

Ou percebeu sequer, enquanto o som vibrava,
que ela ficava ali, calada mas partida?

Cecília Meireles

Oração das 05:26 PM | | Comentários (7)

setembro 26, 2005

o monstro que inventámos

monstro que inventámos e nos fita

Fecham-se os dedos de onde corre a esperança.
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

Ary dos Santos

Oração das 05:55 PM | | Comentários (4)

setembro 23, 2005

XXX

Não fui eu que pintei o sol no céu,
nem as nuvens no Ar
com água de prata.

Não fui eu que pintei o sol no céu,
nem as nuvens no Ar
com água de prata.

Quando nasci já tudo estava mundo
com relvas e azuis,
poentes e sombras,
pobres e cicatrizes...

Porque então esses remorsos,
de andar a sofrer não sei por quem
a culpa de haver rosas e haver vida?

Palavra! não fui eu
quem atirou a lua para o céu!

José Gomes Ferreira in Poeta Militante

Oração das 09:58 PM | | Comentários (7)

setembro 22, 2005

entre as mãos de uma criança

Eles não sabem, nem sonham,
Que o sonho comanda a vida

Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer,
....

Passarola voadora,
Pára-raios, locomotiva,
Barco de proa festiva,
Desembarque em foguetão
Na superfície lunar.
...
Eles não sabem, nem sonham,
Que o sonho comanda a vida,
Que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança.

António Gedeão

Oração das 08:02 PM | | Comentários (9)

setembro 21, 2005

gota de água

Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.

Poema de António Gedeão

Oração das 08:35 PM | | Comentários (6)

setembro 19, 2005

A um Deus branco

Mãe, nunca vi um anjo negro

Mãe, nunca vi um anjo negro. Não há anjos negros, mãe?
Todos os anjos são brancos. Não há anjos como eu?
Olha, todas as asas são brancas. Como os anjos que estão no céu.
Mãe, eu nunca vou ter asas? Não há anjos como eu?
Mãe, não há meninos negros entre os anjos.
Onde estão os meninos negros anjos, mãe?
Mãe onde fica o nosso céu?
Queria ser um anjo, mãe.
Não posso … Não há anjos como eu.

Poema da Encandescente

Oração das 09:45 PM | | Comentários (21)

setembro 18, 2005

poema da utopia

A noite caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.

No alto, a utópica Lua vela comigo
E sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! Se o espectáculo findou
Deixa-nos também dormir.

Poema de Fernando Namora

Oração das 10:24 PM | | Comentários (6)

setembro 16, 2005

os comboios, à noite

Cada vez que oiço um comboio à noite sinto que a vida não acaba. Passam por trás das casas, no fim do bairro, uma fitinha de janelas iluminadas, rápidas, que estremecem as árvores, estremecem as molduras na parede, me estremecem a mim, e a seguir as árvores, as molduras e eu a recompor-nos, e a seguir nada. Uma espécie de vento, talvez, antes de tudo quieto de novo. Na fitinha de janelas iluminadas nunca há pessoas: os comboios, à noite, não transportam ninguém, dirigem-se não sei para onde, não chegam nunca a parte alguma: viajam interminavelmente, sem destino, indiferentes aos apeadeiros vazios, com uma balança, um relógio e uma máquina automática de cigarros, por vezes cães enrolados entre os bancos desertos, por vezes um pedaço de jornal às cambalhotas nas plataformas onde nenhum passageiro espera: os comboios, à noite, viajam insones num mundo morto, com as insígnias dos pronto-a-vestir apagados e os olhos dos manequins ocos nas vitrinas, os dedos delicados, de pasta, imóveis numa linguagem de surdos-mudos que o escuro não entende: um pedido de socorro, um cumprimento, um aviso?
(...)

António Lobo Antunes in Meu menino, ino, ino - Visão 18 de Agosto de 2005

Oração das 11:00 PM | | Comentários (8)

setembro 15, 2005

evocando Bocage nos 240 anos do seu nascimento

Estando o autor na cela do seu amigo Fr. João de Pousafoles, e acontecendo apagar-se-lhe um cigarro, pediu lume, que ele recusou

Amigo Frei João, cuidas que é barro
O fumoso tabaco por que berro?
Um nigromante me transforme em perro,
Se há coisa para mim como o cigarro!

