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julho 31, 2006
Fugas inúteis
Ensopa
Enregela
Tolhe movimentos.
Arrasta na sua fúria
Restos de calor
Momentos de calma
Vestígios de felicidade.
Corroídos
Rasgados
Doridos
Procuramos refugio
Em abrigos que não existem.
É inútil a fuga
Vamo-nos partindo
Desfazendo
Cada dia mais um pouco.
O futuro acaba ali.
Já.
Dionisio Leitão
Oração das 05:50 PM | | Comentários (1)
Equinócio
No horizonte enegrecido do poente
sopra o hálito morno do equinócio...
Sentado, algures num cais,
(algures em mim)
ao fim da tarde,
vejo desfilar com a maré
os despojos iníquos da cidade.
Odores de algas podres
peixe seco,
tédio antigo,
desfilam com a maré.
O indecifrável,
o que já está,
o que não é,
o que será,
desfilam com a maré.
Guindastes-sentinelas,
perfilam-se em contra luz à beira-rio.
Horas tensas, barco que ainda não partiu,
esperanças vagas, enfunadas como velas...
Oração das 12:12 PM | | Comentários (0)
julho 30, 2006
Agradecimento
Ao Expresso e à Rita Ferro Rodrigues pelo destaque dado ao Catedral na edição deste fim de semana. Também aos alentejanos mais simpáticos e amigos, a Mad e o Nikonman, por me terem dado a novidade.
Oração das 09:47 PM | | Comentários (0)
julho 29, 2006
Carta aos mortos
Amigos, nada mudou
em essência.
Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há récordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.
Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.
Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.
Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.
Nada mudou em essência.
Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração , insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.
Affonso Romano de Sant’Anna
Oração das 01:18 PM | | Comentários (0)
julho 28, 2006
Mar e lua
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar
Chico Buarque
Oração das 11:25 AM | | Comentários (0)
julho 27, 2006
A propósito da guerra no Médio Oriente
Realizaram-se ontem em Lisboa e no Porto concentrações em defesa da paz no Médio Oriente. Não me foi possível estar presente por motivos profissionais mas enviaram-me fotos da manifestação em Lisboa. Na minha opinião pessoal aquilo que se passa quer na Palestina quer no Líbano, principalmente se tiver em conta a desproporção da resposta israelita, não é mais do que uma estratégia combinada americana e israelita com objectivos claros - a Síria e o Irão. Pelo caminho ficam os já mais que massacrados povos da Palestina e do Líbano. Baixas colaterais e de pouca importância para americanos e israelitas. Perante a passividade geral. Chocou-me profundamente ver aqui no Movimentum imagens de crianças israelitas a inscrever nas bombas que depois irão matar as crianças libanesas mensagens de Paz e Amor... Por isso aqui ficam algumas fotos da concentração de ontem em Lisboa bem como um poema de Brecht, que o Zé Gomes publicou (um obrigado para ele) para tentar espevitar um pouco as consciências tão leves que por aí andam.



Primeiro levaram os negros...
Mas não me importei com isso
Eu não era negro.
Em seguida levaram alguns operários...
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário.
Depois prenderam os miseráveis...
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados...
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei.
Agora estão a levar-me...
Mas já é tarde!
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Bertold Brecht
Oração das 06:12 PM | | Comentários (0)
Actualização da página
A página foi actualizada com fotografias tiradas no passado dia 21 no Bar - Café do Mercado da Ribeira. Aliás a partir de agora apareçam por lá às quintas, sextas e sábados. Podem jantar no restaurante, que é excelente, beber um copo e ouvir boa música no Bar - Café. Como eu ando por lá também, tiro-vos umas fotos ;)
Oração das 11:39 AM | | Comentários (0)
Confidência
Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça
Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno
Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos
No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome
Mia Couto
Oração das 10:40 AM | | Comentários (0)
julho 26, 2006
O guitarrista

Oração das 08:14 PM | | Comentários (0)
A vida deve ser bebida
Estou
E num breve instante
Sinto tudo
Sinto-me tudo
Deito-me no meu corpo
E despeço-me de mim
Para me encontrar
No próximo olhar
ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão
nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira
A vida (ensinaram-me assim)
Deve ser bebida
Mia Couto
Oração das 10:58 AM | | Comentários (0)
julho 25, 2006
Do retrato #8

