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setembro 29, 2006
Oda a Federico Garcia Lorca
si pudiera sacarme los ojos y comermelos,
lo haria por tu voz de naranjo enlutado
y por tu poesia que sale dando gritos.
Porque por ti pintan de azul los hospitales
y crecen las escuelas y los barrios maritimos,
y se pueblan de plumas los angeles heridos,
y se cubren de escamas los pescados nupciales,
y van volando al cielo los erizos:
por ti las sastrerias con sus negras membranas
se llenan de cucharas y de sangre
y tragan cintas rotas, y se matan a besos,
y se visten de blanco.
Cuando vuelas vestido de durazno,
cuando ries con risa de arroz huracanado,
cuando para cantar sacudes
las arterias y los dientes,
la garganta y los dedos,
me moriria por lo dulce que eres,
me moriria por los lagos rojos
en donde en medio del otono vives
con un corcel caido y un dios ensangrentado,
me moriria por los cementerios
que como cenicientos rios pasan con
agua y tumbas, de noche, entre campanas
ahogadas: rios espesos como dormitorios
de soldados enfermos que de subito crecen
hacia la muerte en rios con numeros de marmol
y coronas podridas, y aceites funerales:
me moriria por los cementerios
mirar pasar las cruces anegadas, de pie
llorando, porque ante el rio de la muerte
lloras abandonadamente, heridamente,
lloras llorando, con los ojos llenos
de lagrimas, de lagrimas, de lagrimas.
Si pudiera de noche, perdidamente solo,
acumular olvido y sombra y humo
sobre ferrocarriles y vapores,
con un embudo negro,
mordiendo las cenizas,
lo haria por el arbol en que creces,
por los nidos de aguas doradas que reunes,
y por la enredadera que te cubre los huesos
comunicandote el secreto de la noche.
Ciudades con olor a cebolla mojada
esperan que tu pases cantando roncamente,
y silenciosos barcos de esperma te persiguen,
y golondrinas verdes hacen nido en tu pelo,
y ademas caracoles y semanas,
mastiles enrollados y cerezas
definitivamente circulan cuando asoman
tu palida cabeza de quince ojos
y tu boca de sangre sumergida.
Si pudiera llenar de hollin las alcaldias
y, sollozando, derribar relojes,
seria para ver cuando a tu casa
llega el verano con los labios rotos,
llegan muchas personas de traje agonizante,
llegan regiones de triste esplendor,
llegan arados muertos y amapolas,
llegan enterradores y jinetes,
llegan planetas y mapas con sangre,
llegan buzos cubiertos de ceniza, llegan enmascarados arrastrando doncellas
atravesadas por grandes cuchillos,
llegan raices, venas, hospitales,
manantiales, hormigas,
llega la noche con la cama en donde
muere entre las aranas un husar solitario
llega una rosa de odio y alfileres,
llega una embarcacion amarillenta,
llega un dia de viento con un ninio,
llego yo con Oliverio, Norah
Vicente Aleixandre, Delia, Maruca,
Malva Marina, Maria Luisa y Larco,
la Rubia, Rafael Ugarte,
Cotapos, Rafael Alberti,
Carlos, Bebe, Manolo Altolaguirre,
Molinari, Rosales, Concha Mendez,
y otros que se me olvidan.
Ven a que te corone, joven de la salud
y de la mariposa, joven puro
como un negro relampago
perpetuamente libre,
y conversando entre nosotros,
ahora, cuando no queda
nadie entre las rocas,
hablemos sencillamente
como eres tu y soy yo,
para que sirven los versos
si no es para el rocio?
Para que sirven los versos
si no es para esa noche
en que un punal amargo nos averigua,
para ese dia, para ese crepusculo,
para ese rincon roto donde el
golpeado corazon del hombre se
dispone a morir?
Sobre todo de noche, de noche hay
muchas estrellas, todas dentro de un rio
como una cinta junto a las ventanas
de las casas llenas de pobres gentes.
Alguien se les han muerto, tal vez
han perdido sus colocaciones en las oficinas,
en los hospitales, en los ascensores, en
las minas, sufren los seres tercamente heridos
y hay proposito y llanto en todas partes:
mientras las estrellas corren
dentro de un rio interminable
hay mucho llanto en las ventanas,
los umbrales estan gastados por el llanto,
las alcobas estan mojadas por el llanto
que llega en forma de ola
a morder las alfombras.
Federico,
tu ves el mundo, las calles, el vinagre,
las despedidas en las estaciones cuando
el humo levanta sus ruedas decisivas
hacia donde no hay nada sino algunas
separaciones, piedras, vias ferreas.
Hay tantas gentes haciendo preguntas
por todas partes.
Hay el ciego sangriento, y el iracundo,
y el desanimado, y el miserable,
el arbol de las unas, el bandolero con
la envidia a cuestas.
Asi es la vida, Federico, aqui tienes
las cosas que te puede ofrecer mi amistad
de melancolico varon varonil.
Ya sabes por ti mismo muchas cosas.
Y otras iras sabiendo lentamente.
Pablo Neruda
Oração das 11:09 AM | | Comentários (0)
setembro 28, 2006
Le Club Chez Moi
Ontem, no CaféCAFÉ Bastidores decorreu mais uma apresentação do "Le Club Chez Moi". Uma peça de teatro que recomendo vivamente e à qual poderão ainda assistir no CaféCAFÉ Bastidores nos dias 4 e 11 de Outubro ou no Teatro Bocage nos dias 6, 7, 8, 13, 14 e 15 de Outubro. Aqui ficam algumas fotos.



