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março 31, 2006

#54

Oração das 10:57 PM | | Comentários (1)

Dos Olhares - 10 fotos de Agnieszka Uziębło

Semanalmente vou tentar fazer um post especial sobre um fotógrafo nesta secção. Começo com a Agnieszka Uziębło que, simpaticamente, me enviou fotos para publicação.



Selfkiller



Must go



Express yourself



Don't wanna go









Lips




Oração das 01:26 PM | | Comentários (0)

Prevenção

cacador-luas.jpg

Seguem-no, como duas sombras: competentes, silenciosas. Sempre em alerta máximo, presenciam tudo, atentas a gesto sub-reptício, a olhar esquivo, a detalhe insuspeitado, minúcia irrelevante, palavra subentendida. O cliente paga-lhes a profissional segurança de nenhum pormenor deixarem escapar. Justo a pensar nos imprevisíveis incidentes do dia-a-dia, que, com frequência, exigem a legal comprovação de duas testemunhas.

Augusto Baptista in "O caçador de luas"

Ao Augusto Baptista o meu agradecimento.

Oração das 09:22 AM | | Comentários (0)

Retrato #41



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Oração das 09:17 AM | | Comentários (0)

Dos Olhares #15



Foto: Sascha Hüttenhain

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Oração das 09:15 AM | | Comentários (0)

março 30, 2006

No shopping...

Vou ao centro comercial ao fim de semana, forçado como sempre. Detesto centros comerciais, detesto a fauna que frequenta centros comerciais ao fim de semana.
Todas as Marias e os Manéis do país, acompanhados da respectiva prole, se deslocam para os novos templos do fim de semana. Mesmo sem dinheiro para mandar cantar um cego é para lá que vão. E olham, boca aberta, língua caída e baba a escorrer, para as montras onde, indiferentes, estão todas aquelas maravilhas que não podem nem nunca poderão comprar: os televisores lcd, as aparelhagens hi-fi, os vestidos lindos, os relógios de grandes marcas. Seguem então para o hiper abastecer-se com aquele mínimo de coisas que necessitam para manter a casa e, inevitavelmente, ainda se abarbatam com mais uma série de merdas que não necessitam mas que a promoção da semana torna indispensáveis – Ó Maria olha lá aquelas chaves de parafusos tão baratas. Vou comprar, estou mesmo a precisar delas, diz o Manel que já tem cinquenta iguais em casa e às quais quase não dá uso. A Maria diz-lhe precisamente isso, discutem, mas ele leva a dele avante. Ela por sua vez encontra os sapatos da sua vida a um preço imbatível e quer comprar e o Manel refila porque ela já tem uns vinte e não precisa de mais nenhuns. Mas a Maria leva a sua avante e compra. A prole, por seu lado, acabou de encontrar os últimos jogos para a PS2 e em grande berraria exige que os pais os comprem. Não têm sorte nenhuma e tudo o que ganham é um par de estaladas e a promessa de mais umas quantas se não se calarem. Na caixa quando estão a pagar a menina diz – desculpe, mas o saldo da sua conta não chega – e lá retiram alguns artigos essenciais das compras, as chaves de parafusos e os sapatos é que não, são mesmo necessários, para que o saldo do cartão Multibanco chegue. Saem do hiper completamente tesos, dão uma última vista às montras das lojas que ficam no caminho para a saída – ai aquele telemóvel Maria, aquilo sim era bom para mim, diz o Manel mirando guloso um Nokia topo de gama, o Manel que nem no dele, o mais básico, sabe usar metade das funções que aquilo tem – e, felizes por uma tarde bem passada, dirigem-se para o carro que compraram em suaves prestações que lhes reduziram o rendimento mensal a metade, arrumam as compras e seguem para casa num qualquer dormitório com a prole amuada no banco traseiro do veículo.
Entretanto eu sigo para o hiper, olho invejoso nas montras com artigos que não posso comprar…

Ognid

Oração das 08:00 PM | | Comentários (1)

Dos Olhares #14



Foto: Anulka

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Oração das 07:57 PM | | Comentários (0)

O tempo e a vida

Que bom ter o relógio adiantado!...
A gente assim, por saber
Que tem sempre tempo a mais,
Não se rala nem se apressa.
O meu sorriso de troça,
Amigos,
Quando vejo o meu relógio
Com três quartos de hora a mais!...
Tic-tac... Tic-tac...
(Lá pensa ele
Que é já o fim dos meus dias)
Tic-tac...
(Como eu rio, cá para dentro,
De esta coisa divertida:
Ele a julgar que é já o resto
E eu a saber que tenho sempre mais
Três quartos de hora de vida).

Sebastião da Gama

Oração das 03:00 PM | | Comentários (0)

#53

Oração das 02:57 PM | | Comentários (0)

Dos Olhares #13



Foto: Gradiator

Oração das 09:49 AM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #44

Não creio, no sentido filosófico do termo, na liberdade do homem. Todos agem não apenas sob um constrangimento exterior mas também de acordo com uma necessidade interior.

