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janeiro 31, 2006

#15

estudo face-2

Oração das 08:44 PM | | Comentários (0)

poesia #17

jorge de sena

Quanto de ti, Amor...

Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre -
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego -
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte -
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor que nos traiu -
Quanta traição existe em possuir-se a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro -
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará -
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só -
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na auséncia indestrutível que
nos faz ser um no outro -
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida -
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam -
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.

Jorge de Sena

Oração das 02:52 PM | | Comentários (0)

Canções #2

led zeppelin

Stairway To Heaven

There's a lady who's sure all that glitters is gold
And she's buying a stairway to heaven.
When she gets there she knows, if the stores are all closed
With a word she can get what she came for.
Ooh, ooh, and she's buying a stairway to heaven.

There's a sign on the wall but she wants to be sure
'Cause you know sometimes words have two meanings.
In a tree by the brook, there's a songbird who sings,
Sometimes all of our thoughts are misgiven.
Ooh, it makes me wonder,
Ooh, it makes me wonder.

There's a feeling I get when I look to the west,
And my spirit is crying for leaving.
In my thoughts I have seen rings of smoke through the trees,
And the voices of those who stand looking.
Ooh, it makes me wonder,
Ooh, it really makes me wonder.

And it's whispered that soon if we all call the tune
Then the piper will lead us to reason.
And a new day will dawn for those who stand long
And the forests will echo with laughter.

If there's a bustle in your hedgerow, don't be alarmed now,
It's just a spring clean for the May queen.
Yes, there are two paths you can go by, but in the long run
There's still time to change the road you're on.
And it makes me wonder.

Your head is humming and it won't go, in case you don't know,
The piper's calling you to join him,
Dear lady, can you hear the wind blow, and did you know
Your stairway lies on the whispering wind.

And as we wind on down the road
Our shadows taller than our soul.
There walks a lady we all know
Who shines white light and wants to show
How everything still turns to gold.
And if you listen very hard
The tune will come to you at last.
When all are one and one is all
To be a rock and not to roll.

And she's buying a stairway to heaven.

Led Zeppelin (Page/Plant)

Oração das 09:55 AM | | Comentários (0)

janeiro 30, 2006

#14

ean cascata

Oração das 08:24 PM | | Comentários (0)

poesia #16

vinicius

A medida do abismo

Não é o grito
A medida do abismo?
Por isso eu grito
Sempre que cismo
Sobre tua vida
Tão louca e errada...
– Que grito inútil!
– Que imenso nada!

Vinicius de Moraes

Oração das 03:12 PM | | Comentários (0)

Telas #3

drawing hands

M.C. Escher - Drawing Hands, 1948

Oração das 09:18 AM | | Comentários (0)

janeiro 29, 2006

Em dia de neve... venham as flores

flower bug


flower-3


flower-1


flower-2

Oração das 07:57 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #23



Acredito na disciplina do silêncio... - E poderia falar durante horas sobre o assunto.

Bernard Shaw

Oração das 11:21 AM | | Comentários (1)

janeiro 28, 2006

#13

estudo funeral a.cunhal-1

Oração das 04:14 PM | | Comentários (0)

Telas #2

La Chateau des Pyrenees

René Magritte - Le Château des Pyrénées, 1959

Oração das 11:14 AM | | Comentários (0)

janeiro 27, 2006

#12

face study

Oração das 07:52 PM | | Comentários (0)

Da revista Colóquio #2

coloquio32

Cor

É preciso soltar o ritmo que me prende,
esta amarra de ferro à palavra e ao som.
Emudecer, no espaço, o arco e a corrente
e ser nesta varanda um pouco só de cor.

Não saber se uma flor é mesmo uma criança.
Se um muro de jardim é proa de navio.
Se o monumento fala, se o monumento dança.
Se esta menina cega é uma estátua de frio.

Um pássaro que voa pode ser um perfume.
Uma vela no rio, um lenço no meu rosto.
Na tarde de Fevereiro estar um dia de Outubro.
Nos meus olhos de morta uma noite de Agosto.

É preciso soltar o ritmo das marés,
das estações, do Amor, dos signos e das águas,
os duendes das plantas, os génios dos rochedos
Nos cabelos do Vento, as tranças de arvoredos.

Desordenai-me, luz! Que nada mais dependa
das águas, das marés, dos signos e do Amor.

É preciso calar o arco e a corrente
e ser nesta varanda um pouco só de cor.

