« outubro 2005 | Entrada | dezembro 2005 »

novembro 30, 2005

sem titulo

without shelter

...

De quem foram tais despojos
tão nulos e sem memória,
tão sinistros quanto inglórios
em seu mutismo hiperbólico?

...

Ivan Junqueira

Oração das 09:57 PM | | Comentários (3)

novembro 29, 2005

etapas

relogio estacao

...

Nunca cedas ao medo das viagens longas,
de que a vida também se faz.
Na primeira carruagem dos comboios nocturnos
viaja sempre a madrugada.

...

Torquato da Luz

Oração das 10:34 PM | | Comentários (5)

novembro 26, 2005

janelas opacas

A imagem do tempo é agora a de um cigarro/que se vai queimando lentamente

Já não olhamos pela mesma janela
O mundo que vemos através dela
Já não é o nosso
A imagem reflectida no espelho
Mostra um rio estrangulado, ressequido
As palavras antes repetidas
Foram levadas pelo vento
E o som que nos vai chegando
É o do mais profundo silêncio
Continuamos a talhar palavras
Em espaços separados
Eu aqui e tu aí
A imagem do tempo é agora a de um cigarro
Que se vai queimando lentamente
E na mesa a folha imaculada
Esperando o poema a duas mãos

Lina (Mar Revolto)

Oração das 08:40 PM | | Comentários (11)

novembro 25, 2005

sem titulo

sem abrigo

E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.

Carlos Drummond de Andrade

Oração das 09:47 PM | | Comentários (7)

novembro 24, 2005

lagrimas

gotas

Qué son lagrimas?
son gotas, de agua que
desprendendes por alguien

....

Lagrimas de desamor,
lagrimas de despedida,
lagrimas de desencanto,
lagrimas de ilusión,
lagrimas de melancolía.

Pero cuantas lagrimas he derramado!
...

Saray Jurado Roces

Oração das 09:46 PM | | Comentários (4)

O SuperCavaco (???) plagia

Reproduzo aqui o post feito pela Encandescente e que denuncia um plágio feito no blog do Super Prof. Cavaco Silva... ou Prof. Super Cavaco Silva? ou...? às cartas ao Pai Natal dos políticos candidatos à Presidência da República. Podem ver aqui o post dos Super Cavaquistas antes que eles o apaguem ou deturpem. Diz então a Encandescente:

"Foi com surpresa que ao fazer uma pesquisa no Yahoo deparei com uma das "Cartas ao Pai Natal" que escrevi no blog de apoio à candidatura de Cavaco Silva.
Claro que não puseram as restantes cartas só a que lhes convinha: a de Mário Soares.
Além do comentário que lá deixei onde manifesto o meu repúdio pelo aproveitamento e desenquadramento de um texto meu, manifesto aqui a minha indignação porque mesmo que tenham recebido as cartas por e-mail, como andam a circular, é desonesto da parte de quem faz o SuperCavaco a publicação de uma só!

O meu comentário lá:
1º ponto- sou eu a autora dessa e de mais 3 cartas ao Pai Natal em nome de todos os candidatos presidências e não gosto de ver o que escrevo associado a este blog e usado para denegrir um dos candicatos, nunca foi essa a minha intenção e se pretendesse atingir algum seria o vosso candidato.
2º ponto exijo que seja retirado ou posto o meu nome na carta e as restantes 3 para lhe dar o enquadramento devido.
é desonesto da vossa parte o aproveitamento do que escrevi! "

Acrescento eu que aproveitei e também por lá botei faladura. Antes que apaguem tudo, claro.

Oração das 03:53 PM | | Comentários (6)

novembro 23, 2005

outono (I)

autumn bridge

"Todas as belezas contêm... alguma coisa de eterno e alguma coisa de transitório - de absoluto e de eterno. A beleza absoluta e eterna (digamos entre parênteses, o ideal clássico) não existe... O elemento particular de cada beleza vem das paixões e como temos as nossas paixões particulares também temos a nossa beleza"

Baudelaire

autumn road

Oração das 07:45 PM | | Comentários (2)

novembro 22, 2005

solidão

banco-jardim-6.jpg

Oração das 09:52 PM | | Comentários (6)

novembro 21, 2005

um mundo

banco outono

É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo.

António Ramos Rosa

Oração das 10:05 PM | | Comentários (5)

novembro 20, 2005

no deserto

cardo

Falas-me de oásis em que podemos descansar
matar a sede que nos toma na voragem dos dias.
Falas-me de momentos roubados em que a vida pára
de locais onde é possível haver intervalos no tempo.