Albert Einstein

Oração das 09:44 AM | | Comentários (0)

março 29, 2006

Retrato #40

Oração das 08:19 PM | | Comentários (0)

Dos Olhares #12



Foto: Allan Jenkins

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Oração das 08:14 PM | | Comentários (0)

Passo a passo

A par e passo passo neste espaço
abrindo a largos golpes largos espaços
e passas nos meus passos passo a passo
repassas em abraços os meus braços.
A peso peso os passos quando piso
os traços com que traço e já trespasso
o passeio nos lenços que desfaço
em lassos laços quando passas
como um punhas perdido em plena praça
A todos e a cada um dos meus amigos

Joaquim Pessoa

Oração das 03:15 PM | | Comentários (2)

Retrato #39



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Oração das 03:11 PM | | Comentários (0)

Retrato

O fgs do Metarmofases dedicou-me esta maravilha de conto. Despassarado como sou só dei por isso ontem :( Aqui fica o meu agradecimento, o conto e uma imagem que não lhe faz justiça.

A fotografia que mais se destacava na exposição colectiva era o retrato de uma mulher com uma expressão amena e profunda no rosto. O nariz, bem delineado, fazia a ligação perfeita entre os olhos – dois poços negros, penetrantes de ternura – e os lábios subtilmente entreabertos ansiando uma gota de desejo que os humedecesse. Uma brisa fresca, que quase podia tocar-se, soprava-lhe os longos cabelos ruivos, mesclados de ocres e vermelhos corrosivos que irrompiam, impetuosos, em labaredas inusitadas na direcção do observador. Ao fundo, verdes tranquilos em dois terços de harmonia, delineavam-lhe o pescoço esguio e delicado.
Admiradores e colegas rodearam o fotógrafo, tentando extrair-lhe o segredo do irrepreensível equilíbrio de cores e formas de tão fantástica imagem, mas ele, esquivo, escudado na hábil timidez dos grandes artistas, nada respondeu.
Naquela mesma noite, pousou a estatueta do primeiro prémio sobre a cómoda, deitou-se ao lado da mulher retratada e desabafou:
– Todos pensaram em técnicas, edições, truques, eu sei lá… Mas o segredo, meu amor, o segredo é tão simples. Afinal, nada mais faço do que purificar com o filtro da alma a luz que me cega.
E, de olhos bem abertos, beijou-a.

fgs

Oração das 09:06 AM | | Comentários (0)

Dos Olhares #11



Foto: "Windy affair" de Der Marku S

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Oração das 08:58 AM | | Comentários (0)

março 28, 2006

Tango

Dança comigo uma dança latina.
Qualquer uma.
vermelha
quente
sensual.
Apenas nós numa pista de dança
madeiras velhas
candeeiros quebrados
ambiente vermelho
orquestra decrépita.
Deixa-me agarrar-te
guiar-te os passos
rodopiar contigo
dobrar-me sobre ti
suspender o tempo
quase beijar-te.
Recomeçar
e repetir
até que os nossos corpos
suados de desejo e de cansaço
rubros do esforço
nos obriguem a parar.

Ognid

Oração das 08:12 PM | | Comentários (1)

Dos Olhares #10



Foto: Paweł Dzik

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Oração das 08:06 PM | | Comentários (0)

Linhas #2



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Oração das 08:01 PM | | Comentários (0)

Cântico negro

"Vem por aqui" – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho os com olhos lassos,
(Há nos meus olhos ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: "Vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre nas vossas veias sangue velho dos avós.
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
– Sei que não vou por aí!

José Régio

Oração das 03:02 PM | | Comentários (0)

Dos Olhares #9



Foto: Gianni Candido

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Oração das 02:57 PM | | Comentários (0)

Espinhoso



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Oração das 02:53 PM | | Comentários (0)

Jardim Tropical de Lisboa #3

Oração das 10:34 AM | | Comentários (0)

Dos Olhares #8



Foto: "Flaming smile" de Zygmunt Kozimor

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Oração das 10:24 AM | | Comentários (0)

Arte digital #7



Imagem: "Cuotl city" de Dylan Cole

Oração das 10:20 AM | | Comentários (0)

março 27, 2006

Diecisiete haiku - DEZASSETE HAICAI



O Albino Matos do Rua das Pretas traduziu os Diecisiete haiku do Jorge Luis Borges que publiquei há uns dias. Com uma vénia aqui fica o excelente trabalho dele:

DEZASSETE HAICAI

1

Algo me disseram
a tarde e a montanha.
Já me passou.

2

A vasta noite
não é agora mais
que uma fragrância.

3

É ou não é
o sonho que olvidei
antes da alba?

4

Calam-se as cordas.
A música sabia
o que eu sinto.

5

Hoje não me alegra
a amendoeira do passal.
Lembra-me de ti.

6

Obscuramente,
livros, lâminas, chaves
seguem o meu fado.

7

Desde então
não mais mexi as peças
no tabuleiro.

8

No deserto
acontece a aurora.
Alguém o sabe.

9

A espada ociosa
sonha com as batalhas.
Meu sonho é outro.

10

O homem morreu.
A barba não sabe.
Crescem as unhas.

11

Esta é a mão
que às vezes passava
no teu cabelo.

