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setembro 17, 2006

Dádiva

«Toma, é para ti, guarda-o» disse ele ao despedir-se de mim naquela madrugada, os primeiros raios de luz a aparecerem, no meu carro apinhado de gente no meio de Lisboa. Aceitei o pequeno papel azul cuidadosamente dobrado e fui abrindo aquilo que pensava ser uma brincadeira de alguém que tinha conhecido nessa noite e com quem tinha trocado algumas palavras de copos e de gozo permanente. Tinha reparado no entanto que por vezes o olhar dele estava fixo em mim tornando-me transparente. Ou pelo menos assim o sentia. Quando acabei de o desdobrar deparei com o trevo de quatro folhas e fiquei silencioso, bloqueado. Ele saiu do carro e eu balbuciei algumas palavras de agradecimento que nem consigo recordar. Cuidadosamente voltei a colocar o trevo no papel azul.

Daí a pouco ela disse-me «não foi um presente, foi uma dádiva». O gesto, o olhar dele, a palavra “dádiva” ficaram presentes no meu espírito daí em diante. E a pergunta que coloco a mim próprio é o que é que aquele homem estranho viu na minha transparência para me fazer a dádiva de algo que lhe era óbviamente querido e valioso.

Sei que não vais ler isto mas quero deixar-te aqui o meu agradecimento pela dádiva que me fizeste e garantir-te que ela me vai acompanhar sempre.

Publicado por ognid às setembro 17, 2006 05:06 PM

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