Natércia Freire in Colóquio nº 32 de Fevereiro de 1965

Oração das 02:19 PM | | Comentários (0)

Mozart - 250 anos

mozart

É incontornável. É, talvez, o maior compositor de sempre. E comemoram-se hoje os 250 anos do seu nascimento. Aqui fica a minha homenagem. Podem ler aqui, entre muitos outros sites, a sua biografia e conhecer a sua obra. Deixo, para quem quiser ouvir, o Rondo Alla Turca, uma das muitas composições de que gosto.

Rondo Alla Turca

Oração das 09:16 AM | | Comentários (0)

janeiro 26, 2006

A caligrafia do sexo...

est couple

Passamos o caudaloso rio como se a corrente
Fosse sereno magma e o leite em que as vestais
Mergulham em banhos de incenso e pétalas.

Ou cativos bebêssemos o vinho tépido dos restos
Do banquete. Migalhas. Ou inútil oração de anjos
Fossemos. Ou festim de demónios vencidos...

E no entanto amamos sôfregos de amores.
Por vezes fingidos na melancolia das tardes
Antes de anoitecer.

E redimimos as palavras.
No corpo da mulher como absolutos beijos
Sem futuro. E por isso tão ternos e tão reais.

E na ascentral pulsão de antigos donos
(Oficiantes de um tempo indelével na memória)
Escrevemos a caligrafia do sexo na ponta
De nós mesmos...

Poema do Romeiro

Trabalho sobre foto de Howard Schatz

Oração das 08:24 PM | | Comentários (0)

poesia #15

Reinaldo Ferreira

A que morreu às portas de Madrid

A que morreu às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
Teve a sorte que quis,
Teve o fim que escolheu.
Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.
E antes de flor, foi, como tantas, pomo.
Ninguém a virgindade lhe roubou
Depois de um saque - antes a deu
A quem lha desejou,
Na lama dum reduto,
Sem náusea mas sem cio,
Sob a manta comum,
A pretexto do frio.
Não quis na retaguarda aligeirar,
Entre «champagne», aos generais senis,
As horas de lazer.
Não quis, activa e boa, tricotar
Agasalhos pueris,
No sossego dum lar.
Não sonhou minorar,
Num heroísmo branco,
De bicho de hospital,
A aflição dos aflitos.

Uma noite, às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
À hora tal, atacou e morreu.

Teve a sorte que quis.
Teve o fim que escolheu.

Reinaldo Ferreira

Oração das 02:55 PM | | Comentários (1)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #22



A resignação na miséria é atentado à dignidade humana.

D. Francisco Manuel de Melo

Oração das 09:06 AM | | Comentários (0)

janeiro 25, 2006

#11

candles

Oração das 07:39 PM | | Comentários (0)

Da revista Vértice #2

vertice315-6

La esquina

en esta esquina se hizo polvo la paz de una familia
en esta esquina se ha preparado discursos commovedores
en esta esquina se desangró un simples albañil
ahora muchos edificios llevan su nombre
en esta esquina un esclavo soñó ser como yo
difícil y volcánico mínimo y sexual
en esta esquina el sol encontró
huellas legibles de un infiel maravilloso
en esta esquina le crecieron tarros
al bondadoso antonio
en esta esquina un joven amante perdió su legítima sonrisa
en esta esquina se se hizo añicos
la nave que viajó a tus pupilas
en esta esquina fui ajusticiado por liberar
a ciertas palabras inocentes
en esta esquina se arruinó la virilidad de un adolescente
en esta esquina hay historias que son
capaces de tansformar a muchas caras
en esta esquina proclamo mi complicidad
con las ilegítimas manifestaciones de la vida

Ivan Gerardo Campanioni in Vértice nº 315-6 de Maio de 1970 - A mais jovem poesia cubana

Oração das 02:46 PM | | Comentários (0)

Telas #1

AsummptaCorpusculariaLap

Salvador Dali - Asummpta Corpuscularia Lapislazulina, 1952

Oração das 10:16 AM | | Comentários (0)

janeiro 24, 2006

#10

cemiterio oeiras gavetas

Oração das 08:07 PM | | Comentários (0)

poesia #14

Joao Luis Barreto Guimaraes

sempre temos alguma coisa a aprender uns dos outros
posso começar? o vento está sempre ao serviço de
deus e morrer hoje em dia já não é tão mau como isso.