Sei que os oásis são raros para a longa travessia
de um deserto feito de momentos iguais.
E na verdade o tempo não pára em lugar algum
apenas abranda e suaviza as afiadas arestas.

Por isso não me digas de oásis nem de tempo.
Fala-me da vida que nasce nos desertos
da beleza da planta que resiste e cresce
mesmo onde a água é escassa e o tempo árido

Lique

Oração das 08:37 PM | | Comentários (4)

lançamento do livro do OrCa

jorge-1.jpg

O "nosso" Jorge aka OrCa lançou hoje o seu livro na Biblioteca de S. Domingos de Rana. Casa cheia como é bom de ver. Aqui ficam algumas fotos.

fanha-1.jpg

José Fanha

apguimaraes-1.jpg

Ana Paula Guimarães

leitor-3.jpg

Pedro Mota

leitor-2.jpg

Rosário Rodrigues

leitor-1.jpg

Rui Farinha

publico-1.jpg

Leitores de poemas e vista da sala

Oração das 12:10 AM | | Comentários (7)

novembro 18, 2005

só puta

street-lamp.jpg

Era puta.
Não puta fina. Puta.
Vestia roupas simples. Não usava adereços. Só pintura.
Pintava-se de forma exagerada para anunciar o que fazia.

Fazia da cara cartaz. Anúncio.
Quem olhava a cara pensava: É puta.
Quem olhasse só o corpo, nu de cor, coberto, envergonhado, não dizia da profissão.
Olhavam só a cara cartaz.

Esperava a noite sentada no escuro.
Todas as noites, à mesma hora, vestia uma roupa simples e saía.
Todas as noites, à mesma hora, parava na mesma rua, no mesmo local.
Ficava imóvel debaixo de um candeeiro que lhe iluminava o rosto pintado com cores de puta e lhe tapava o corpo envergonhado e nu de cores.

Quando abordada não sorria.
Escondia a voz com o mesmo pudor com que escondia o corpo.
Dizia o preço mecanicamente.
Levava o cliente para o mesmo quarto barato de sempre, onde como sempre, mecanicamente, lhe tomavam o corpo previamente pago.
No final de cada acto mecânico, rotineiro, esperava.
Olhava os clientes que abotoavam as calças sem a olhar.

O orgasmo pago. O esperma despejado num corpo pago para o receber.
Saíam com o mesmo alivio de quem sai da casa de banho sem olhar o local onde urinou.

Levantava-se.
Vestia as roupas simples sem olhar o corpo envergonhado.
Refazia a pintura carregando nas cores.
Voltava ao mesmo local. Á mesma luz.
Era puta.
Só puta.

Encandescente

Oração das 07:14 PM | | Comentários (5)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias (II)



"A justiça é não saber esconder que se tem pena de não ser amado.
A moral é a má hipocrisia da inveja."

Álvaro de Campos

Oração das 09:49 AM | | Comentários (1)

novembro 17, 2005

sem titulo

trees

O que nós vemos das coisas são as coisas.
Por que veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos?
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

(...)

Alberto Caeiro

Oração das 09:49 PM | | Comentários (4)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias (I)



"Este fósforo corre risco de vida."



João Luís Barreto Guimarães

Oração das 07:07 PM | | Comentários (1)

novembro 16, 2005

terra e paz

furnas

Nesta terra não tenho saudade de lugar nenhum
nem quero voltar para o senso comum.
Quero a flor plantada crescendo sem vaidade
o horizonte escancarado prometendo sossego
e a ignorância das voltas que o mundo dá.

(...)

Xenia Antunes

Foto tirada nas Furnas - Açores

Oração das 11:00 PM | | Comentários (5)

novembro 15, 2005

sou um evadido

escaping

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

Foto tirada no Jardim Municipal de Oeiras

Oração das 10:48 PM | | Comentários (3)

novembro 14, 2005

diz o pássaro...

other worlds

Mas que inteligência rara!
E julgas-te uma competência!
Nem sei como tens cara
P´ra ter tanta inteligência!

António Aleixo

Foto tirada no Jardim Municipal de Oeiras

Oração das 10:52 PM | | Comentários (4)

novembro 13, 2005

feuille morte

autumn garden

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.