Isabel Jacobetty no piano


Katiliana Capindiça (lembram-se dela?), uma voz e uma presença extraordinárias


Um obrigado a todos eles e em especial à Isabel Jacobetty e à Katiliana pela simpatia
Oração das 08:54 PM | | Comentários (1)
setembro 27, 2006
Luangraal #1

Oração das 12:00 PM | | Comentários (0)
setembro 26, 2006
A ponte

Vamos pela ponte que é mais rápido – disse o Ricardo. Os outros concordaram. Ele ficou aflito. Tinha vertigens. Entrava em pânico total. Ainda os tentou convencer a dar a volta por baixo mas ninguém o ouviu. Para não ficar mal visto perante os amigos, para não parecer um “maricas”, foi também. Noite escura, entraram pela linha do comboio e seguiram em direcção à ponte. Já a tinha passado outras vezes durante o dia. Sempre para não ser gozado pelos amigos. Sabia que tinha uma passadeira estreita em tábuas de madeira, muitas delas partidas, e apenas um arame para se segurar. E o vazio, que o atraía de modo quase irresistível, visível entre as tábuas da linha do caminho de ferro e do lado de fora da ponte. Entraram na passadeira. Ele atrás de todos. Aterrorizado. Um dos amigos caminhava no meio da linha saltando de tábua em tábua. Ele arrastava-se, quase paralisado. Tentava olhar em frente. Fugir ao vazio em baixo. Apareceu uma luz na curva que antecedia a ponte. Um comboio. Sabia que o comboio passava tão rente à passadeira que se tinha que encostar às barras metálicas laterais e agarrar-se ao arame para não se desequilibrar com a deslocação do ar. Encostou-se, tentou segurar-se. Na escuridão a mão falhou o arame. Caiu para trás para o vazio que o esperava.
Dionisio Leitão
Oração das 03:15 PM | | Comentários (0)
setembro 25, 2006
A minha Lisboa #4



Oração das 12:48 PM | | Comentários (0)
setembro 23, 2006
Declaração de amor
Ontem quem estava no Bar Café da Ribeira assistiu a uma declaração de amor feita ao vivo e a cores à "nossa" Cátia. Foi bonito de se ver e aqui fica o relato em fotografia. Não é difícil de interpretar.





Oração das 04:25 PM | | Comentários (0)
setembro 22, 2006
Os automóveis dormem
Os automóveis dormem. Na discoteca
estão mortos os pares que se titilam.
Ao pegar no telefone o senhor rui
despega. E não ouve. E não fala.
As flores são periscópios cegos:
também elas se dizem, não se entendem.
Ainda que subam, descem elevadores,
mas não passam do chão, como
se qualquer coisa cai: percussão
de tambor, ou tantã gutural.
O céu é azul, ou cinza, ou de outras
cores, desde sempre até sempre,
mas mais nada. E até o vento, senhores,
até o vento sopra como quem se engole
a si mesmo, seringa ou telescópio,
porém emparedado. E o mar
esfalfa as ondas entre praia e praia
sem resultados que não sejam espuma.
Entre a lua e o sol fez-se um acordo
Mas não se fez acorde. Fenecem:
Não há anjos.
Pedro Tamen
Oração das 11:08 AM | | Comentários (0)
setembro 21, 2006
Do Livro do Desassossego