12

Sob o beiral
o espelho copia
apenas a lua.

13

Com a lua
a sombra estendida
é uma só.

14

É um império
essa luz que se apaga
ou uma candeia?

15

A lua nova,
também ela a olha
de outro porto.

16

Trinado ao longe.
Mal sabe o rouxinol
que te consola.

17

A velha mão
vai traçando versos
para o esquecimento.


Jorge Luis Borges

(Trad. A. Matos)

Oração das 07:59 PM | | Comentários (0)

#52

Oração das 07:54 PM | | Comentários (0)

Dos Olhares #7



Foto: "Eros #1" de Gabriele Rigon

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Oração das 07:43 PM | | Comentários (0)

"Palavras de um avestruz todo gris"

Arrancam-me as penas
E eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.

E, se quisesse,
Podia
Morder-lhes as mãos morenas,
A esses que sem piedade
Me roubam estas penas que me cobrem;

E, no entanto,
Sem o mais breve gemido,
O meu corpo
Vai ficando
Desguarnecido...

E, elas,
Aquelas
Que se enfeitam, doidamente,
Com estas penas formosas
- Que são minhas!
Passam por mim, desdenhosas,
Em gargalhadas mesquinhas.

Sim; eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.

António Botto

Oração das 04:08 PM | | Comentários (0)

Edifício Anacom



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Cinzentas as nuvens, no reflexo do vidro...
Cinzenta tanta vez a vida, nos reflexos do olhar.

Da Maria Mamede

Oração das 03:55 PM | | Comentários (0)

Dos Olhares #6



Foto: Calvato

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De novo uma "escravatura" diferente
na roupagem, igual no sofrimento.

Da Maria Mamede

Oração das 03:43 PM | | Comentários (0)

Graffitis Lisboa #4



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Oração das 10:28 AM | | Comentários (0)

Dos Olhares #5



Foto: "Calmness of a soul" de Elena Vasilieva

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Calma dourada numa sala sem poentes...
Do olhar, no entanto, saiem chipas de aço!

Da Maria Mamede

Oração das 10:13 AM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #43

Decidi escrever este texto com o lápis muito afiado. Mas de cada vez que roubo palavras à grafite, esta torna-se mais densa e vejo-me obrigado a parar, sob pena de não conseguir o objectivo.
O lápis já de si, não é lá muito comprido. Na verdade já nem consigo segurá-lo muito bem entre os dedos. De duas em duas palavras vejo-me a interromper a escrita para o poder aguçar. A continuarmos assim pode muito bem dar-se o caso de dentro de muito poucas palavras, eu já não ter mais lápis pa

João Luís Barreto Guimarães in "Lugares Comuns"

Oração das 10:00 AM | | Comentários (0)

março 26, 2006

Santa Apolónia

Abraçam-se, completamente sós entre a imensidão de gente na estação de caminho de ferro. Abraçam-se com força, com desespero.
As cabeças encostadas, acariciando os cabelos como se com aquele gesto pudessem guardar nas mãos, a pele, o cheiro, o sabor dos corpos.
Olham-se, os olhos nos olhos húmidos de lágrimas contidas, sorriem-se um sorriso triste, quase de resignação, as mãos percorrem as faces, guardando nelas os contornos e a textura, como se tivessem vida própria as bocas juntam-se num beijo sôfrego de amor e desespero.
As pessoas passam e olham, umas com indiferença outras com um sorriso, outras ainda mostrando a sua desaprovação.
Alheios a tudo, sós no meio da multidão não conseguem separar as bocas, não conseguem controlar a imensa tristeza que os enche e transborda.
A chamada para o comboio fá-los parar o beijo. Olham-se de novo as lágrimas já incontroladas, as mãos agarram-se num gesto inútil e lentamente separam-se. Não trocam qualquer palavra, os gestos, os olhares são suficientes.
As lágrimas secaram.
João baixa-se, pega nas malas e começa a dirigir-se para a carruagem sem olhar para trás. Tudo foi já dito nos gestos, no abraço, no beijo, nos olhos. Entra, arruma as malas e senta-se no lugar sem olhar para a janela. O comboio apita e arranca.
Ao mesmo tempo Pedro alcançava, cabeça erguida, a saída da estação.

(a ouvir Orly, Jacques Brel)

Ognid

Oração das 07:49 PM | | Comentários (0)

#51



Contam da vida "enciclopédias", no vagar dos dias...
E lentamente, muito lentamente, correm para o fim!

Da Maria Mamede

Oração das 07:42 PM | | Comentários (0)

Dos Olhares #4



Foto: José Marafona

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No fim do tempo, estou à tua espera!...

Da Maria Mamede

Oração das 07:35 PM | | Comentários (0)

Self-service

Entre o desejo e o medo
de perdas irreparáveis,
a moralista e seu dedo
tornaram-se inseparáveis.

