agosto 19, 2006
Balanço
Sei que para lá de ti,
há outros rios, outros sóis, outras marés,
que eu não aprendi.
Mas quero-te, apesar daquilo que não és.
Sei que para lá de ti,
há castelos com tesouros que não mereço,
um céu que ri.
E amo-te ainda, por aquilo que desconheço.
Sei que para lá de ti,
espreitam negruras e carreiros de solidão,
que já percorri.
Partir, será ainda solução?
Sei que para lá de ti,
há maravilhas que não me podes dar,
e que eu pedi.
Pode um egoísta como eu, saber amar?
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agosto 17, 2006
Stranger on a strange land
Carta fora do baralho
Peça a mais no tabuleiro
Personagem no filme errado
Penetra na festa de terceiros
Grão de areia na engrenagem
Desenraizado do meu próprio chão
Estranho numa terra estranha
Eis onde estou
Eis o que na verdade sou.
Dionisio Leitão
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agosto 15, 2006
Sou sempre eu
Num dia estou de tempestade
E sou vento forte sem direcção
E chuva e relâmpago e trovão.
No outro estou de bonança
Sou brisa em dia de Primavera
E trago em mim a luz suave
Desse tempo de renascimento.
Contudo olha-me bem!
Chuva
Ciclone
Trovão
Relâmpago
Sol
Calor
Brisa
Todos estão dentro de mim
Mas eu sou sempre o mesmo!
(inspirado em Fernando Pessoa)
Dionisio Leitão
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agosto 10, 2006
Declaração de amor
Minha flor minha flor minha flor. Minha prímula meu
pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro. Minha peônia.
Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão.
Minha gérbera. Minha clívia. Meu cimbídio. Flor flor flor.
Floramarílis. Floranêmona. Florazálea. Clematite minha.
Catléia delfínio estrelítzia. Minha hortensegerânea. Ah, meu
nenúfar. Rododendro e crisântemo e junquilho meus. Meu
ciclâmen. Macieira-minha-do-japão. Calceolária minha.
Daliabegônia minha. Forsitiaíris tuliparrosa minhas.Viole-
ta... Amor-mais-que-perfeito. Minha urze. Meu cravo-
pessoal-de-defunto. Minha corola sem cor e nome no chão
de minha morte.
Carlos Drummond de Andrade
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agosto 09, 2006
La Guitarra
Empieza el llanto
de la guitarra.
Se rompen las copas
de la madrugada.
Empieza el llanto
de la guitarra.
Es inutil callarla.
Es imposible callarla
Llora monotona
como llora el agua,
como llora el viento
sobre la nevada.
Es imposible callarla.
Llora por cosas lejanas.
Arena del Sur caliente
que pide camelias blancas.
Llora flecha sin blanco,
la tarde sin manana,
y el primer pajaro muerto
sobre la rama.
O guitarra!
Corazon malherido
por cinco espadas.
Federico Garcia Lorca
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O Zmsantos pergunta se "Lorca, terá sido alma de guitarra, noutra encarnação?"
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agosto 08, 2006
Entremos na morte com alegria!
Entremos na morte com alegria! Caramba
O ter que vestir fato, o ter que lavar o corpo,
O ter rins, fígado, pulmões, brônquios, dentes.
Coisas onde há dor e sangue e moléstias
(Merda para isso tudo!)
Estou morto, de tédio também
Eu bato, a rir, com a cabeça nos astros
Como se desse com ela num arco de brincadeira
Estendido, no carnaval, de um lado ao outro do corredor,
Irei vestido de astros; com o sol por chapéu de coco
No grande Carnaval do espaço entre Deus e a vida.
Meu corpo é a minha roupa de baixo; que me importa
Que o seu carácter de lixo seja terra no jazigo
Que aqui ou ali a coma a traça orgânica toda?
Eu sou Eu
Viva eu porque estou morto! Viva!
Eu sou Eu
Que tenho com a roupa-cadáver que deixo?
Que tem o cu a ver com as calças?
Então não teremos nós cuecas por esse infinito fora?