é verão. creio que está calor: gostamos de ficar assim
conversando à porta do número catorze acerca dos
mil e um truques das mulheres (muito haveria a dizer
dos truques das mulheres) da velocidade das chuvas

da nomenclatura do amor (cheiros que o tabaco
traz: imagens infidelidades as intenções) tudo. há
quem diga: em agosto o canto dos lábios fica mais
solto (diz-se: perde-se em falas facilmente) mas

por aqui não há já quem acredite em ilhas desertas.
um dia passa chega outro depois outro e sempre temos
alguma coisa a saber uns dos outros: alguma coisa

João Luís Barreto Guimarães in Há violinos na tribo


p.s. obrigado pela informação do link

Oração das 03:33 PM | | Comentários (0)

Canções #1

jacques brel

Orly

Ils sont plus de deux mille
Et je ne vois qu`eux deux
La pluie les a soudés
Semble-t-il l`un à l`autre
Ils sont plus de deux mille
Et je ne vois qu`eux deux
Et je les sais qui parlent
Il doit lui dire: je t`aime
Elle doit lui dire: je t`aime
Je crois qu`ils sont en train
De ne rien se promettre
C`est deux-là sont trop maigres
Pour être malhonnêtes

Ils sont plus de deux mille
Et je ne vois qu`eux deux
Et brusquement ils pleurent
Ils pleurent à gros bouillons
Tout entourésqu`ils sont
D`adipeux en sueur
Et de bouffeurs d`espoir
Qui les montrent du nez
Mais ces deux déchirés
Superbes de chagrin
Abandonnent aux chiens
L`exploir de les juger

Mais la vie ne fait pas de cadeau!
Et nom de dieu!
C`est triste Orly le dimanche
Avec ou sans Bécaud

Et maintenant ils pleurent
Je veux dire tous les deux
Tout à l`heure c`était lui
Lorsque je disais il
Tout encastrés qu`ils sont
Ils n`entendent plus rien
Que les sanglots de l`autre
Et puis infiniment
Comme deux corps qui prient
Infiniment lentement ces deux corps
Se séparent et en se séparant
Ces deux corps se déchirent
Et je vous jure qu`ils crient
Et puis ils se reprennent
Redeviennent un seul
Redeviennent le feu
Et puis se redéchirent
Se tiennent par les yeux
Et puis en reculant
Comme la mer se retire
Ils consomment l`adieu
Ils bavent quelques mots
Agitent une vague main
Et brusquement ils fuient
Fuient sans se retourner
Et puis il disparaît
Bouffé par l`escalier

La vie ne fait pas de cadeau!
Et nom de dieu!
C`est triste Orly le dimanche
Avec ou sans Bécaud

Et puis il disparaît
Bouffé par l`escalier
Et elle elle reste là
Cœur en croix bouche ouverte
Sans un cri sans un mot
Elle connaît sa mort
Elle vient de la croiser
Voilà qu`elle se retourne
Et se retourne encore
Ses bras vont jusqu`a terre
Ça y est elle a mille ans
La porte est refermée
La voilà sans lumière
Elle tourne sur elle-même
Et déjà elle sait
Qu`elle tournera toujours
Elle a perdu des hommes
Mais là elle perd l`amour
L`amour le lui a dit
Revoilà l`inutile
Elle vivra ses projets
Qui ne feront qu`attendre
La revoilà fragile
Avant que d`être à vendre
Je suis là je le suis
Je n`ose rien pour elle
Que la foule grignote
Comme un quelconque fruit

Jacques Brel

Oração das 09:42 AM | | Comentários (0)

janeiro 23, 2006

#9

woman flower mouth

Oração das 07:59 PM | | Comentários (1)

poesia #13

mia couto

Confidência

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto

Oração das 03:13 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #21



Um idealista é aquele que, verificando que uma rosa cheira melhor que uma couve, conclui que também fará melhor sopa.

Mencken

Oração das 10:08 AM | | Comentários (1)

janeiro 22, 2006

Pois...

Preciso definitivamente de um remédio para os pesadelos... forte! Já experimentei Lexotan, Xanax, etc, etc. Não chegam. Agradeço sugestões. E tu pá podes dormir descansado :(

Oração das 10:08 PM | | Comentários (0)

E o pesadelo tornou-se recorrente...


de modo que depois de tentados os métodos conhecidos e científicos para o combater, decidi, eu, que não sou crente, decidi acender estas velinhas aos deuses, semi-deuses, anjos, diabos e outras figuras da mesma galeria para ver se acabo com ele de vez. Esta noite logo vejo se resultou...

Oração das 10:25 AM | | Comentários (0)

janeiro 21, 2006

Eu tive... um pesadelo

Eu tive um pesadelo esta noite. Acordei apavorado, banhado em suor, porque estas imagens, que são as de que me recordo (sei que havia uma que envolvia bolo rei mas que não consegui fixar...) assaltaram o meu sono:

Cavaco

cavaco-2.gif

cavaco-3.gif

Simultâneamente e sem explicação estas palavras martelavam-me a cabeça:

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Acho que o Zeca me estava a querer dizer qualquer coisa...