Vera Maya

Oração das 04:33 PM | | Comentários (0)

Retrato #38



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Oração das 04:17 PM | | Comentários (0)

Dos Olhares #3



Foto: "Can't hide" de Agnieszka Uziębło

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Oração das 04:03 PM | | Comentários (0)

março 25, 2006

Need for speed

Já tinham passado a improvisada linha de meta daquela "street racing" realizada a altas horas da madrugada numa rua da cidade. Um tinha perdido a corrida disputada quase sempre lado a lado com o seu adversário por escassos centímetros. Picado, colocou o carro atrás do outro concorrente, aliás um seu amigo, e não o deixou parar dando-lhe sucessivos toques na traseira do bólide. O amigo percebeu a intenção e acelerou. Seguiram a alta velocidade pelas ruas da cidade quase deserta. As descargas de adrenalina inibiram raciocionio e códigos, regras de trânsito ou de conduta. Ultrapassaram-se por diversas vezes, os carros tocaram-se perigosamente, realizaram manobras impossíveis para evitar acidentes. A confiança crescia à medida que as manobras eram bem sucedidas. À saída da cidade seguiram pelo primeiro desvio, entraram na auto-estrada em contra mão, a tensão no limite.
Pelo pensamento desfilavam imagens de filmes de Hollywood, de fugas em contra mão, da admiração dos amigos quando soubessem e o sentimento inebriante de virem a ser considerados heróis pela coragem, pela habilidade de condução.
Os ponteiros dos velocímetros estavam encostados no limite, conseguiram desviar-se dos carros que vinham em sentido contrário, a luz que os encadeava dos faróis nos máximos dos outros veículos no outro sentido, as fortes buzinadelas, não os incomodavam e não os desconcentravam do objectivo principal – chegar ao próximo desvio primeiro que o outro.
Não repararam sequer nos acidentes que aconteciam, atrás dos seus carros.
Entraram lado a lado na saída da auto-estrada, passaram ao mesmo tempo em sentido contrário pelas portagens, reduziram e travaram a fundo, no meio do guinchar dos pneus. Pararam.
Uma barreira policial tapava-lhes a saída poucos metros à frente, atrás, luzes azuis indicavam-lhes a chegada de mais polícias.
Carros lado a lado olharam um para o outro, afinal eram já heróis. Sorriram e com um aceno de cabeça cumprimentaram-se, aceleraram os carros a fundo largando novelos de fumo dos pneus que derrapavam no asfalto, arrancaram em simultâneo, ligaram o nitro, quando passaram pelas lagartas da barreira policial os pneus rebentaram mas continuaram a acelerar, apesar do descontrolo dos automóveis, apesar da chuva de balas proveniente dos disparos dos polícias...
Chocaram violentamente nos carros da barreira policial. A mistura do nitro e dos combustíveis especiais provocou a explosão imediata dos dois automóveis. Nos corpos desfeitos e carbonizados ninguém via já o sorriso de desprezo que ostentavam minutos antes.

(ao som de Born to be wild, Steppenwolf)

ognid

Oração das 07:52 PM | | Comentários (0)

Dos Olhares #2



Foto: Sergey Ryzhkov

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Oração das 07:20 PM | | Comentários (0)

Gente #8



Ver a continuação da série aqui no Catedral II


Às vezes, sozinha, converso contigo;
tenho a certeza que julgam que estou louca!,,,
Não sabem que te vejo!

Da Maria Mamede

Oração das 07:08 PM | | Comentários (0)

#50



Neste jardim de ciprestes onde tantos repousam, a única verdade da Vida!...

Da Maria Mamede

Oração das 11:00 AM | | Comentários (0)

Dos olhares #1



Foto: Boy on beach de Edward Dimsdale

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Oração das 10:47 AM | | Comentários (0)

Arte digital #6



Imagem: George Gre

Oração das 10:42 AM | | Comentários (0)

março 24, 2006

#49

Oração das 09:51 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #42

Os ataques da inveja são os únicos em que o agressor, se pudesse, preferia fazer o papel da vítima.

Niceto Zamora

Oração das 09:36 AM | | Comentários (1)

março 23, 2006

Porta rotativa

A porta era rotativa, bonita e antiga como o prédio, com caixilhos em madeira. Ela ia a entrar, apressada, para editar a reportagem que tinha acabado de realizar. Ele vinha a sair, apressado, para fazer uma entrevista a um político qualquer de terceira ou quarta linha. Ela tinha uma carreira feita no jornal, um nome conhecido e respeitado. Ele era um estagiário com vontade de subir e de ganhar nome. Ambos com pressa porque as notícias não esperam e a vida também não.
Ela tinha abdicado duma vida familiar normal para se dedicar por inteiro à carreira profissional. A sua vida amorosa resumia-se a encontros esporádicos, conhecimentos de uma qualquer reportagem e uma e outra saída ao bar que não durava mais que umas horas. As suficientes para satisfazer a fome de sexo. Ele, mais novo, saciava-se em noites de discoteca que acabavam, quase invariavelmente, a acordar na manhã seguinte numa casa estranha e sem saber bem quem era a mulher deitada ao seu lado.
Ela empurrou a porta rotativa num sentido para entrar. Ele empurrou no sentido contrário para sair. Ambos, concentrados no que os esperava, nem repararam um no outro e no que estavam a fazer. E pensaram que a porta estava, como sempre, emperrada. E forçaram mais. Em simultâneo. Sem resultados práticos. As forças anulavam-se. Também em simultâneo olharam para o lado. E viram-se. E olharam-se. Parados agora, sorriram. Ela voltou a empurrar a porta. Ele deixou, volteou com a porta e seguiu atrás dela. Sem trocarem uma palavra ou um olhar esperaram pelo elevador. Entraram.
E naquela hora estranha e naquele local improvável, elevador arte nova com espelhos nas paredes, parados entre o quinto e o sexto andar de um jornal cheio de gente apressada que desesperava subindo e descendo escadas, souberam que tinham acabado os anos de encontros casuais, de sexo descomprometido.
...
A notícia não saiu pela primeira vez na carreira dela, deixando o chefe de redacção em apuros, e o político de terceira ou quarta linha ficou sentado à espera do maldito jornalista que não apareceu e que, pensou, ia pagar pela afronta.

