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setembro 26, 2006

A ponte

Vamos pela ponte que é mais rápido – disse o Ricardo. Os outros concordaram. Ele ficou aflito. Tinha vertigens. Entrava em pânico total. Ainda os tentou convencer a dar a volta por baixo mas ninguém o ouviu. Para não ficar mal visto perante os amigos, para não parecer um “maricas”, foi também. Noite escura, entraram pela linha do comboio e seguiram em direcção à ponte. Já a tinha passado outras vezes durante o dia. Sempre para não ser gozado pelos amigos. Sabia que tinha uma passadeira estreita em tábuas de madeira, muitas delas partidas, e apenas um arame para se segurar. E o vazio, que o atraía de modo quase irresistível, visível entre as tábuas da linha do caminho de ferro e do lado de fora da ponte. Entraram na passadeira. Ele atrás de todos. Aterrorizado. Um dos amigos caminhava no meio da linha saltando de tábua em tábua. Ele arrastava-se, quase paralisado. Tentava olhar em frente. Fugir ao vazio em baixo. Apareceu uma luz na curva que antecedia a ponte. Um comboio. Sabia que o comboio passava tão rente à passadeira que se tinha que encostar às barras metálicas laterais e agarrar-se ao arame para não se desequilibrar com a deslocação do ar. Encostou-se, tentou segurar-se. Na escuridão a mão falhou o arame. Caiu para trás para o vazio que o esperava.

Dionisio Leitão

Publicado por ognid às setembro 26, 2006 03:15 PM

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