Oração das 06:17 PM | | Comentários (0)

Da revista Colóquio #1

coloquio31

Portugal

Do atlântico mar, nas suas praias
Desgrenhada e descalça uma figura
Senta-se ao pé das serras coroadas
Por um triste pinhal. Sobre os joelhos

Os cotovelos. Tem as mãos nas faces
E crava ansiosos olhos de leoa,
No pôr do sol, enquanto o mar entoa
Seu trágico cantar de maravilhas...

Fala de longes terras e de azares
Enquanto ela assenta nas espumas
Seus pés... e sonha com o fatal império

Que se perdeu nos tenebrosos mares
E olha como, entre agoureiras brumas
Se ergue Sebastião, rei do mistério...

Poema de Miguel de Unamuno, tradução de Domingos Monteiro in Colóquio nº 31 de Dezembro de 1964


Ora, vá-se lá saber porquê, o olhar de Unamuno sobre o nosso país lembrou-me de imediato esta imagem e este poema da Encandescente que vi ontem à noite:

Espelho meu, espelho meu...

Por razões que não interessam à história
D. Sebastião ficou de vir
Será que se veio?
Dos areais da mourama
Do ardor da contenda
Do grito guerreiro (ou brejeiro?):
“Ai que é moiro, ai que o mato”
Não ficou registo ou relato.
Foi em Alcácer Quibir
Que D. Sebastião
Esquecendo-se de vir
Nasceu Messias
Salvador
E adiado.

Enfim, estranhas ligações que me vêem à cabeça...

Oração das 03:12 PM | | Comentários (0)

Aleluia! Acabou!

hubble

A porra da campanha eleitoral. Aqui fica esta magnífica foto do Hubble para ajudar aos festejos.

Oração das 10:59 AM | | Comentários (0)

janeiro 20, 2006

#8

highway

Oração das 08:00 PM | | Comentários (0)

poesia #12

Manuel Antonio Pina

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina

Oração das 02:30 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #20



Se te entretiveres a atirar pedras aos cães que te ladram, nunca mais chegarás ao fim do teu caminho.

Provérbio árabe

Oração das 09:43 AM | | Comentários (0)

janeiro 19, 2006

Estatutos

Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony


Artigo I. Fica decretado que agora vale a verdade. que agora vale a vida, e que de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II. Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III. Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV. Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único: O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo V. Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo VI. Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII. Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII. Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX. Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X. Fica permitido a qualquer pessoa, a qualquer hora da vida, o uso do traje branco.

Artigo XI. Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo. muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII. Decreta-se que nada será obrigado nem proibido. tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Artigo XIII. Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo Final. Fica proibido o uso da palavra liberdade. a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964

Thiago de Mello

Trabalho sobre foto de Stanmarek

Oração das 07:41 PM | | Comentários (1)

Da revista Vértice #1

vertice324.jpg

Estávamos no tempo das estrelas
e tu como eu éramos árvore
os ramos gestos só de liberdade
longe do pó que nasce nas cidades;
e tu eras o pão flor
música rio
sol poema
raiz terra
ponte necessária

Estávamos no tempo de construir caminhos
nesse país longínquo que habitávamos
- uma casa de amor em tua aldeia -
Aí pude falar do encontro das manhãs
que cresciam sobre a terra verde
nas asas livres das aves
o crepúsculo longamente adiado
e mesmo as noites eram feitas
de sorrisos.

Aí pude falar de terra
como palavra verdadeiramente nossa.

Um gesto sempre novo
em nossas mãos
a construir secretamente
o grande barco
do teu corpo e do meu
num oceano inventado.

Manuel Henrique Prior in Vértice nº 324 de Janeiro de 1971

Oração das 02:44 PM | | Comentários (1)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #19



Aquele que descobre que há outro homem na vida da sua mulher, reage sempre mal. Porquê, se é uma homenagem que o outro faz, ao seu bom gosto?!!!

Nunes dos Santos

Oração das 09:40 AM | | Comentários (0)

janeiro 18, 2006

Regresso, agora...

abandoned boats

Regresso, agora, ao tempo em que o rio
corria azul, como os meus dias,
e fixo, no céu trémulo de gaivotas,
o perfil negro e rigoroso dos navios.

Oh! Navios esquecidos, aviltados no lodo,
quem soltará as fatais amarras a que vos prenderam,
apodrecendo na mágoa,
pelos séculos, na mágoa, flutuando...

Estridências de sirenes,
soluços sincopados da máquina,
calem o marulho das vagas contra os cascos
que definham, perdidos, entre marés...

