outubro 25, 2006
Boris Vian
Quero uma vida em forma de espinha
Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo dum sítio sozinho
Quero uma vida em forma de areia nas minhas mãos
Em forma de pão verde ou de cântara
Em forma de sapata mole
Em forma de tanglomanglo
De limpa chaminés ou de lilás
De terra cheia de calhaus
De cabeleireiro selvagem ou de édredon louco
Quero uma vida em forma de ti
E tenho-a mas ainda não é bastante
Eu nunca estou contente
Boris Vian
Oração das 09:57 AM | | Comentários (1)
outubro 24, 2006
Do retrato #16

Oração das 01:16 PM | | Comentários (0)
outubro 23, 2006
***
Tu estás aqui
Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
Ruy Belo
Oração das 02:59 PM | | Comentários (1)
Minguante nº 2

Saiu este fim de semana o número 2 da Minguante. Muita coisa interessante para ler e ver. Obrigatório.
Oração das 11:07 AM | | Comentários (0)
outubro 21, 2006
A minha Lisboa #7 - Ascensor da Bica







Oração das 05:09 PM | | Comentários (0)
outubro 19, 2006
A noite passada
A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste
A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos
A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"
Sérgio Godinho
Oração das 03:28 PM | | Comentários (0)
outubro 18, 2006
Flores #1

Oração das 06:16 PM | | Comentários (0)
Entre o sonho e a realidade

Sentado no carro olho as luzes da cidade espalhadas pelas gotas de água que escorrem nos vidros.
Ligo o aquecimento, procuro uma estação de rádio. Música melancólica. Oceano Pacífico. Apropriado.
A noite vai ser longa e o dia foi cansativo.
"As noites longas do Oceano Pacífico".Dizem.
A música, o ruído de fundo da chuva e o cansaço levam-me para um espaço entre o sonho e a realidade.
Nele quero estar.
É nele que tu existes. Entre o sonho e a realidade.
Desde sempre foi aí que te encontrei.
Nele crescemos juntos, brincámos, nele nos amamos, nele vivemos como criaturas de luz que somos.
Sabemos que o tempo é curto. Apenas existe naqueles minutos entre a realidade e o sonho.
Sei que estás, como eu, nos outros espaços.
Mas neles não nos (re)conhecemos.
E ansiamos esse pequeno espaço de tempo em que, de facto, estamos vivos.
O tempo começa a esgotar-se. Luto contra o sono, luto contra o despertar.
Não quero a separação.
O barulho de pancadas fortes e um coro de buzinas sobressaltam-me:
Acorde, gritam-me de fora do carro, o sinal está verde, porra !
Você está a empatar o trânsito!
Oração das 05:50 PM | | Comentários (1)
O amarelo da Carris
O amarelo da Carris
vai da Alfama à Mouraria,
quem diria.
Vai da Baixa ao Bairro Alto,
trepa à Graça em sobressalto,
sem saber geografia.
O amarelo da Carris
já teve um avô outrora,
que era o xora???.
Teve um pai americano,
foi inglês por muito ano,
só é português agora.
Entram magalas, costureiras;
descem senhoras petulantes.
Entre a verdade, os peliscos e as peneiras,
fica tudo como dantes.
Quero um de quinze p'ra a Pampuia.
Já é mais caro este transporte.
E qualquer dia,
mudo a agulha porque a vida
está pela hora da morte.
O amarelo da Carris
tem misérias à socapa
que ele tapa.
Tinha bancos de palhinha,
hoje tem cabelos brancos,
e os bancos são de napa.
No amarelo da Carris
já não há "pode seguir"
para se ouvir.
Hoje o pó que o faz andar
é o pó (???)
com que ele se foi cobrir.
Quando um rapaz empurra um velho,
ou se machuca uma criança,
então a gente vê ao espelho o atropelo
e a ganância que nos cansa.
E quando a malta fica à espera,
é que percebe como é:
passa à pendura
um pendura que não paga
e não quer andar a pé.
Entram magalas, costureiras;
descem senhoras petulantes.
Entre a verdade,
os peliscos e as peneiras,
fica tudo como dantes.
Quero um de quinze p'ra a Pampuia.
Já é mais caro este transporte.
E qualquer dia,
mudo a agulha porque a vida
está pela hora da morte.
José Carlos Ary dos Santos
Oração das 10:33 AM | | Comentários (0)
outubro 17, 2006
Dancing

Oração das 03:43 PM | | Comentários (0)
Uns poemas de Agostinho
alma fremindo e parada
gaivotas águas crianças
calmo o céu e lenta a vela
meu amor de tudo e nada
o sonho em mim vida nela
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Jorra a fonte suas águas
indiferente ao da sede
como o da sede das águas
é à fonte indiferente
não à sede
mas como custa ser fonte
pronta a dar sua água à sede
de indiferente
quando se é fonte e tem sede.
-------------------------------------
Experimento agir por não agir
com meus mestres chineses fascinado
tanto mais que me vejo consolado
de me ter obrigado a existir
mas bem sinto o dever de repetir
o dentro de mim mesmo revelado
aquilo que jamais teria ousado
alto dizer a quem o queira ouvir
que por aí me ligo e firme prendo
ao mais alto poder e enfim me alio
ao que talvez não seja embora sendo
ao que o mundo contempla não o vendo
ao que a mim me criou porque eu o crio
ao que à vida conduz não a vivendo.
Agostinho da Silva in "Uns poemas de Agostinho", Ulmeiro
Oração das 11:15 AM | | Comentários (0)
outubro 16, 2006
O Bufo Real
Na visita ao Parque Natural do Douro Internacional foi-nos proporcionada uma demonstração das "habilidades" do Bufo Real. Uma ave de rapina magnífica. Francamente o que mais me impressionou, para além das suas incríveis capacidades de voo, foi o olhar altivo com que nos mirava, dir-se-ia quase de desprezo por nós, reles humanos...





