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outubro 31, 2005
o ponto
Mínimo sou.
Mas quando ao nada empresto
a minha elementar realidade,
o Nada é só o resto.
Reinaldo Ferreira
Oração das 08:27 PM | | Comentários (5)
outubro 30, 2005
um instante
Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente
Ferreira Gullar
Oração das 07:29 PM | | Comentários (3)
outubro 29, 2005
contra a corrente
Fresquinho na minha mão, o livro acabado de publicar pelo nosso amigo Jorge Castro aka OrCa. Poemas escritos (e ditos) entre 2000 e 2003, belissimos. Que outra coisa se poderia esperar, aliás? Recomendo vivamente a sua compra e aqui vos deixo um dos que me encanta desde há muito.
da ausência
Esta noite poderia escrever-te os versos mais tristes
como Pablo Neruda
ou dizer-te da minha recorrente vontade de ir a Samarcanda
como Bernardo Soares
diversa apenas a vontade de ir a Samarcanda
porque a tua presença me seria imprescindível
eu que nem mesmo sei que língua falam hoje em Samarcanda
ou o que por lá estará hoje acontecendo
Porque a tua ausência te cala em mim
poderia mesmo escrever-te uma carta de amar
que gritasse dentro de mim a tua ausência
e que no voo tangente das palavras
todos achariam ridícula
só eu não
- e daí quem sabe? -
Poderia imaginar-te silhueta
por entre silhuetas de pinheiros
feita de bilros e devaneios da Lua Cheia
derramando-se de luz ao longo de todo o mar
até tropeçar com o areal
e a terra toda
até envolver todos os amantes
que à beira-mar se consumam
como se o tempo se lhes acabasse ali como a terra
ou apenas se desesperam no amor
como se amassem apenas porque se procuram
quando o areal barra a luz fluida vertida pela Lua
poderia dançar contigo um tango argentino
conduzir-te na volúpia dessa dança
que
conforme dizem
ao homem compete conduzir
apenas para
e por uma vez só
te conduzir
eu de negro
Gardel
Terrível e alucinado
e tu
o teu vestido vermelho
rasgado com uma faca de seda
ambos efémeros, diáfanos e amantes
... se eu soubesse dançar
Ah, se eu soubesse dançar!
Poderia até tentar dizer-te um poema
que me impressionasse
apenas por te impressionar
um poema que falasse de Neruda
de Bernardo Soares
e de silhuetas diluídas nos pinheiros
mas que tivesse um lugar íntimo
para as estrelas de outros céus imaginados
luas
amores
e areais de vento
um lugar que nos enleasse no ritmo das marés
e seríamos românticos e dramáticos personagens de Pratt
solitários navegantes numa paixão de quimeras
Maltese com um brinco a preto e branco
vendo o Sol poente enfunando as nossas velas
com cores de luz que o Sol traz do mundo todo
E é por isso
que aqui estou
perto de ti
tenho as mãos quase cheias de nada para te dar
mas tenho um mar que não é meu
e um poema
sinto a Lua que nos foge entre os pinheiros
sinto ânsias de enleio em doce tango argentino
e hei-de sentir-te junto a mim em Samarcanda
Oração das 10:56 AM | | Comentários (6)
outubro 27, 2005
pescadores em terra

Oração das 07:40 PM | | Comentários (7)
outubro 26, 2005
diz a pomba à estátua

Diz a pomba à inquieta estátua: “Se alguém te vem dizer que certo indivíduo falou mal de ti, não procures justificações para o que te é censurado, antes tem simplesmente as palavras seguintes: ‘Esse indivíduo ignora todos os outros defeitos de que sou portador. Assim, só se dá a murmurar os defeitos meus que conhecidos lhe são...’”
‘Manual de Epitecto’, XXXIII, 9 (c. 50 a.C.)
Oração das 09:55 PM | | Comentários (5)
outubro 25, 2005
poema urgente para un soldado yanqui
Si fueras hijo mío, te lo diría igual:
cien mil bolsas de plástico están vacías
en una base naval, que está en Sicilia,
pero que es de Norteamérica como tú.
Si fueras hijo mío, te lo diría igual:
Tu país ha mandado cien mil body bags.
Cien mil bolsas de esas para cadáveres,
son negras, puede que como tú,
y seis mil ataúdes, de los que no sé su color.
Si fueras hijo mío, te lo diría igual:
No son soldados iraquíes, sino chicos
escupidos del imperio como tú,
los que tenéis la cama lista en esa isla.
Si fueras hijo mío, ¿quién podría convencerme
de que este viaje tuyo me preserva de algún mal?
María Ángeles Maeso
A estátua faz parte da exposição dos alunos finalistas de Belas Artes realizada no Jardim do Palácio do Marquês de Pombal em Oeiras.
Oração das 08:10 PM | | Comentários (6)
outubro 24, 2005
depois da chuva (I)


