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setembro 17, 2006
O grito

Ah se eu deixasse sair o grito que tenho cá dentro!
se no grito
se cada átomo do corpo do grito
fosse constituido por todas as dores
mágoas
tristezas
decepções
desilusões
enganos
desenganos
culpas
arrependimentos
que me enchem e preenchem
que me fazem sentir prestes a explodir...
Ah, quando eu o deixar sair
será grito bomba
clarão
raio
destruição
aniquilação
redenção libertadora
eterna
paz definitiva
permanente.
Dionisio Leitão
Imagem: "O Grito" - E. Münch"
Alfa do Centauro trouxe este poema de David Mourão Ferreira:
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que e’ nosso.
São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo o que é nosso
é excessivo.
E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a espádua,
são os teus olhos,
depois o grito.
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
de outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.
E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa.
O grito- David Mourão Ferreira
Publicado por ognid às setembro 17, 2006 05:01 PM