Durei horas incógnitas, momentos sucessivos sem relação, no passeio em que fui, de noite, à beira sozinha do mar. Todos os pensamentos, que têm feito viver homens, todas as emoções, que os homens têm deixado de viver, passaram por minha mente, como um resumo escuro da história, nessa minha meditação andada à beira-mar.
Sofri em mim, comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram fazendo-o, o que as almas foram e ninguém disse - de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira-mar.
(...)
Quem sabe sequer o que pensa, ou o que deseja? Quem sabe o que é para si mesmo? Quantas coisas a música sugere e nos sabe bem que não possam ser! Quantas a noite recorda e choramos, e não foram nunca! Como uma voz solta da paz deitada ao comprido, a enrolação da onda estoira e esfria e há um salivar audível pela praia invisível fora.
Quanto morro se sinto por tudo! Quanto sinto se assim vagueio incorpóreo e humano, com o coração parado como uma praia, e todo o mar de tudo, na noite em que vivemos, batendo alto, chasco, e esfria-se, no meu eterno passeio nocturno à beira-mar.
Bernardo Soares in "O Livro do Desassossego"
Oração das 10:56 AM | | Comentários (0)
setembro 20, 2006
Tributo a Zeca Afonso
O Bar Café do Mercado da Ribeira realizou no passado dia 9 de Setembro uma homenagem a Zeca Afonso com a participação de diversos cantores. Casa cheia (muito cheia mesmo) para apreciar um espectáculo de grande qualidade. Aqui fica um pequeno apontamento sobre o acontecimento sendo que a reportagem completa poderá ser vista aqui.

Grândola Vila Morena cantada no final do espectáculo por, da esquerda para a direita, Vitor Sarmento, Jorge Jordan, Andrés Stagnaro e João Queiroz

João Queiroz

Suzana Rodrigues

Suzana Rodrigues e João Queiroz

Luis Pires

Jorge Jordan

Vitor Sarmento

Andrés Stagnaro
ASSISTÊNCIA

Manuel Rebelo e Rita

Gordilho

O Jorge Castro. Atenção às novidades que deverão surgir nos próximos tempos sobre noites de poesia no Bar Café da Ribeira.

Convidados muito especiais
Oração das 04:05 PM | | Comentários (0)
Atrium - Excerto

(...)
Hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço e escrevi: aqui está está a imobilidade aquática do meu país, o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar, invade-me a vontade de permancer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar...
releio o que escrevi há doze anos, neste mesmo lugar: as canetas secaram, os lápis ficaram esquecidos não sei onde. as borrachas já não apagam a melancolia das palavras, a escrita que inventámos evadiu-se do corpo. o vazio devora-nos. onde estivemos este tempo todo? voltaremos a encontrar e a tocar nossos corpos?
Não estás aqui mas vejo-te nítido quando uma pétala de bruma envolve a casa e adormece o desejo. um astro ininteligível e de órbita difícil guia-me, ilumina-te pelas frestas dum espaço oco perscruto o eco do meu corpo, o silente medo de continuar vivo.
sento-me em cima do meu próprio lixo e sorrio. espero que cheguem outros dias com algum sonho, ou destino, mais feliz.
Al Berto in Atrium
Oração das 11:12 AM | | Comentários (0)
setembro 19, 2006
A origem do mal
Encontrei Adão e Eva no Palácio de Cristal
ainda o mundo era puro e sem pecado original
foram ver o Marco Paulo que já andava a cantar
depois foram de mãos dadas, mas nada de namorar
eu disse que era a serpente e que trazia a tentação
estendi-lhes friamente uma talhada de melão
e a Eva era uma ingénua, não pressentiu a marosca
comeu todo o veneno e ao Adão deixou a casca
e o veneno era doce
mais doce que chila e mel
o Adão achou-a estranha e nunca chegou a saber
porque é que Eva comia e ronronava de prazer
e então fez-lhe um sermão e inventou a moral
provou-lhe que no melão estava a origem do mal
e a Eva ficou triste com a verdade cruel
por não comer do veneno mais doce que chila e mel
por isso hoje o Adão, só come fruta sagrada
e a Eva essa ficou para sempre a mesma ougada
E o veneno era doce
Mais doce que chila e mel
Letra: Carlos Tê
Música: Rui Veloso
Oração das 12:07 PM | | Comentários (0)
setembro 18, 2006
Os Boémia #2 - Rogério Oliveira