Oração das 05:15 PM | | Comentários (0)
Actualização da página
Página actualizada com fotografias do espectáculo da Daniela Mercury e na categoria de Retrato.
Oração das 12:26 PM | | Comentários (0)
Dias meus
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.
(...)
Alberto Caeiro
Ao som de Samuel Barber - Adagio for Strings
Oração das 10:56 AM | | Comentários (0)
julho 24, 2006
Daniela Mercury



Oração das 11:17 PM | | Comentários (0)
Ninguém me habita
Ninguém me habita. A não ser
o milagre da matéria
que me faz capaz de amor,
e o mistério da memória
que urde o tempo em meus neurônios,
para que eu, vivendo agora,
possa me rever no outrora.
Ninguém me habita. Sozinho
resvalo pelos declives
onde me esperam, me chamam
(meu ser me diz se as atendo)
feiúras que me fascinam,
belezas que me endoidecem.
Thiago de Mello
Oração das 10:08 AM | | Comentários (0)
julho 23, 2006
Tall Ships Lisboa 2006




Oração das 09:23 PM | | Comentários (0)
Sem titulo
sempre temos alguma coisa a aprender uns dos outros
posso começar? o vento está sempre ao serviço de
deus e morrer hoje em dia já não é tão mau como isso.
é verão. creio que está calor: gostamos de ficar assim
conversando à porta do número catorze acerca dos
mil e um truques das mulheres (muito haveria a dizer
dos truques das mulheres) da velocidade das chuvas
da nomenclatura do amor (cheiros que o tabaco
traz: imagens infidelidades as intenções) tudo. há
quem diga: em agosto o canto dos lábios fica mais
solto (diz-se: perde-se em falas facilmente) mas
por aqui não há já quem acredite em ilhas desertas.
um dia passa chega outro depois outro e sempre temos
alguma coisa a saber uns dos outros: alguma coisa
João Luís Barreto Guimarães in "Há Violinos na Tribo"
Oração das 10:39 AM | | Comentários (0)
julho 22, 2006
Do retrato #7


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Oração das 08:44 PM | | Comentários (2)
Presídio
Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?
E o ventre, inconscientemente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
Vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!
David Mourão-Ferreira
Oração das 01:00 PM | | Comentários (0)
julho 21, 2006
Amanhã
Não me digam que espere, eu quero já.
Cedo era ontem, amanhã é tarde.
Capitão de navios que já não há,
não vou deixar que o tempo me deserde.
Portanto, agora!
Hoje é que eu sou no gume da navalha.
Todo o minuto de outra hora
é a margem-viagem que me falha.
Já é que eu sou – e não me peçam nada
para amanhã, que é tarde.
Larguei todo o meu pano à madrugada,
não vou deixar que o tempo me deserde.
Torquato da Luz
Oração das 11:12 AM | | Comentários (0)
julho 20, 2006
Lisboa e Tejo e tudo #1


Oração das 07:57 PM | | Comentários (0)
Carpe Diem
Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio --- nem esse olhar
que me oforece o leito profundo da sua imagem!"
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.
Nuno Júdice
Oração das 11:24 AM | | Comentários (0)
julho 19, 2006
Soneto XLVI
De las estrellas que admiré, mojadas
por ríos y rocíos diferentes,
yo no escogí sino la que yo amaba
y desde entonces duermo con la noche.
De la ola, una ola y otra ola,
verde mar, verde frío, rama verde,
yo no escogí sino una sola ola:
la ola indivisible de tu cuerpo.
Todas las gotas, todas las raíces,
todos los hilos de la luz vinieron,
me vinieron a ver tarde o temprano.
Yo quise para mí tu cabellera.
Y de todos los dones de mi patria
sólo escogí tu corazón salvaje.
Pablo Neruda
Oração das 10:50 AM | | Comentários (0)
julho 18, 2006
A poesia nos blogs