Buzinas de nevoeiro,
sinos de convés,
abafem o murmúrio sussurrado nas amuras
e sufoquem este silêncio, pródomo da morte!

Solidão nocturna, guardada no peito,
voa sobre o rio que esta lua envelheceu,
que o vento te leve, por entre ondas fosforecentes,
até te perderes no mar, coberta de cinza e prata.

Poema do Manuel Filipe

Oração das 07:37 PM | | Comentários (0)

poesia #11

al berto

escrevo barco e uma quilha fende o vastíssimo mar e as árvores crescem dos espaços enevoados entre olhar e olhar movem-se animais presos à terra com suas plumagens de ferro e de orvalho de ouro quando a lua se eclipsa comunicando-lhes o cio e a nómada alegria de viver

penso outono ou inverno
e o lume resinoso dos pinhais escorre sobre o rosto
sobre o corpo em tímidos gestos
eis o tempo
do capricórnio reduzido ao esconderijo tatuado
na asa mineral da ave em pleno voo e digo nuvens
relâmpago erva águas
homem
movimento de susto de oceanos sal exaustos corpos
transumantes paixões digo
e surge irrompe escorre ergue-se move-se vive
morre
mas não julguem ser trabalho simples nomear
arrumar e desordenado mundo

para que não se apague esta trémula escrita
preciso do sonho e do pesadelo
da proximidade vertiginosa dos espelhos e
de pernoitar no fundo de mim com as mãos sujas
pelo árduo trabalho de construir os gestos exactos
da alegria que por descuido deus abandonou ao cansaço
no fim do sétimo dia

Al Berto in "Alguns poemas da Rua do Forte"

Oração das 03:05 PM | | Comentários (0)

janeiro 17, 2006

poesia #10

Nuno Judice

Cena de rua

A mulher com o chapéu de chuva na mão
espera o autocarro que há-de vir; mesmo
que chova, o chapéu de chuva fica fechado;
chega o autocarro, e olha para o lado.

Está ali de manhã à noite, com o tempo a passar
sem ela dar por ele. Se lhe perguntarem porquê,
fala da chuva que está para cair; se a avisam
da chuva, fala do autocarro que vai chegar.

O mundo devia ser como a vida dessa mulher,
igual de manhã até à noite, sem razões para dar
- apesar do autocarro que não vai chegar,
a essa rua sem fim onde não pára de chover.

Nuno Júdice

Oração das 02:30 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #18

moedas-2.jpg

Encontrei mesmo há instantes a caminho do Café, uma moeda de cem depositada num banco.

Vou gastá-la agora mesmo. Nunca se deve ficar com aquilo que não nos pertence.


João Luís Barreto Gumarães in Lugares comuns

Oração das 08:55 AM | | Comentários (0)

janeiro 16, 2006

Direitos

Tenho o direito
de ter asas nos meus bolsos
de ser folha ao vento e pétala de mar
de querer o impossível
de não ser igual aos outros
de inventar o inexistente
de exigir que me abram todas as portas
de não querer fronteira, País, Europa
de saber todos os segredos e desejos
de correr todos os caminhos
de pintar poemas com cores de luz
de escrever versos em branco
de não vender poesia
de ver que nada é igual
e que é tudo a mesma coisa
de ser semente, flor e fruto
de andar vestida como quiser
de andar nua como vim ao mundo
de beber sumo de ausência para não morrer
de morar no sol e fazer férias na lua
de multiplicar o amor contigo
e ser feliz para sempre

Poema da Betty

Oração das 07:48 PM | | Comentários (0)

poesia #9

bocage

Ó vós que lamentais de Elmano a sorte,
Crendo na escura terra o corpo frio
E os manes já sulcando o mudo rio,
Na barca imensa de geral transporte,

Sabei que o doce, inevitável corte
Lhe foge da existência ao ténue fio
E que seria em vós dever mais pio
Chorar-lhe a vida, que chorar-lhe a morte.

Existindo, agoniza um desgraçado;
Quem lágrimas nas cinzas lhe derrama,
Parece que o queria atormentado;

Vive, mas pela morte Elmano chama,
Com suspiros Elmano implora ao Fado
Que seja voz de agoiro a voz da fama.

Bocage

Oração das 02:55 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #17



Uma das melhores curas temporárias para o orgulho e afectação é o enjoo; um homem que quer vomitar nunca se dá ares...

Henry Billings

Oração das 10:04 AM | | Comentários (0)

janeiro 15, 2006

Estudo #2

nude study

Trabalho sobre foto de Jeffery Scott

Oração das 07:50 PM | | Comentários (0)

Estrela da tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

José Carlos Ary dos Santos

Oração das 10:54 AM | | Comentários (0)

janeiro 14, 2006

Estudo #1

Trabalho feito sobre fotografia de S.K.G.S.