Site dos Boémia
Oração das 11:45 PM | | Comentários (1)
Fresquinha

Oração das 04:04 PM | | Comentários (0)
Encantamento
voarem como pássaros cegos; e os seus corpos
sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos
vulcânicos. Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma
calcinado. A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas
primaveris abraçavam-nas, puxando-as num
estertor de imagens. Tapei-as com o cobertor
do verso; estendi-as na areia grossa
da margem, vendo as cobras de água fugirem
por entre os canaviais. Espreitei-lhes
o sexo por onde escorria o líquido branco
de um início. Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas; e
ouvi um restolhar de crianças por entre
os arbustos, repetindo-me as frases com uma
entoação de riso. Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto
vago de inquietação? Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.
Nuno Júdice
Oração das 10:10 AM | | Comentários (0)
setembro 17, 2006
Da Weasel e a Orquestra Sinfónica da Madeira dirigida por Rui Massena #1

A reportagem do concerto está nesta página.
Oração das 09:35 PM | | Comentários (0)
Do retrato #16



Oração das 05:12 PM | | Comentários (0)
A minha Lisboa #3


Oração das 05:10 PM | | Comentários (0)
Cântico negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Régio
Poema dito por Maria Bethânia
Música: Adágio de Albinoni
Oração das 05:08 PM | | Comentários (0)
Do retrato #15



Oração das 05:07 PM | | Comentários (0)
Dádiva

«Toma, é para ti, guarda-o» disse ele ao despedir-se de mim naquela madrugada, os primeiros raios de luz a aparecerem, no meu carro apinhado de gente no meio de Lisboa. Aceitei o pequeno papel azul cuidadosamente dobrado e fui abrindo aquilo que pensava ser uma brincadeira de alguém que tinha conhecido nessa noite e com quem tinha trocado algumas palavras de copos e de gozo permanente. Tinha reparado no entanto que por vezes o olhar dele estava fixo em mim tornando-me transparente. Ou pelo menos assim o sentia. Quando acabei de o desdobrar deparei com o trevo de quatro folhas e fiquei silencioso, bloqueado. Ele saiu do carro e eu balbuciei algumas palavras de agradecimento que nem consigo recordar. Cuidadosamente voltei a colocar o trevo no papel azul.

Daí a pouco ela disse-me «não foi um presente, foi uma dádiva». O gesto, o olhar dele, a palavra “dádiva” ficaram presentes no meu espírito daí em diante. E a pergunta que coloco a mim próprio é o que é que aquele homem estranho viu na minha transparência para me fazer a dádiva de algo que lhe era óbviamente querido e valioso.
Sei que não vais ler isto mas quero deixar-te aqui o meu agradecimento pela dádiva que me fizeste e garantir-te que ela me vai acompanhar sempre.
Oração das 05:06 PM | | Comentários (0)
Bicho irritante
Há dias em que o telemóvel, normalmente bicho irritante que teima em incomodar repetidamente sem respeito pelo momento, pelo local, pela minha calma, entra em greve – talvez como vingança pelos frequentes insultos e agressões fisicas que lhe faço – e não me diz nada. E escolhe-os a dedo, com precisão. São precisamente aqueles em que eu preciso que ele fale comigo, que me chame.
Oração das 05:04 PM | | Comentários (0)
A minha Lisboa #2


Oração das 05:03 PM | | Comentários (0)
O grito

Ah se eu deixasse sair o grito que tenho cá dentro!
se no grito
se cada átomo do corpo do grito
fosse constituido por todas as dores
mágoas
tristezas
decepções
desilusões
enganos
desenganos
culpas
arrependimentos
que me enchem e preenchem
que me fazem sentir prestes a explodir...
Ah, quando eu o deixar sair
será grito bomba
clarão
raio
destruição
aniquilação
redenção libertadora
eterna
paz definitiva
permanente.
Dionisio Leitão
Imagem: "O Grito" - E. Münch"
Alfa do Centauro trouxe este poema de David Mourão Ferreira:
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que e’ nosso.
São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo o que é nosso
é excessivo.
E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a espádua,
são os teus olhos,
depois o grito.
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
de outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.
E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa.
O grito- David Mourão Ferreira
Oração das 05:01 PM | | Comentários (0)
Walking around