ognid

Oração das 07:42 PM | | Comentários (0)

Quando o amor morrer

Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobra as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonho que gelaram.

Ruy Cinatti

Oração das 02:52 PM | | Comentários (0)

Arte digital #5



Imagem: J. Sittinghere

Oração das 10:09 AM | | Comentários (0)

março 22, 2006

A meias

Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu ?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo
um cigarro e tu fumas do
meu cigarro dizes
"tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha" por isso
fumas do meu. Dá-te
gozo esse roubar
de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.

João Luís Barreto Guimarães

Oração das 07:25 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #41

Quando alguém compreende que é contrário à sua dignidade de homem obedecer a leis injustas, nenhuma tirania pode escravizá-lo.

Gandhi

Oração das 10:10 AM | | Comentários (0)

março 21, 2006

#48

Oração das 08:13 PM | | Comentários (0)

Dia mundial da poesia

Da criação. Do poeta

Ary pariria o poema:

Nasce nas veias o poema
E agiganta-se
Filho no ventre
Sangue que corre
Poema volume
Convulsão.
Poema
Sémen palavra
Corpo êxtase
Loucura
Parto
Construção.

Florbela suspiraria o poema:

Ai… Esta inquietude este desassossego
Que me faz pegar na pena.
Ai… Que penosos são os versos
E que penas, meu amor,
Penando te descrevo.
Ai… E assim penando permaneço
Na tristeza me aconchego
E no canapé, meu amor,
Quando a pena repouso
Desfaleço...

Pessoa questionaria o poema:

Se poesia é aquilo que sinto
Será poema aquilo que escrevo?
E o que esqueço
E o que omito
E se minto?
Se não fica tudo escrito
Será poesia o que sinto
Ou mera reflexão afinal?

Torga faria da Pátria poema:

Um poema nasce
Nos campos da minha Pátria.
Agreste é a paisagem
Forte o poema que cresce
Nos campos da minha Pátria.
Livre o poema ergue-se
E no céu sereno parte
...
Fica a Pátria!

Encandescente

Oração das 02:15 PM | | Comentários (0)

Telas #17



Botticelli - A Primavera, 1477/78

Oração das 10:23 AM | | Comentários (0)

março 20, 2006

Girândolas de fogo

Do céu escuro caem estrelas de metal fundido
Girândolas de fogo rodopiam no seu rasto
O ar queima
a terra estremece
levanta-se o vento
Sentimos o galopar dos cavaleiros
No ar que vibra com os cascos das montadas.
Acordo em pavor.
Olho pela janela para a rua.
À luz dos candeeiros estrelas os cavaleiros colhem as vítimas
Do apocalipse nosso do dia a dia.
Deito-me
abraço-te.
Amanhã é o mesmo dia
Com uma noite pelo meio.

ognid

Oração das 07:51 PM | | Comentários (1)

Arte digital #4



Imagem: J. Yerka

Oração das 10:10 AM | | Comentários (9)

março 19, 2006

Baile da couve

A menina dança, tem par ou descansa? Dizia-se isto nos bailes da “couve” que se realizavam nas sociedades culturais, nos salões dos bombeiros ou nas praças. Ora se a menina dançava, tudo bem, meio caminho andado para que os objectivos da noite fossem alcançados, leia-se acabar a noite enrolados com a dita menina com ou sem “finalmentes”. Se tinha par podia ser uma porra porque o dito cujo não achava graça e as coisas podiam descambar para sessões de lambada (não a dança, porrada mesmo). Se descansava ficava-se naquele impasse: a gaja está armada em parva ou já andou para aí às cambalhotas e está mesmo cansada? Havia que analisar bem a situação para decidir se se voltava ou não ao ataque. Ah, mas que noites do caraças! Decisões estratégicas difíceis, avanços, recuos, bofetada à descrição, enrolanços qb e chegada a casa sempre de cigarro ao canto da boca, assobiando o “I’m singing in the rain” ou sem assobiar de todo mas de olho negro e boca rebentada. Discotecas? Não brinquem comigo. Isto era bem mais divertido.

Oração das 08:02 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #40

A mais vil de todas as necessidades - a da confidência, a da confissão. É a necessidade da alma de ser exterior. Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos teus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos que digas, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.

Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego'

Oração das 11:03 AM | | Comentários (0)

março 18, 2006

#47

Oração das 07:40 PM | | Comentários (3)

Arte digital #3



Terrors and typhoons de Ree Treweek

Oração das 11:21 AM | | Comentários (0)

março 17, 2006

Arco-íris

Hoje tentei chegar ao fim do arco-íris. Acabava ali mesmo, naquela árvore tão perto de mim. Sabia que te encontrava lá. Andei, andei muito, mas o arco-íris quis manter-se distante. Esgotado, parei. Com o fim do arco-íris ali tão perto e tão inatingível.

Oração das 07:18 PM | | Comentários (0)

Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

Poema de Lobo Antunes. Canta Vitorino

Oração das 02:51 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #39

Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que nunca mostra a ninguém.

Mark Twain

Oração das 09:41 AM | | Comentários (0)

março 16, 2006

#46

Oração das 07:21 PM | | Comentários (1)

Diecisiete haiku

1

Algo me han dicho
la tarde y la montaña.
Ya lo he perdido.

2

La vasta noche
no es ahora otra cosa
que una fragancia.

3

¿Es o no es
el sueño que olvidé
antes del alba?

4

Callan las cuerdas.
La música sabía
lo que yo siento.

5

Hoy no me alegran
los almendros del huerto.
Son tu recuerdo.

6

Oscuramente
libros, láminas, llaves
siguen mi suerte.

7

Desde aquel día
no he movido las piezas
en el tablero.

8

En el desierto
acontece la aurora.
Alguien lo sabe.

9

La ociosa espada
sueña con sus batallas.
Otro es mi sueño.

10

El hombre ha muerto.
La barba no lo sabe.
Crecen las uñas.

11

Ésta es la mano
que alguna vez tocaba
tu cabellera.

12

Bajo el alero
el espejo no copia
más que la luna.

13

Bajo la luna
la sombra que se alarga
es una sola.

14

¿Es un imperio
esa luz que se apaga
o una luciérnaga?

15

La luna nueva
ella también la mira
desde otro puerto.

16

Lejos un trino.
El ruiseñor no sabe
que te consuela.

17

La vieja mano
sigue trazando versos
para el olvido.

Jorge Luis Borges

Oração das 02:22 PM | | Comentários (1)

Telas #16



Botticelli - O nascimento de Vénus, 1485-86

Oração das 10:58 AM | | Comentários (0)

março 15, 2006

#45

Oração das 07:52 PM | | Comentários (0)

Noites de cristal

Noites de cristal
Em que me deito
E só um delgado fio me segura
E me impede de cair nos teus braços
Senhora de negro.
Noites em que um simples ruído
Uma palavra a mais
Um sentir mais intenso
Uma luz que se acende e não devia
Podem quebrar o cristal de que sou feito.
Nessas noites fecho devagar
A porta do meu quarto
Corro persianas e cortinas
Não quero que entre luz
Não quero que entre som
No meu quarto
Em mim.
E imóvel, encostado, aterrorizado
Espero o fim dessas noites
Noites que em cristal me torno.

ognid

Oração das 02:30 PM | | Comentários (1)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #38

Em noites de tempestade, gosto de abrir a janela, sair. Quem me surpreender depois a vadiar num céu de relâmpagos, talvez julgue ver um anjo migrante, tresmalhado do bando. Um anjo a voar. Enquanto a saltar entre lianas de luz, eu, simplesmente Tarzan.

Augusto Baptista in Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias

Oração das 09:51 AM | | Comentários (0)

março 14, 2006

Conheço o sal...

Conheço o sal da tua pele seca
Depois que o estio se volveu inverno
De carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
Quando das bocas se estreitavam lábios
E o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
Os louros ou cinzentos que se enrolam
Neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
Como nas praias o perfume fica
Quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
Da tua língua, o sal de teus mamilos,
E o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
Ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
Um cristalino pó de amantes enlaçados.

Jorge de Sena

Oração das 09:34 PM | | Comentários (0)

Arte digital #2



Master and servant de Linda Bergkvist

Oração das 09:36 AM | | Comentários (0)

março 13, 2006

#44

Oração das 08:43 PM | | Comentários (0)

Os cinco sentidos

São belas - bem o sei, essas estrelas
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho amor, olho para elas;
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!

Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti - a ti!

Respira - n'aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti - de ti!

Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos,
E só de ti - de ti!

Macia - deve a relva luzidia
Do leito - se por certo em que me deito;
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti - em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

Almeida Garrett in Folhas Caídas

Oração das 02:25 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #37

No princípio da manhã. Início de um ano novo. Dobro os óculos sobre a mesa, as lentes voltadas para cima.
Toda a vez as pouso assim. Gosto de ter um olhar sempre a cuidar de mim.

João Luís Barreto Guimarães in Lugares Comuns

Oração das 09:19 AM | | Comentários (0)

março 12, 2006

#43



Passaram 30 anos. A saudade é a mesma.