Oração das 07:56 PM | | Comentários (0)

poesia #8

fernando rente

Da raiz
de teus cabelos
nasce
teu rosto

rosto e face
que foi tudo

mãos
dedos
carícias

Primaveras
Verões
guardam-te
para
as madrugadas
dos dias.

Fernando Rente

Oração das 04:12 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #16



A vaidade é a confiança no efeito do nosso valor, o orgulho a confiança em que temos valor.

Fernando Pessoa

Oração das 11:10 AM | | Comentários (0)

janeiro 13, 2006

Arco-íris

arco iris rainbow

O sol, dia após dia, não queimava
o meu corpo soturno e sombrio.
E eu tão só, almejando um mar de lava
que me abrasasse o coração vazio...

A cada noite a lua minguava,
no meu quarto, crescente só o frio.
E eu ansiando a luz que fosse escrava
dum farol que orientasse o meu navio...

Foi então que te vi, de sete cores,
avivando o meu céu, serena e nua,
num arco que apagou todas as dores.

Encheste de clarões a minha rua,
cobriste a minha cama de mil flores,
tornaste-te meu sol e minha lua.

Soneto do Fernando "Cidadão do Mundo"

Oração das 07:39 PM | | Comentários (3)

poesia #7

Ruy Belo

Tristeza Branda

Num dia destes de tristeza mansa
cansado já de tanto experimentar
eu que só ainda me não matei
talvez gostasse de me matar

Mas se porventura me desse mal
que ao menos fosse lícito voltar
Ver os amigos e os inimigos
e pelas ruas outra vez passear

Mas agora que cantei da tristeza
não observo já os mais leves traços
e a minha maneira de me matar
é deixar cair ambos os braços

Ruy Belo

Oração das 02:30 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #15



O foguete rebenta, nas nuvens. Em curvas largas e volteios indecisos, a cana circunda a romaria. De repente, embica para baixo, veloz, determinada. E crava-se, letal, mesmo no alto da careca do presidente da comissão de festas.

Para o ano que vem, o fogueteiro tem debaixo de olho o presidente da Junta.


Augusto Baptista in Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias

Oração das 08:56 AM | | Comentários (1)

janeiro 12, 2006

Solidão e sombra

solidao sombra

Passei pelo fogo atravessei as chamas
ardi muito em fornalha de inferno
- mas ia com a minha solidão.

Venci enchentes chafurdei na lama
senti as dores reais de se ser chão
apeteci ripostar uivar até matar
rangi os dentes gritei e ergui depois
a alma maltratada até onde onde podia
- mas ia com a minha solidão.

Nasci sozinha para viver sozinha
(não o permitiu assim a força do viver)
amo esta capa que me veste desde a hora
em que a mãe me pariu com a imensa raiva
de quem nunca me quis dentro de si.

- Ah, como eu amo a minha solidão!

Mas nunca estou sozinha, que o não posso
não o deixa esta sombra que caminha
vá eu aonde for, na minha frente
tão fiel tão silente tão constante
tão a indicar caminho como o é
o cão de um cego na trela do seu dono.

Vivo com a sombra e a minha solidão.

Poema da Paper Life

Oração das 08:43 PM | | Comentários (1)

poesia #6

Alexandre O' eill

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill

Oração das 02:30 PM | | Comentários (0)

Hoje lembrei-me dele

mário viegas

Lembrei-me dele hoje. E apeteceu-me editar esta fotografia extraordinária. Que não é minha. E, para completar, ouçam aqui o Mário Viegas numa versão inigualável do Manifesto do Almada Negreiros (demora um pouco a carregar mas vale bem a pena). Porque ele foi único.

Oração das 08:30 AM | | Comentários (0)

janeiro 11, 2006

#7

arvores verde escuro

Oração das 07:53 PM | | Comentários (0)

poesia #5

almada negreiros

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade
Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?
Esperança:
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.

Almada Negreiros

Oração das 02:45 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #14



Convém deixar ao morrer algumas dívidas incobráveis, para que alguém nos chore com sinceridade.

J. Benavente

Oração das 10:35 AM | | Comentários (0)

janeiro 10, 2006

Cântico negro

Sobre o lampadário estilhaçado, há um sussurro de
sílabas ou folhas mortas. Outros fragmentos negros
inflamam este delírio:
- Pássaros de cinza, com olhos espantados.