Acontece que me canso de ser homem.
Acontece que entro nas alfaiatarias e nos cinemas
abatido, impenetrável, como um cisne de feltro
vogando numa água de orizem e de cinza.
O cheiro das barbearias faz-me gritar em lágrimas.
Eu só quero um descanso de pedras ou de lã,
eu só quero não ver as lojas e os jardins,
mercadorias, óculos, ascensores.
Acontece que me canso destes pés, destas unhas,
e do cabelo e da sombra.
Acontece que me canso de ser homem.
E no entanto seria delicioso
assustar um notário com um livro cortado
ou dar morte a uma freira com um soco no ouvido.
Seria lindo
ir pela rua com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.
Não quero continuar a ser raiz nas trevas,
vacilante, estendido, tiritando de sono,
para baixo, nas tripas molhadas da terra,
absorvendo e pensando, comendo dia após dia.
Não quero para mim tanta desgraça.
Não quero continuar raiz e sepultura,
subterrâneo solitário e adega com mortos,
transido, morrendo de desgosto.
Por isso a segunda feira arde como o petróleo
quando me vê chegar com esta cara de cárcere
e uiva no seu decurso como roda ferida,
e dá passos de sangue quente em direcção à noite.
E empurra-me para certos cantos, certas casas húmidas
para os hospitais onde os ossos saem pela janela,
para certas sapatarias que cheiram a vinagre,
para ruas espantosas como fendas.
Há pássaros cor de enxofre com horríveis intestinos
pendentes da entrada das casas que eu odeio,
há dentaduras esquecidas numa cafeteira,
há espelhos
que deviam ter chorado de vergonha e de espanto,
há guarda chuvas em todo o lado, e veneno, e umbigos.
Eu passeio com calma, com olhos, com sapatos,
com fúria, com esquecimento,
passo, atravesso escritórios e centros ortopédicos,
e pátios onde há roupa a secar num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sujas.
Pablo Neruda
(tradução de Fernando Assis Pacheco)
Oração das 04:55 PM | | Comentários (0)
she

She may be the face I can't forget
The trace of pleasure or regret
Maybe my treasure or the price I have to pay
She may be the song that summer sings
May be the chill that autumn brings
May be a hundred different things
Within the measure of a day
She may be the beauty or the beast
May be the famine or the feast
May turn each day into a Heaven or a Hell
She may be the mirror of my dreams
A smile reflected in a stream
She may not be what she may seem
Inside her shell....
She, who always seems so happy in a crowd
Whose eyes can be so private and so proud
No one's allowed to see them when they cry
She maybe the love that cannot hope to last
May come to me from shadows in the past
That I remember 'till the day I die
She maybe the reason I survive
The why and wherefore I'm alive
The one I care for through the rough and ready years
Me, I'll take the laughter and her tears
And make them all my souvenirs
For where she goes I've got to be
The meaning of my life is
She....She
Oh, she....
Charles Aznavour e Herbert Kretzmer, canta Elvis Costello
Diz o Jorge Castro:
ela
que mesmo estando perto da ausência
que a distancia
da nossa ansiedade ou da sofreguidão
crava em nós um doce punhal
de inexplicável sofrimento
ela
a imperecível
que vive ao rés de nós tão entranhada
que a pele é carne viva
quando ausente…
Oração das 04:52 PM | | Comentários (0)
Chapéu pensador



Oração das 04:50 PM | | Comentários (0)
Dá-me lume

- Toma lá o isqueiro.
- Preferia acender no teu como na canção do Adriano.
- Porquê? A guerra colonial acabou há 30 anos lembras-te?
- Lembro, mas gosto de pensar que ainda há amigos daqueles que acendiam os cigarros de uns nos dos outros. Não era a despedida, não era o poupar do fósforo ou da gasolina do Zippo, era o significado que interessava. “Acender no meu o teu cigarro”.
- Deixa-te de paneleirices estragavas-me o cigarro. Toma lá com o isqueiro.
Dionisio Leitão
Oração das 04:47 PM | | Comentários (0)
Amantes

Eu quero uma amante...
que quando se mova,
ou se levante,
deva erguer-se da morte,
jorrando fogo para todos os lados.
Nós ansiamos por um amor
como o inferno;
um amor que queima
do inferno até a superfície;
um amor que desafia as ondas do mar
e atira centenas de mares no fogo.
Envolve os céus
como um lenço em suas palmas.
E suspende a luz inexaurível
no forro do mundo.
(...)
Rumi (poesia Sufi)
Oração das 04:45 PM | | Comentários (0)
Da Weasel e a Orquestra Sinfónica da Madeira dirigida por Rui Massena