Oração das 08:11 PM | | Comentários (8)
outubro 23, 2005
e ao anoitecer
e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia
Al Berto
Oração das 07:36 PM | | Comentários (2)
outubro 22, 2005
duas cruzes

Oração das 07:59 PM | | Comentários (2)
outubro 21, 2005
outros mundos (III)

Oração das 08:17 PM | | Comentários (4)
outubro 20, 2005
no porto de pesca (I)

Oração das 08:16 PM | | Comentários (4)
outubro 19, 2005
sem titulo
No vento que passa
na noite que chega
no tempo sem data
há um olhar inquieto
na amizade perdida
no amor que não existe
no amargo que ficou do encanto
há uma lágrima oculta
pensar olhar de memória
nem folha nem flor
nem semente de afecto.
Fernando Rente
Oração das 07:50 PM | | Comentários (4)
outubro 18, 2005
a esmola
A esmola não cura a chaga;
mas quem a dá não percebe
que ela avilta, que ela esmaga
o infeliz que a recebe.
António Aleixo
Oração das 07:52 PM | | Comentários (5)
outubro 17, 2005
Soneto de Álvaro de Campos a seu heterónimo Pessoa
Quis eu ser o teu pai e fiquei filho
tomou a criatura ao criador
de amante fez amado um fraco amor
amassei eu o pão e me fiz milho
quero ser eu pirata e a mim me pilho
de luta me sumiu todo o furor
me embala minha tia por favor
fui balde quando almei o ser sarilho
não fui parar ao mar mas ao Martinho
e com Reis e Carneiro outros que tais
só dentro de ti próprio estou sozinho
vê lá Pessoa se refazes tudo
e me lanças de novo aos temporais
em vez do poço em que por mim te escudo.
Agostinho da Silva in "Do Agostinho em Torno do Pessoa"
Oração das 10:05 PM | | Comentários (4)
outubro 16, 2005
reparti os sonhos
Reparti os sonhos sobre a mesa
e juntei punhados de cinza
ao inventário da incerteza...
Ficou-me no peito este cavalo que manqueja,
fechado com as mágoas.
Guardei a vida num baú sem história.
Oh! Metade de mim,
suspensa nas águas
onde não chega a memória!
Manuel Filipe
Oração das 10:07 PM | | Comentários (4)
outubro 13, 2005
mudança
As cores das flores
do estio mudam
para a branca
cinza do poente
depois do Verão
as vidas
cumprem o Inverno.
Fernando Rente
Oração das 08:19 PM | | Comentários (11)
outubro 12, 2005
o anjo caído
Era um anjo de Deus
Que se perdera dos céus
E terra a terra voava.
A seta que lhe acertava
Partira de arco traidor,
Porque as penas que levava
Não eram penas de amor.
O anjo caiu ferido
E se viu aos pés rendido
Do tirano caçador.
De asa morta e sem esplendor
O triste, peregrinando
Por estes vales de dor,
Andou gemendo e chorando.
Vi-o eu, o anjo dos céus,
O abandonado de Deus,
Vi-o, nessa tropelia
Que o mundo chama alegria,
Vi-o a taça do prazer
Pôr ao lábio que tremia
E só lágrimas beber.
Ninguém mais na terra o via,
Era eu só que o conhecia
Eu que já não posso amar!
Quem no havia de salvar?
Eu, que numa sepultura
Me fora vivo enterrar?
Loucura! Ai, cega loucura!
Mas entre os anjos dos céus
Cantava um anjo ao seu Deus;
E remi-lo e resgatá-lo,
Daquela infâmia salvá-lo
Só força de amor podia.
Quem desse amor há-de amá-lo,
Se ninguém o conhecia?
Eu só, – e eu morto, eu descrido,
Eu tive o arrojo atrevido
De amar um anjo sem luz.
Cravei-a eu nessa cruz
Minha alma que renascia,
Que toda em sua alma pus,
E o meu ser se dividia,
Porque ela outra alma não tinha,
Outra alma senão a minha...
Tarde, ai! tarde o conheci,
Porque eu o meu ser perdi,
E ele à vida não volveu...
Mas da morte que eu morri
Também o infeliz morreu.
Almeida Garrett
A estátua faz parte da exposição dos alunos finalistas de Belas Artes realizada no Jardim do Palácio do Marquês de Pombal em Oeiras.
Oração das 08:19 PM | | Comentários (6)
outubro 11, 2005
hoje...
Acordei bemol
Tudo estava sustenido
Sol fazia
Só não fazia sentido
Paulo Leminsk
Oração das 08:31 PM | | Comentários (11)
outubro 10, 2005
instantes
Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido;
na verdade, bem poucas pessoas me levariam a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvete e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu
sensata e produtivamente cada minuto da sua vida.
Claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feito a vida:
só de momentos - não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma
sem um termômetro, uma bolsa de água quente,
um guarda-chuva e um pára-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres
e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
De Nadine Stair - Atribuído a Jorge Luís Borges
Oração das 08:11 PM | | Comentários (6)
outubro 09, 2005
o caracol
O caracol
De ténis, chapéu e óculos de sol
Decidiu ser atleta
"Vou pilotar um carro
Ou então uma motocicleta
Vou ser um corredor na maratona
Afinal, a São Silvestre está aí,
Posso praticar skate, surf
Ou ir para o Havai
Posso fazer muita coisa
Cuidar um pouco de mim...
Só não posso ficar assim,
Andando lentamente
Vendo a vida passar por aqui
E o mundo seguindo em frente!
Rosângela Borges
Oração das 06:50 PM | | Comentários (5)
outubro 08, 2005
orientação ou... falta dela