Quando a cerimónia terminar estarei só. Despojado
de tudo, até dos outros. Num circo de pedra,
onde facas de gelo, ferem mais e mais.
Uma marcha fúnebre (um tambor de lata)
será o meu legado.

A noite balbucia, estou desperto.
Ferozmente desperto, ou à beira da loucura.
Não sei quem por mim fala, mas nem um corvo
poisado no peito agita as asas
e está vivo e vigilante.

Poema de Manuel Filipe. Não deixe de visitar o blog e aproveite para comprar o livro.

Oração das 08:09 PM | | Comentários (1)

janeiro 09, 2006

Cigarro

Acender um cigarro
Vê-lo arder
A chama a brilhar
Diminuir.
Durar exactamente
O tempo que dura um cigarro
Brilhar como chama
Extinguir-me
Apagar-me
E como as cinzas de um cigarro
Desaparecer assim
Como se nunca tivesse existido
Como se nunca tivesse brilhado.
Eu
O meu cigarro que agora apago.

Poema da Encandescente. A propósito, já compraram o livro?

Oração das 07:11 PM | | Comentários (1)

janeiro 08, 2006

Criação

criação

Moldou-lhe a testa, com dois dedos, em percursos divergentes. Com as palmas das mãos, enconchadas, conformou as maçãs do rosto, seguiu, em gestos circulares, desenhando queixo, desenhando lábios. Com as mãos unidas, num movimento suave definiu o nariz, abriu-as em voo lento, percorrendo o rosto, reconhecendo as linhas que imaginara. Nos olhos demorou, roçando apenas com os dedos enquanto percebia impressões de pálpebras e de cílios. Deixou-o de olhos fechados, preferiu-o adormecido.

O pescoço foi feito num gesto único de mãos abertas que pelos polegares se ligam, os ombros nasceram do abraço da matéria. Moldou braços como nascente de rios, mãos como raízes que se entranhavam no solo. Pegou na força de árvores centenárias e com ela lhe fez o tronco, bordou mamilos de cicatrizes de ramos cortados. O ventre foi criado de lagos de águas calmas, apenas texturados pela brisa que sopra suave. O umbigo, cordão de vida, nasceu de uma gota gorda de chuva que atingindo o lago, fez ecos concêntricos na sua superfície.

O sexo foi moldado, cuidada e repetidamente pelo âmago do seu corpo. Do percurso continuado dos seus seios fez-lhe pernas. Os pés nasceram de gestos rápidos e soltos, como asas prontas para novos voos.

Abriu então os olhos e o barro era já carne. E as mãos que lhe deram forma eram agora carícias que lhe davam corpo.

E com um beijo deu-lhe vida.

Texto da Maria PDV.

Oração das 07:14 PM | | Comentários (1)

Com a cabeça à razão de juros

“Tenho a cabeça à razão de juros”. Disse-me a velha Senhora.
A frase, que não ouvia há muito, ficou a martelar-me na cabeça.
Conheço a frase desde criança. Sei o que quer dizer.
Mas nunca lhe percebi o sentido. E não sei de onde apareceu.
Juros à cabeça, sei o que são.
Juros que nos dão volta à cabeça, também os conheço bem.
Cabeças com razão ou sem ela, fazem parte do meu dia a dia.
Juros com razão ou sem ela, são-me debitados constantemente.
Agora a soma das três palavras: cabeça + juros + razão não a percebo.
Vou ficar com a cabeça à razão de juros a tentar perceber.
Porquê os juros?
Razão de juros?
Tenho a cabeça à razão de juros?

Oração das 10:52 AM | | Comentários (0)

janeiro 07, 2006

#6

bote abandonado abandoned boat

Oração das 08:10 PM | | Comentários (1)

Confidente

waiting sea

Abro a caixa das recordações. Num passado longínquo vejo-me pedra deste pontão, contemplando, deixando correr o tempo. Mar confidente, companheiro de sempre.

Oração das 10:42 AM | | Comentários (0)

janeiro 06, 2006

#5

vendedora castanhas

Oração das 07:47 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #13



Um rosto sobre o punho cansado escuta o que os outros conversam. Dedos espalhados pela face, espreita o que os outros conversam. Cotovelo sobre a mesa, apoia o que os outros conversam.

Se lhe tocarmos o braço, a face cai.

João Luís Barreto Guimarães in "Lugares Comuns"

Oração das 03:10 PM | | Comentários (0)

O caminho

caminho path

Caminho longo já percorrido. Confuso o que pela frente se apresenta. Seguimos sob a luz inversa de árvores carregando um passado que não podemos largar e a incerteza de um futuro que não podemos determinar.