Paul Verlaine

Oração das 08:14 PM | | Comentários (5)

novembro 12, 2005

sem titulo

clouds

Este céu passará e então
teu riso descerá dos montes pelos rios
até desaguar no nosso coração

Ruy Belo

Oração das 07:15 PM | | Comentários (8)

novembro 10, 2005

sem titulo

port

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer

Cesário Verde

Oração das 07:12 PM | | Comentários (3)

novembro 09, 2005

na praia (I)

seagulls


seagulls


beach

Oração das 07:57 PM | | Comentários (1)

para a Pedra, com amizade

arvore vermelha

Para ti, minha amiga, aqui fica esta árvore em tons de Outono (que sei que gostas e que este ano quase nem se vê) e um beijo de parabéns.

Oração das 12:01 AM | | Comentários (2)

novembro 08, 2005

graffitis XI

graffiti


graffiti

Oração das 08:10 PM | | Comentários (8)

novembro 07, 2005

nada muda

storm clouds

Caminho entre as palavras que escrevi
Trilhos que abri.
Descrita. Escrita. Palavras.
Nenhuma palavra é passado
Em nenhuma leio futuro
Escrevi sempre presente
Temporalmente em mim.
Não plantei um jardim de palavras
Abri fendas, crateras.
Sempre que a dor foi tão funda
A raiva tão violenta
A desilusão, erro óbvio
Pedra, rocha me tornei.
Olho-me do alto de precipícios
Do fim de caminhos
E olhando para trás olho em frente
Abro as mãos em desalento
Tanto caminho percorrido
E nada muda afinal.

Encandescente

Oração das 07:40 PM | | Comentários (1)

novembro 06, 2005

há muitos por aí...

peacock


peacock

... mas estes são muito mais bonitos!


Oração das 08:01 PM | | Comentários (3)

novembro 05, 2005

algumas proposições com pássaros e árvores...

rolas

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo

Oração das 07:32 PM | | Comentários (4)

novembro 04, 2005

as time goes by

as time goes by

Oração das 10:21 PM | | Comentários (4)

novembro 03, 2005

a minha cidade

homeless

De olhos vazios e almas fechadas,
cirandam nas ruas da minha cidade.
Para não se reverem nos rostos dos outros
e toparem à esquina com a crua verdade,
miram os sapatos, as pedras molhadas.

E, contudo, é bela a minha cidade.

O chinês das gravatas, atrás do Arsenal,
tabuleiro ao peito, expressão parada,
sonhando com a pátria - longínquas imagens,
tempos que vão maus - ainda não vendeu nada,
os pobres não usam e quem compra afinal?

E, contudo, é bela a minha cidade.

Angústia no rosto e na mão que se estende,
pela Baixa acima, mal o lobrigamos,
estirados exibem apelos ilegíveis.
- Minha cara amiga, para onde é que vamos?
- Ganham-se fortunas na pedincha, compreende?

E, contudo, é bela a minha cidade.

Rossio que se abre em braçados de flores,
de floristas cansadas na tarde já fria,
cravos e tulipas extasiam os turistas;
e os filhos que esperam na casa vazia?
Triste primavera, que ocultas mil dores.

E, contudo, é bela a minha cidade.

De cruzeiros dourados de sol e vaidade,
de becos sem tempo, de escuras portadas,
saem esses homens, cinzentos, sem rosto,
que de olhos vazios e almas fechadas,
cirandam nas ruas da minha cidade.

Manuel Filipe

Oração das 07:45 PM | | Comentários (4)

novembro 02, 2005

à conversa

talking

...
Dolores da vida, em cada esquina
a nos espreitar
Dolores do mundo,
a cada segundo
o peito a sangrar
Dolores sofridas,
ao longo da vida
nos fazem chorar
Dolores que nascem
Dolores que morrem
Dolores mutantes
Dolores gestantes
Dolores do parto
Dolores que partem,
deixando ficar
junto com as marcas,
espinhos, Dolores
e um ramo de flores
jasmim, margarida
ou um simples miosótis
como a nos dizer:
"forget-me-not"

Nem tudo na vida são dores, Dolores
como na vida, nem tudo são flores...

Poema: Eliane Stoducto

Oração das 10:03 PM | | Comentários (4)

Encandescente

Foi hoje publicado o tão esperado livro da "nossa" Encandescente. É uma referência de qualidade na blogosfera e esta edição só pecou por tardia. Apesar de só estar disponível nas livrarias lá para o final do mês, pode desde já ser encomendado para a Editora Polvo por email. O custo é de 7,90 € mais, provavelmente, os portes. Por outro lado a Rádio Paris-Lisboa está a dar destaque ao livro na sua edição diária sobre literatura. Parabéns Encandescente!

Oração das 12:09 AM | | Comentários (8)