Os Da Weasel e a Orquestra Sinfónica da Madeira dirigida por Rui Massena deram ontem, dia 3, um concerto memorável, junto à Torre de Belém em Lisboa. A prova evidente que a divisão entre géneros de música pode ser facilmente ultrapassável desde que haja essa vontade. Como o Pacman ontem afirmou "a música quando é boa, é boa..." (acresce dizer que não se estava a auto-elogiar porque afirmou de seguida "a deles (orquestra) evidentemente". E foi isso que ficou provado e visto por milhares de pessoas ontem à noite. Gosto deles, gosto das letras e do que tentam transmitir em cada uma das suas canções.
Aqui fica um pouco da música deles (não é de ontem claro) assim como a letra de uma das canções mais populares dos Da Weasel.
Loja
Chibos interesseiros. Intrujas manhosos.
Bacanos desorientados à espera d’ algo, sem saber o quê ao
certo,
mas a com a certeza de que o saberão quando a cena finalmente
surgir.
Miúdas que quase que fazem uma mamada em troca de um algodão.
Quase que fazem, o caralho, fazem mesmo.
Caras e corpos de 40 anos que na verdade viveram apenas metade desse tempo.
Barracas impregnadas com aquele ar nauseabundo.
Muletas ligaduras hematomas sangue coagulado.
O cheiro, não se consegue afastar o cheiro.
Surgem vozes de todo o lado:
-“Boa branca”, “boa castanha”, “Serenal”, “Paxilfar”,
“prata”, “bombas”, “amoníaco”, “sai do meio da rua e encosta à parede!”,
“Filha da puta do carocho só faz é merda”!!!
Vai fechar a loja mas o puto não comprou nada,
Não comprou nada,
Não comprou…
São duas da manhã mas a loja tá aberta, como sempre.
Seja natal ou fim-do-ano, o negócio não pode parar,
não consegue parar, e por isso, logicamente não vai parar.
(Disponível num centro perto de si)
Dinheiro puxa dinheiro como vício puxa vício…
Enquanto houver gente a comprar, vai haver gente a vender,
enquanto houver gente a vender, vai haver gente a comprar…
O bicho já apanhou mais de metade dos consumidores,
mas sabes bem que a fruta dos contentores dá moca e tira as dores
faz voar sem sair do chão e afinal de contas quem é que não
gosta da sensação da…
-“Boa branca”, “boa castanha”, “Serenal”, “Paxilfar”,
“prata”, “bombas”, “amoníaco”, “já te disse para saíres do meio da
rua e encostares à parede!”,
“Filha da puta do carocho só faz é merda”!!!
Vai fechar a loja mas o puto não comprou nada,
Não comprou nada,
Não comprou…
Oração das 04:40 PM | | Comentários (0)
Do retrato #14

Oração das 04:38 PM | | Comentários (0)
Pirata

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Oração das 04:33 PM | | Comentários (0)
O vestido preto

Ele comprou-lhe o vestido preto, sexy, lindo, que tinha visto numa loja fina de Lisboa, com o dinheiro que não podia gastar. Ela tinha um corpo magnífico que o vestido ia realçar e torná-la deslumbrante e todos os olhares se iam fixar nela quando entrasse no baile. Preferiu nem pensar como iria viver o resto do mês, sabia que ela ia gostar e isso chegava.
Deu-lho pouco antes do dia do baile num fim duma tarde de verão, de amor perfeito, de corpos suados e pediu-lhe para não o experimentar ali porque só a queria ver, linda, no baile.
E ela esteve maravilhosa e todos os olhares de todos os homens se fixaram nela e a desejaram enquanto dançava com o marido nessa noite, em que ele não arranjou coragem para sair de casa e se deitou na cama ouvindo os sons que lhe chegavam do recinto do baile.
Dionisio Leitão
Oração das 04:28 PM | | Comentários (0)
A minha Lisboa #1



Lisboa, menina e moça
No Castelo
Ponho um cotovelo
Em Alfama
Descanso o olhar
E assim desfaz-se o novelo
De azul e mar
À Ribeira encosto a cabeça almofada
Na cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo
Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos vêem tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura
Cidade a ponto luz bordada
Toalha a beira mar estendida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida
No Terreiro eu passo por ti
Mas da Graça eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha, sorri
És mulher da rua
E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que soube inventar
Aguardente de vida e medronho
Que me faz cantar
Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos vêem tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura
Lisboa do meu amor deitada
Cidade por minhas mãos despida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida
Poema de José Carlos Ary dos Santos, música de Paulo de Carvalho, canta Carlos do Carmo
Oração das 04:24 PM | | Comentários (0)
Retrato ardente

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha
Eugénio de Andrade
Oração das 04:21 PM | | Comentários (0)