- ISEP?
- ?
- ISEP? - volto à pergunta, aponto o edifício.
- Ah! Não! Aqui é o ISEF. Aliás EX-ISEF, agora FCDEFUP!
- F?
- FCDEFUP!
- FDC...
- Não! FCDEFUP!
- FCD...
- Ah! Ah! F C D E F U P !
- F... desisto!
- F! C! D! E! F! U! P!
- E o I! S! E! P!?
- ISEP... ISEP... Isso é capaz de ficar perto da CCRN, ali ao lado da ANTRAN... Está a ver?
(Zonzo, meto a mão no bolso. Tacteio, encontro a embalagem. O outro fala...)
- Ora bom, vou explicar... Vai pela VCI, depois há o edifício do IGAPHE, sai no ISCIE...
(Sem tirar a mão do bolso, cuidadosamente abro o frasco. Conto um.)
- Depois vira no IEFP, antes do ECSH, mas não corta para o ESAD! Segue na direcção do ISAG, torneia o ITFI, mesmo junto do ISCET...
(Conto dois.)
- Passa a GUIPUZCOANA e depois da UEMLP pergunta pelo ISEP. Mas nem precisa. É mesmo em frente da ANAFRE, ao lado do PRODEP, à direita...
(Conto três comprimidos. Levo a mão à boca e, dissimuladamente, vou no PROZAC.)
Augusto Baptista in Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias
Oração das 06:45 PM | | Comentários (3)
outubro 07, 2005
o futuro
Aos Domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos Domingos iremos ao jardim.
Diremos nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses-,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.
Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários
Reinaldo Ferreira
Oração das 09:58 PM | | Comentários (4)
outubro 06, 2005
permanência
Não peçam aos poetas um caminho.
O poeta não sabe nada de geografia celestial.
Anda aos encontrões da realidade
sem acertar o tempo com o espaço.
Os relógios e as fronteiras não tem
tradução na sua língua.
Falta-lhe o amor da convenção em que nas outras
as palavras fingem de certezas.
O poeta lê apenas os sinais da terra.
Seus passos cobrem
apenas distâncias de amor e de presença.
Sabe apenas inúteis palavras de consolo
e mágoa pelo inútil.
Conhece apenas do tempo o já perdido; do amor
a câmara escura sem revelações; do espaço
o silêncio de um vôo pairando em toda a parte.
Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe
- morto redivivo.
Tudo é simples para quem adia sempre o momento
de olhar de frente a ameaça de quanto não tem resposta.
Adolfo Casais Monteiro
Oração das 08:30 PM | | Comentários (4)
outubro 05, 2005
balanço
Sei que para lá de ti,
há outros rios, outros sóis, outras marés,
que eu não aprendi.
Mas quero-te, apesar daquilo que não és.
Sei que para lá de ti,
há castelos com tesouros que não mereço,
um céu que ri.
E amo-te ainda, por aquilo que desconheço.
Sei que para lá de ti,
espreitam negruras e carreiros de solidão,
que já percorri.
Partir, será ainda solução?
Sei que para lá de ti,
há maravilhas que não me podes dar,
e que eu pedi.
Pode um egoísta como eu, saber amar?
Manuel Filipe
Oração das 08:50 PM | | Comentários (3)
outubro 04, 2005
da margem esquerda da vida
Da margem esquerda da vida
Parte uma ponte que vai
Só até meio, perdida
Num halo vago, que atrai.
É pouco tudo o que eu vejo,
Mas basta, por ser metade,
Pra que eu me afogue em desejo
Aquém do mar da vontade.
Da outra margem, direita,
A ponte parte também.
Quem sabe se alguém ma espreita?
Não a atravessa ninguém.
Reinaldo Ferreira
Oração das 10:14 PM | | Comentários (4)
outubro 03, 2005
operário em construção
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
...
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o pára-raios
Do edifício em construção
Que sempre dizia "sim"
Começou a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
Vinicius de Morais
Oração das 10:36 PM | | Comentários (6)
outubro 02, 2005
lição de um gato siamês
Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade
O tempo fora
de mim
é relativo
mas não é o tempo vivo:
esse é eterno
porque efetivo
- dura eternamente
enquanto vivo
E como não vivo
além do eu vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
Ferreira Gullar
Oração das 10:16 PM | | Comentários (8)