Ora aí está, prontinho, fresquinho, acabado de sair, o nosso livro feito com base nos poemas enviados para o encontro "Poesia nos blogs" realizado na Quinta da Ribeirinha em Santarém. A capa é do Alexandre, filho do Jorge Castro, os poemas são de todos nós que participámos e, eheheh modéstia à parte, as fotos são minhas. A edição é da Apenas Livros e temos de agradecer à Fernanda Frazão a decisiva colaboração e empenho no projecto bem como ao Jorge Castro por todo o trabalho que teve. No dia 29, no mesmo local, lá estaremos então para o lançamento sem pompa nem circunstância. Resta dizer que, na minha modesta opinião, este livro é um marco por dar a oportunidade a tanta gente que aqui, nos blogs, se esforça por mostrar aquilo que escreve.
Os livros estarão disponíveis a partir do dia 29 e as encomendas poderão ser feitas para a Apenas Livros ou a cada um dos participantes no projecto cuja lista se encontra no Sete Mares.
Oração das 08:30 PM | | Comentários (0)
Que é voar?
Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo,os pés?
Isso é que é voar?
Não.
Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre,leve,independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não -vivência
E isso é voar?
Não.
Voar é humano
é transitório , momentâneo...
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.
Ana Hatherly
Oração das 12:28 PM | | Comentários (1)
Do retrato #6 - Luangraal



Oração das 01:08 AM | | Comentários (0)
julho 17, 2006
Parto sem dor
E agora eu vou-me embora
e embora a dor
não queira ir já embora
agora eu vou-me embora
e parto sem dor
E parto dentro de momentos
apesar de haver momentos
em que dentro a dor
não parte sem dor
Sérgio Godinho
Oração das 11:15 AM | | Comentários (0)
julho 16, 2006
Noite africana #2 - Stella Chiweshe (Zimbabwe)



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Oração das 07:21 PM | | Comentários (0)
Impressão digital
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros com outros olhos,
Não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
Uns outros descobrem cores
Do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros, gnomos e fadas
Num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
António Gedeão
Oração das 11:25 AM | | Comentários (0)
julho 15, 2006
Do retrato #5 - Jordan



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Oração das 11:05 PM | | Comentários (0)
Hoje
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?
Ferreira Gullar
Oração das 11:32 AM | | Comentários (0)
julho 14, 2006
Epitáfio
Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu luz ao dia
E apascentou a tarde
O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.
Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que
Possuiu a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar.
Vinicius de Moraes
Oração das 10:28 AM | | Comentários (0)
julho 13, 2006
Do retrato #4 - Francisco Fanhais



O Francisco Fanhais (Padre Fanhais quando o comecei a ouvir antes do 25 de Abril) é outra das minhas grandes referências desde a adolescência. Como cantor, como resistente, como homem de princípios. Aqui lhe deixo uma pequena homenagem e um obrigado por me ter permitido tirar estas fotos.
Oração das 06:57 PM | | Comentários (4)
Levar-te à boca
Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
Eugénio de Andrade
Oração das 10:58 AM | | Comentários (0)
julho 12, 2006
Do retrato #3



Oração das 09:49 PM | | Comentários (0)
Confluência
Ter-te amado, a fantasia exata se cumprindo
sem distância.
Ter-te amado convertendo em mel
o que era ânsia.
Ter-te amado a boca, o tato, o cheiro:
intumescente encontro de reentrâncias.
Ter-te amado
fez-me sentir:
no corpo teu, o meu desejo
– é ancorada errância.
Affonso Romano de Sant'Anna
Oração das 11:33 AM | | Comentários (1)
julho 11, 2006
Cadências

Amo-te por vezes
Em ritmo de blues
Numa cadência que embala
Com a suavidade que têm
B. B. King ou Gary Moore.
E o amor é calmo e lânguido
E o teu corpo uma guitarra
Que dedilho em gestos lentos.
Outras vezes amo-te
Com a raiva e o lado selvagem
Do rock de George Thorogood
Cantando "Bad to the Bone"
E o amor é fome insaciável
Impulso animal, predador
E o teu corpo alimento
Que procuro para o meu.
Mas quando por fim
O cansaço nos invade
E repouso nos teus braços
Amo-te em sons de Metallica
Sussurrando “Nothing else matters”
Enquanto o amor for assim.
Oração das 11:40 AM | | Comentários (0)
julho 10, 2006
Noite africana #1