Oração das 02:58 PM | | Comentários (0)
outubro 15, 2006
A minha Lisboa #6


Canção com lágrimas
Eu canto para ti um mês de giestas
Um mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada
Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema
Porque tu me disseste quem em dera em Lisboa
Quem me dera em Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro
Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio
Porque tu me disseste quem me dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol Lisboa com lágrimas
Lisboa a tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...
Manuel Alegre, canta Adriano Correia de Oliveira


Oração das 08:16 PM | | Comentários (0)
Lançamento do "Havia Trigo", novo livro do Jorge Castro - Jantar de confraternização no Palaçoulo - #3
































Oração das 04:07 PM | | Comentários (0)
outubro 12, 2006
Lançamento do "Havia Trigo", novo livro do Jorge Castro - A sessão de apresentação - #2

















Oração das 03:48 PM | | Comentários (1)
A minha Lisboa #5

Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver
"Lisboa" - Sophia de Mello Breyner Andresen


Oração das 10:08 AM | | Comentários (0)
outubro 10, 2006
Variações sobre um trombone de vara


Oração das 11:34 PM | | Comentários (1)
Roda e nuvens (de tempestade)


Oração das 10:45 AM | | Comentários (0)
outubro 09, 2006
Lançamento do "Havia Trigo", novo livro do Jorge Castro - #1
De 5 a 8 deste mês cerca de setenta (corrijo, cerca de cem) pessoas oriundas de diversos locais juntaram-se em Miranda do Douro para acompanhar o Jorge Castro no lançamento do seu livro bilingue - português e mirandês - "Havia Trigo". Um programa intenso e muito interessante recheado de visitas, boas refeições..., culminando no sábado com o lançamento do livro na Casa da Cultura de Miranda do Douro e um jantar a não esquecer em Palaçoulo. Publico hoje algumas fotos para sublinhar a ocasião e despertar o apetite para a reportagem mais completa. Mas... como tirei 550 fotografias isto vai demorar para escolher e trabalhar.

Acordar com esta beleza em frente aos olhos é magnifico. Na Pensão Morgadinha.



Passeio no Douro internacional. Uma maravilha!

Visita à Barragem do Picote guiada por quem sabe.

Escultura do Cristo na capela do bairro da EDP conhecido pelo "Moderno Escondido" .

Mesa da sessão de lançamento do livro. Da esquerda para a direita, Fernanda Frazão da Apenas Livros, Manuel Rodrigo Martins, Presidente da Câmara de Miranda do Douro e Jorge Castro.

Assistência

Recepção no Palaçoulo para o jantar de confraternização.

Mesa dos fumadores...

A Tuna Meliches também esteve presente em versão reduzida e "soft" com nova denominação - mine Tuna. Desenvolvimento no resto da reportagem.

"Last but not the least" o Miguel, puto maluco que parece o coelho das pilhas Duracell e grande animador do grupo.
Oração das 11:57 AM | | Comentários (0)
outubro 04, 2006
Tributo a Adriano Correia de Oliveira

E a propósito do Jorge vou mas é fazer a mala porque amanhã é dia de arrancar cedo para Miranda do Douro onde me vou juntar com mais 69 (????) pessoas para o lançamento do novo livro dele, "Havia Trigo". Volto no domingo e o que por lá se passar há-de sair aqui, em fotografia claro, com o devido relevo.
Oração das 11:32 PM | | Comentários (1)
teiquirisi...

teiquirisi ó chavalo... ;-)
Oração das 02:57 PM | | Comentários (0)
Os Boémia - "Semente", o cd


Os Boémia têm um excelente cd de originais que conta com as participações de Fausto, Luis Pastor e Luis Represas. Fica aqui a recomendação de compra bem como algumas fotos deles.


Rogério Oliveira


Rogério Charraz


Marco Ferreira


Patrick Simeão
Oração das 11:22 AM | | Comentários (0)
outubro 03, 2006
Morrer a rir - Epitáfios Apócrifos

Ontem na Feira do Livro do Mercado da Ribeira - a decorrer até 30 de Outubro diariamente das 10 às 20 horas - descobri este livrinho delicioso. Aqui ficam alguns possíveis epitáfios de lá retirados:
"A política é uma coisa de perder a cabeça."
Luís XVI
"A culpa foi do outro."
Fernando Pessoa
"As mulheres são uma prisão."
Henrique VIII
"Este carro não estava no guião."
James Dean
"Até os trinco todos!"
Pedro o Cru
"Morri soldada."
Joana d'Arc
"Hei-de morrer em pontas."
Rudolfo Nureyev
"Alguém viu por aí o Vasco da Gama?"
Madre Teresa de Calcutá
"Porque não deram um relógio ao imbecil do Godot?"
Samuel Beckett
O livro é da autoria de Hilário Antas, edição da Ulmeiro
Oração das 10:20 AM | | Comentários (0)
outubro 02, 2006
Luangraal #2
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill
Oração das 11:01 AM | | Comentários (0)
outubro 01, 2006
Cantiga de amigo

Nem um poema nem um verso nem um canto
tudo raso de ausência tudo liso de espanto
e nem Camões Virgílio Shelley Dante
--- o meu amigo está longe
e a distância é bastante.
Nem um som nem um grito nem um ai
tudo calado todos sem mãe nem pai
Ah não Camões Virgílio Shelley Dante!
--- o meu amigo está longe
e a tristeza é bastante.
Nada a não ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Camões Virgílio Shelley Dante:
o meu amigo está longe
e a saudade é bastante!
José Carlos Ary dos Santos
Oração das 03:33 PM | | Comentários (0)