Oração das 07:33 PM

março 11, 2006

#42

Oração das 08:01 PM | | Comentários (0)

Memórias - 11 de Março de 1975









Há muitas mais quer do 11 de Março, quer do 25 de Abril, 1º de Maio, etc. Tenho vindo a redescobri-las â medida que digitalizo os negativos desses tempos. Estas nem sequer são das mais interessantes mas achei que valia a pena publicar. Irão aparecendo à medida que tenha tempo para prosseguir o trabalho da digitalização.

Oração das 11:49 AM | | Comentários (1)

março 10, 2006

#41

Oração das 08:16 PM | | Comentários (0)

Poesia #29

Jorge Luis Borges

Ausencia

Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.

Jorge Luis Borges

Oração das 03:22 PM | | Comentários (0)

Na esplanada

Gaja interessante, pensou, olhando para a mesa um pouco à frente da dele e onde se sentava um pequeno grupo vindo duma excursão que por ali tinha parado. Estava, como habitualmente, a beber o café e a respectiva água, a seguir ao almoço, enquanto todos os amigos naquela terra ao sul, escaldante em Agosto, aproveitavam para dormir a sesta. Não era capaz de o fazer e por isso passava todos os dias umas horas naquela esplanada esperando por eles. Voltou a olhar para ela e nessa segunda vez ela devolveu o olhar. Porra a tipa já deu por isso, pensou, desviando o olhar, meio envergonhado. Não era propriamente um exemplo de engatatão. Não durou muito tempo a vergonha porque os olhos pareciam ter ganho vida própria e insistiam em fixar-se na rapariga. Pelos vistos o mesmo tinha acontecido aos dela porque também não deixavam de o fixar. Não ficou com a noção do tempo que durou esta troca de olhares, de meios sorrisos, de convites implícitos, de sexo imaginado. Finalmente ela levantou-se, lançou-lhe um olhar convidativo, e ele, ardente e não só por causa do calor, fez o mesmo seguindo-a para o local onde ela se dirigia - um banco do jardim afastado das mesas onde a esperava, sorridente, o namorado que ela de imediato abraçou e beijou.

Ognid

Oração das 10:10 AM | | Comentários (0)

março 09, 2006

#40

Oração das 07:34 PM | | Comentários (0)

Linguagem Seinfeld #2

As pessoas adoram recomendar-nos o médico deles. Não sei o que ganham com isso, mas gostam imenso de no-lo impingir.

- É bom?
- É o melhor. O meu médico é o melhor.

Não pode haver assim tantos «melhores». Tem de haver alguém que tem as piores notas. Onde estão esses médicos? Haverá alguém algures a dizer a um amigo: «Devias ver o meu médico. É do pior. É o pior que pode haver. Tenhas o que tiveres, ficas pior depois de seres visto por ele. O homem é um autêntico carniceiro.»

E sempre que um amigo nos aconselha um médico diz: «Não te esqueças de lhe dizeres que vais da minha parte.» Porquê? Que diferença faz? Ele é médico.

«Ah, você conhece o Bob? Então, está bem. Vou ser um médico como deve ser. Para as outras pessoas costumo ser mais a despachar.»

Jerry Seinfeld in Linguagem Seinfeld

Oração das 03:40 PM | | Comentários (0)

Dia de festa :(



Pois festejemos então :(((

Oração das 09:24 AM | | Comentários (0)

março 08, 2006

Melting

Oração das 08:00 PM | | Comentários (0)

Telas #15



M. C. Escher - Waterfall, 1961

Oração das 10:20 AM | | Comentários (1)

março 07, 2006

Tarde de Outono

Há tardes de Outono, límpidas como esta,
de silhuetas definidas claramente,
em que o sol se concentra em cada coisa
e cada coisa lhe responde claramente.

Pois no Verão, de tanta luz o ar vacila,
pérolas brancas deslizam no olhar
e o revérbero da luz torna indistinto
o percurso desinquieto do olhar.

Num jardim, de luz e jogos de água,
quatro velhos batem cartas sobre a mesa,
talvez a morte não chegue nessa tarde,
se baterem forte as cartas sobre a mesa.

Já os cisnes escondem o bico na plumagem,
e os velhos batem cartas, contra a morte,
lembram estórias de vidas longas e inúteis,
e mesmo assim, esperam calmos, pela morte.

Cai o dia, guardam as cartas na algibeira,
esvai-se a luz, finda a conversa, naturalmente,
gastou-se o jogo e a companhia, esgotou-se o dia,
esperam a morte, um destes dias, naturalmente...

Manuel Filipe

Poema lido, brilhantemente, pelo José Fanha no encontro Poesia nos blogs

Oração das 07:25 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #36

Tem a vida na perna, naquela chaga funda: chamariz de moscas, tulha de vermes à babugem do pus. Imagem de vómito.

Com o tempo preparou-se para o pior. Mas as últimas evoluções deixam-no alarmado. Olha, vira a cara, cismático. Talvez o caso seja menos grave, tenta iludir-se. Mas toda a gente, cruel, lhe confirma o pesadelo. De resto, a pústula está lá. Calamidade evidente.

Uma esmolinha, minha santa... E as moedas, agoniadas, chovem na boina, rasantes à ferida. Tão perto do fim. Tão angustiosamente em risco de se transformar numa vulgar cicatriz.