Ele me arranca pegajoso escarro,
Que nas fornalhas deste peito encerro;
O frio, as aflições de mim desterro,
Quando lhe lanço a mão, quando lhe agarro.

De vício tal, se é vício, não me corro,
E só tomo rapé, simonte ou esturro,
Quando quero zangar algum cachorro.

Amigo Frei João, não sejas burro;
Dize bem do cigarro; senão, morro;
Traze-me lume já ou dou-te um murro!

Bocage (1765-1805)

Oração das 03:42 PM | | Comentários (6)

setembro 14, 2005

apelo


Porque não vens agora, que te quero
E adias esta urgencia?
Prometes-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência....

Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento
O desejo o limite dos mortais.

Poema de Miguel Torga

Oração das 10:45 PM | | Comentários (7)

setembro 13, 2005

quanto morre um homem

Quando eu um dia decididamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará as linhas do teu rosto?
Quem dará o nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados das quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?

Poema de Ruy Belo

Oração das 10:07 PM | | Comentários (4)

setembro 12, 2005

gotas

Oração das 10:58 PM | | Comentários (6)

setembro 11, 2005

escultura

bebedouro

Oração das 08:20 PM | | Comentários (6)

setembro 09, 2005

canto de cisne

cisne-2.jpg

I

se hoje cantares, diz-me cisne,
por que morres numa praça
tão cheia de gente?
porque encolhes as tuas asas
e não voas novamente
como fazem outras aves?
hoje é a noite que esperávamos
voaremos juntos para
as margens do silêncio e
cantaremos sós o último canto
até que o leve a voz do vento

II

cada manhã de cristal virá descalça
nos murmúrios sitiados deste lago
onde só a tua voz e o meu olhar
ganham a limpidez das águas
e se tudo que recomeça também acaba
bebamos amor desta sede que ora
se propaga sem mais pressa
que a de viver na eterna madrugada

Poema gentilmente :) roubado à Aziluth

Oração das 10:12 PM | | Comentários (5)

setembro 07, 2005

sem titulo

Afinal o que busco é desvendar-me
e das contradições que me destroem
construir-me mais límpido e seguro.

É que a mim resta-me apenas este sonho
de pensar que também um dia poderei ir
até onde, de tão estrangeiro que me sinta,
nem dos meus próprios desejos me recorde.
E porventura seria isto mesmo, finalmente,
o descobrir-me inteiro.

Armindo Rodrigues in Vértice nº 61, Setembro de 1948

Oração das 10:31 PM | | Comentários (8)

setembro 06, 2005

no jardim




Oração das 09:38 PM | | Comentários (8)

setembro 05, 2005

guardiões

Oração das 08:10 PM | | Comentários (3)

setembro 03, 2005

a abelha

Oração das 09:37 PM | | Comentários (10)

setembro 02, 2005

festa do avante

funeral álvaro cunhal

Começa hoje e é uma festa única. Mesmo para quem não seja da mesma área politica. Álvaro Cunhal vai ser uma figura sempre presente nesta primeira festa após o seu falecimento.

Oração das 10:08 PM | | Comentários (5)

setembro 01, 2005

ressurreição dos mortos

barco de fantasmas reais

Abre-se a custo o ouriço
Da memória.
Dos meus companheiros de viagem
Nunca mais soube novas.
Alguns emigraram
E nunca lhes perdoei
O terem-me deixado clandestino
No fronteira interior do medo
Com os bolsos cheios de contrabando.
Outros há ainda derramados
No subterrâneo das palavras,
Sem falar dos que se envernizaram
Com o puro suor das abelhas.

Eu que não fiquei nem parti
Emigrei ao contrário
Num barco de fantasmas reais.

(...)

Cristóvão Aguiar in Vértice, nº 330, Julho 1971


Oração das 07:36 PM | | Comentários (8)