Oração das 10:24 AM | | Comentários (0)

janeiro 05, 2006

#4

armada na ribeira

Oração das 08:07 PM | | Comentários (0)

poesia #4

ary dos santos

Epígrafe

De palavras não sei. Apenas tento
desvendar o seu lento movimento
quando passam ao longo do que invento
como pre-feitos blocos de cimento.

De palavras não sei. Apenas quero
retomar-lhes o peso a consistência
e com elas erguer a fogo e ferro
um palácio de força e resistência.

De palavras não sei. Por isso canto
em cada uma apenas outro tanto
do que sinto por dentro quando as digo.

Palavra que me lavra. Alfaia escrava.
De mim próprio matéria bruta e brava
--- expressão da multidão que está comigo.

Ary dos Santos

Oração das 03:27 PM | | Comentários (1)

Janela com pombo

janela pombo window pigeon

O pombo acolheu-se na janela partida que o sol aquecia. Durante o almoço o céu pintou-se de cores negras e o vento levantou-se frio. Quando voltei o pombo ainda lá estava. Agora encolhido, acolhido na ilusória protecção da janela partida duma casa arruinada. Sem sol. A fotografia que eu queria fria e sem vida ficou mais triste.

Oração das 10:21 AM | | Comentários (1)

janeiro 04, 2006

O livro do Manuel Filipe

Foi finalmente lançado o livro que reúne os poemas escritos pelo Manuel Filipe entre 1969 e 2004. São quase 400 páginas de poesia de grande qualidade, alguma da qual tenho publicado aqui, e que recomendo vivamente. O livro pode desde já ser encomendado através deste e-mail. O preço é de 12 euros mais portes de correio. Aqui fica um dos poemas que mais me agrada. Outros poderão ser lidos no blog Poemas de Manuel Filipe.

Balanço

Sei que para lá de ti,
há outros rios, outros sóis, outras marés,
que eu não aprendi.
Mas quero-te, apesar daquilo que não és.

Sei que para lá de ti,
há castelos com tesouros que não mereço,
um céu que ri.
E amo-te ainda, por aquilo que desconheço.

Sei que para lá de ti,
espreitam negruras e carreiros de solidão,
que já percorri.
Partir, será ainda solução?

Sei que para lá de ti,
há maravilhas que não me podes dar,
e que eu pedi.
Pode um egoísta como eu, saber amar?

Oração das 07:21 PM | | Comentários (1)

poesia #3

joaquim pessoa

Resistir

Dobrar na boca o frio da espora
Calcar o passo sobre lume
Abrir o pão a golpes de machado
Soltar pelo flanco os cavalos do espanto
Fazer do corpo um barco e navegar a pedra
Regressar devagar ao corpo morno
Beber um outro vinho pisado por um astro

Possuir o fogo ruivo sob a própria casa
numa chama de flechas ao redor.

Joaquim Pessoa

Oração das 03:34 PM | | Comentários (1)

foto do dia #1

Partida S. Miguel 1989

partida s. miguel

Foto: António Pedro Ferreira - 9 Arte

Oração das 10:25 AM | | Comentários (1)

janeiro 03, 2006

#3

rindo laughing

A garrafa é mesmo de água... a boa disposição é natural e genuína.

Oração das 07:34 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #12


Depois de anos de namoro, receoso, foi pedir a mão da namorada. O futuro sogro ouviu. Hesitou. Por fim, acedeu. Mas doeu-lhe, doeu-lhe muito ver a filha maneta.

Augusto Baptista in "Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias"

Oração das 10:12 AM | | Comentários (0)

janeiro 02, 2006

Senhor Santo Cristo #1

santo cristo

Oração das 09:32 PM | | Comentários (1)

poesia #2

eugenio de andrade

Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

Oração das 05:52 PM | | Comentários (0)

da asneira #3

ccbelem

"Segundo dados fornecidos ao DN pela administração, o CCB terá este ano menos 1,5 milhões de euros para gerir. A asfixia financeira reflecte-se, há anos, na programação ."

....

Fonte: Diário de Notícias

Palavras para quê?

Oração das 10:41 AM | | Comentários (0)

janeiro 01, 2006

sem titulo

fuga nevoeiro


"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares no funeral da mãe, Sophia de Mello Breyner Andresen

Oração das 07:51 PM | | Comentários (0)

Agradecimento

Ao Zecatelhado pela distinção.

Oração das 12:08 PM | | Comentários (1)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #11


"Só o primeiro passo é que custa. Mas depois do primeiro passo dado, o segundo é o primeiro depois desse. É bom reparar nisto e não dar passo nenhum... Todos custam."

Fernando Pessoa

Oração das 11:08 AM | | Comentários (0)