Augusto Baptista in Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias, Campo das Letras, 2000

Oração das 10:05 AM | | Comentários (0)

março 05, 2006

Poesia nos blogs - Encontro



O Jorge Castro, nosso anfitrião, e o proprietário da Quinta da Ribeirinha onde se realizou o encontro




O José Fanha a quem coube a "árdua tarefa" de dizer, bem, muitos poemas




O Fernando Cidadão outro dos "dezedores" de serviço.




De novo o Jorge Castro




José Fanha




A Júlia Coutinho começou a abastecer-se logo de princípio :)




e houve quem não lhe quisesse ficar atrás.







e que depois resolvesse dar-nos música...




O Zeca não se quis ficar e lá foi dando uns toques




O Bulhão Pato foi um dos responsáveis pelo sucesso do encontro




Houve quem estivesse descontente com o flash da sua máquina...




Paula Raposo




João Firmino




A Betty




A Lourdes que foi pondo o Jorge na ordem para as coisas sairem bem ;)




A Lique




O Gonçalo Nuno Martins




A Fata Morgana




O Morfeu




A Tmara




O Jorge Morais




A Sandra Feliciano




E daqui para baixo não deu para fixar os nomes e os blogs. Quem quiser que me deixe aí nos comentários o nome e o blog por favor.


~











A Raquel




Esta é uma série das primeiras imagens do encontro. As outras sairão em tempo no Catedral II e no Sete Mares. Quem quiser receber algumas fotos por e-mail agradeço que me informe para dionisio.leitao[at]gmail.com.

Oração das 07:53 PM | | Comentários (0)

março 04, 2006

Arte digital #1



Imagem daqui

Oração das 11:41 AM | | Comentários (0)

março 03, 2006

#39




Oração das 07:56 PM | | Comentários (0)

Da revista Vértice #7

Hélia Correia

Ouço o incêndio, as fábricas. O berço
do suor interrupto. Ouço às vezes quem se ama
onde o amor não há - apenas morre
no clandestino abrir.
Ouço às vezes quem rompe os mapas cerce
e então na noite recupera as loucas
emigrações da história. Ouço crescendo
lentamente os filhos no rancor e na linfa.
Astuciosamente recolhendo as vastidões adversas.
Ouço em momentos fartos o entulho,
desdobrada a raiz, fundar o mês da heresia,
a sábia recriação do sumo.
Ouço o arado, a luz. Profundamente
os barcos segregados na propensão do mar.
Ainda quem a medo desagregue
a centenária paz:
- os homens,
onde os ouço, aqui recordo
as origens compradas do terror.
Os homens, onde os ouço, aqui confirmo
suas mãos.

Hélia Correia in Vértice nº 399, Junho de 1971

Oração das 02:50 PM | | Comentários (0)

aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #35

A tristeza é um livro sábio que se tem no coração e que nos diz centenas de coisas - impede-nos de apodrecer como um cogumelo debaixo de uma árvore; pouco a pouco vai fabricando uma provisão de ensinamentos para a vida.

Juliusz Slowacki

Oração das 09:50 AM | | Comentários (2)

março 02, 2006

#38

Oração das 07:43 PM | | Comentários (2)

poesia #28

Mário de Sá-Carneiro

Escavação

Numa ânsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...

Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez de fogo...
-Onde existo que não existo em mim?

....................................................
....................................................

Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d'amor sem bocas esmagadas -
Tudo outro espasmo que principio ou fim...

Mário de Sá-Carneiro

Oração das 02:48 PM | | Comentários (2)

março 01, 2006

Um dia

ensaio1.jpg

Um dia acordarei e não direi o teu nome
Não te procurarei
Em todos os rostos que passam
As minhas mãos esquecerão as tuas
E o teu cheiro não será o meu.
Um dia esquecer-te-ei
Abrirei o peito
E arrancar-te-ei de dentro
Esfregarei o corpo
Maltratá-lo-ei
Até não restar um sinal teu.
Um dia adormecerei
E dormirei sozinha
Sem o teu rosto nos olhos
E o teu corpo nas mãos.
Um dia…
Esquecer-te-ei
Esquecer-me-ei
Um dia
Deixarei de ser eu.

Poema da Encandescente

Oração das 08:00 PM | | Comentários (0)

PARABÉNS LIQUE!!!!

PARABÉNS!!!!

Pois é. Pensavas que eu me ia esquecer não? Bem que ficaste caladinha... Mas não te serviu de nada. Depois de quase 50 anos a aturar-te era o que faltava. Aqui está a minha prenda para ti. Espero que gostes. Se não, olha, processa-me por divulgação de imagem não autorizada. Fiz só uma pequena operação plástica (devias pagar-me por isso, na clínica custava-te uma pipa de massa) porque não é impunemente que se fazem ... anos 8-).

Parabéns Alice!

Cá fico à espera da tua vingança... o que vale é que faltam uns meses.

Pessoal, bora lá dar os parabéns à Lique a Mulher dos 50 aos 60!

Oração das 12:01 AM | | Comentários (3)