Oração das 10:36 PM | | Comentários (0)
aforismos, desaforismos, lugares comuns e outras histórias #68
Antes que a ideia de Deus esmagasse os homens, antes dos autos de fé, das perseguições religiosas da Inquisição e do fundamentalismo islâmico, o Mediterrâneo inventou a arte de viver. Os homens viviam livres dos castigos de Deus e das ameaças dos Profetas: na barca da morte até à outra vida, como acreditavam os egípcios. E os deuses eram, em vida dos homens, apenas a celebração de cada coisa: a caça, a pesca, o vinho, a agricultura, o amor. Os deuses encarnavam a festa e a alegria da vida e não o terror da morte.
Antes da queda de Granada, antes das fogueiras da Inquisição, antes dos massacres da Argélia, o Mediterrâneo ergueu uma civilização fundada na celebração da vida, na beleza de todas as coisas e na tolerância dos que sabem que, seja qual for o Deus que reclame a nossa vida morta, o resto é nosso e pertence-nos – por uma única, breve e intensa passagem. É a isso que chamamos liberdade – a grande herança do mundo do Mediterrâneo.
(...) Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
Miguel Sousa Tavares, in "Não Te Deixarei Morrer, David Crockett "
Via O Citador
Oração das 11:24 AM | | Comentários (0)
julho 09, 2006
Poema de amor
Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que ele não
te coubesse no dedo.
Jorge de Sousa Braga
Oração das 12:16 PM | | Comentários (1)
julho 08, 2006
E quando...?

E quando nada mais faz sentido mas simultâneamente tudo começa a fazer sentido? E quando tudo o que foi deixou de ser mas o futuro começa a nascer? E quando a dor a tristeza a consciência pesam tanto que mal nos conseguimos mexer e ao mesmo tempo a esperança e a alegria começam a espreitar? E quando tantos sentimentos contraditórios se encontram dentro de nós que já não sabemos o que é certo ou o que é errado e todas as nossas certezas (certezas tão definitivas que temos...) desaparecem para dar lugar a um mar de dúvidas onde vogamos ao sabor de ventos que não controlamos e não temos modo de parar para pensar ou analisar ou o que for e a cada momento tudo fica mais confuso e o barco da nossa vida sobe e desce vagas e rodopia e nós... nós vomitamos, vomitamos tudo aquilo que temos cá dentro e até aquilo que não está mas estará e a náusea instala-se permanente insistente mas ali ainda antes do horizonte há luz e mar calmo e certezas aparentes onde sabemos que o futuro pode estar aquele que queremos aquele que sempre quisemos e nunca alcançámos? Que fazemos nessas alturas em que a casa vem abaixo e simultâneamente estamos a começar outra nova diferente mas a saudade da casa antiga nos bate abate e nós nos debatemos para continuar a construir a nova porque sabemos que ela poderá vir a ser o abrigo o lar que sempre quisemos? Que fazer quando a tempestade das contradições se abate sobre nós?
Oração das 07:43 PM | | Comentários (0)
O louco do espelho
Não conheço aquele homem infeliz,
Que me imita em movimentos afinados.
Mantém-se calado... Nada me diz,
Fita-me de olhos firmes mas cansados.
Encontro-o pela manhã, todos os dias!
Entra em minha casa silenciosamente,
Pergunto "Quem és? Por que me copias?"
Emudece! Olha-me e ignora-me de frente.
Será que as lágrimas lhe sufocaram a fala?
Tem aspecto esgrouviado, olhar vermelho,
Que amarguras serão aquelas que cala
O homem estranho que aparece no espelho?
Um dia, escorria sangue do meu rosto.
Encontrei-o. O sangue escorria-lhe também!
Cerrei as mãos, esmurrei-o com gosto,
Desfi-lo em cacos... tornou-se ninguém!
Oração das 11:52 AM | | Comentários (0)
julho 07, 2006
Da ausência
Esta noite poderia escrever-te os versos mais tristes
como Pablo Neruda
ou dizer-te da minha recorrente vontade de ir a Samarcanda
como Bernardo Soares
diversa apenas a vontade de ir a Samarcanda
porque a tua presença me seria imprescindível
eu que nem mesmo sei que língua falam hoje em Samarcanda
ou o que por lá estará hoje acontecendo
Porque a tua ausência te cala em mim
poderia mesmo escrever-te uma carta de amar
que gritasse dentro de mim a tua ausência
e que no voo tangente das palavras
todos achariam ridícula
só eu não
- e daí quem sabe? -
Poderia imaginar-te silhueta
por entre silhuetas de pinheiros
feita de bilros e devaneios da Lua Cheia
derramando-se de luz ao longo de todo o mar
até tropeçar com o areal
e a terra toda
até envolver todos os amantes
que à beira-mar se consumam
como se o tempo se lhes acabasse ali como a terra
ou apenas se desesperam no amor
como se amassem apenas porque se procuram
quando o areal barra a luz fluida vertida pela Lua
poderia dançar contigo um tango argentino
conduzir-te na volúpia dessa dança
que
conforme dizem
ao homem compete conduzir
apenas para
e por uma vez só
te conduzir
eu de negro
Gardel
Terrível e alucinado
e tu
o teu vestido vermelho
rasgado com uma faca de seda
ambos efémeros, diáfanos e amantes
... se eu soubesse dançar
Ah, se eu soubesse dançar!
Poderia até tentar dizer-te um poema
que me impressionasse
apenas por te impressionar
um poema que falasse de Neruda
de Bernardo Soares
e de silhuetas diluídas nos pinheiros
mas que tivesse um lugar íntimo
para as estrelas de outros céus imaginados
luas
amores
e areais de vento
um lugar que nos enleasse no ritmo das marés
e seríamos românticos e dramáticos personagens de Pratt
solitários navegantes numa paixão de quimeras
Maltese com um brinco a preto e branco
vendo o Sol poente enfunando as nossas velas
com cores de luz que o Sol traz do mundo todo
E é por isso
que aqui estou
perto de ti
tenho as mãos quase cheias de nada para te dar
mas tenho um mar que não é meu
e um poema
sinto a Lua que nos foge entre os pinheiros
sinto ânsias de enleio em doce tango argentino
e hei-de sentir-te junto a mim em Samarcanda
Oração das 11:04 AM | | Comentários (0)
julho 06, 2006
Eu sei, não te conheço, mas existes ...
Eu sei, não te conheço mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.
Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.
Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
Porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto.
Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo.
Joaquim Pessoa
Oração das 10:54 AM | | Comentários (0)
julho 05, 2006
Do retrato #2



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Oração das 05:54 PM | | Comentários (0)
Nada que seja...
Nada que seja iluminado nesta noite,
ilha remota, no esplendor do oceano,
nem o teu corpo alcantilado, sob as estrelas,
me tornará no mais ditoso ser humano.
Nem o teu rosto, imponderável, nas estrelas,
nem o terror, imprevisível, do engano,
nada que seja iluminado, nesta noite,
me tirará a condição de ser humano.
Nem o teu corpo, iluminado, nesta noite,
na profundeza alcantilada, do oceano,
nem o vento transviado, o seu açoite,
extinguirá este terror de ser humano.
Oração das 10:22 AM | | Comentários (0)
julho 03, 2006
Lançamento do livro do Gonçalo Nuno Martins #2
Com um atraso indesculpável publiquei hoje na página as fotos do lançamento do livro do Gonçalo Nuno Martins, "Nada em 53 vezes" da Papiro editora, e deixo-lhe aqui os parabéns porque ao que sei está no Top 15 de vendas da FNAC de Cascais.



Oração das 11:26 PM | | Comentários (1)
Cesária Évora na Torre de Belém




Oração das 10:58 AM | | Comentários (1)
julho 02, 2006
Erva de Cheiro
Os Erva de Cheiro são um grupo que canta música portuguesa. Os arranjos que fazem de músicas de autores como Zeca Afonso, Fausto, Vitorino, etc, conferem-lhes uma nova animação. As fotos que hoje publico foram feitas durante um espectáculo em Alcântara. Outras que tirei na passada sexta feira no Espaço da Ribeira (vejam aqui a programação porque vale a pena) sairão daqui a uns dias aqui no blog e principalmente na minha página onde já estão mais algumas.









Oração das 06:08 PM | | Comentários (1)
Do retrato #1






Oração das 08:11 AM | | Comentários (0)