O quê, o para além dos astros nem me dará outra camisa?
Bolas, deve haver lojas nas grandes ruas de Deus.
Eu, assombroso e desumano,
Indistinto a esfinges claras,
Vou embrulhar-me em estrelas
E vou usar o Sol como chapéu de coco
Neste grande carnaval do depois de morrer.
Vou trepar, como uma mosca ou um macaco pelo sólido
Do vasto céu arqueado do mundo,
Animando a monotonia dos espaços abstractos
Com a minha presença subtilíssima.
Álvaro de Campos, excerto de «A Partida»
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Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.
Quantos, se pensam, não se reconhecem
Os que se conheceram!
A cada hora se muda não só a hora.
Mas o que se crê nela, e a vida passa.
Entre viver e ser.
Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa.
Se é para nós que cessa.
Aquele arbusto.
Fenece e vai com ele.
Parte da minha vida.
Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo.
Nem distingue a memória.
Do que vi do que fui.
Se recordo quem fui, outrem me vejo.
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo.
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente.
Não é de mim nem do passado visto.
Senão de quem habito.
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada.
E quem sou e quem fui.
São sonhos diferentes.
(Poema de Fernando Pessoa)
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agosto 07, 2006
Sem titulo
depois do amor sempre se tem de partir
tornar segredo a demora do corpo (mentira
vertigem cigarro manhã) "Pai Nosso que
estais no céu santificada seja: a paixão".
são quatro os pontos cardeais do corpo a
retina e o peito o ombro e essa outra força
com que trazemos o impossível sempre
ao alcance da mão (fica assim combinado:
nasces tu primeiro só depois a tentação)
no diálogo das brisas há o silêncio e escuta:
eu sei do abrigo. a voz[] a pele[] o olhar[]
podes beber (x) deste vinho como quem
sabe vai sentir depois de um longo amor
sempre se tem de partir
João Luís Barreto Guimarães in "Rua 31 de Fevereiro", edições Limiar
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agosto 06, 2006
Perdidamente
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Florbela Espanca, canta Luís Represas
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agosto 03, 2006
Sem titulo
Às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste
Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida
É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto
Com os dedos no crânio despedimo-nos
Gastão Cruz
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julho 31, 2006
Equinócio
No horizonte enegrecido do poente
sopra o hálito morno do equinócio...
Sentado, algures num cais,
(algures em mim)
ao fim da tarde,
vejo desfilar com a maré
os despojos iníquos da cidade.
Odores de algas podres
peixe seco,
tédio antigo,
desfilam com a maré.
O indecifrável,
o que já está,
o que não é,
o que será,
desfilam com a maré.
Guindastes-sentinelas,
perfilam-se em contra luz à beira-rio.
Horas tensas, barco que ainda não partiu,
esperanças vagas, enfunadas como velas...
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julho 28, 2006
Mar e lua
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar
Chico Buarque
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julho 27, 2006
Confidência
Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça
Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno
Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos
No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome
Mia Couto
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julho 26, 2006
A vida deve ser bebida
Estou
E num breve instante
Sinto tudo
Sinto-me tudo
Deito-me no meu corpo
E despeço-me de mim
Para me encontrar
No próximo olhar
ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão
nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira
A vida (ensinaram-me assim)
Deve ser bebida
Mia Couto
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julho 25, 2006
Dias meus
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.
(...)
Alberto Caeiro
Ao som de Samuel Barber - Adagio for Strings
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julho 23, 2006
Sem titulo
sempre temos alguma coisa a aprender uns dos outros
posso começar? o vento está sempre ao serviço de
deus e morrer hoje em dia já não é tão mau como isso.
é verão. creio que está calor: gostamos de ficar assim
conversando à porta do número catorze acerca dos
mil e um truques das mulheres (muito haveria a dizer
dos truques das mulheres) da velocidade das chuvas
da nomenclatura do amor (cheiros que o tabaco
traz: imagens infidelidades as intenções) tudo. há
quem diga: em agosto o canto dos lábios fica mais
solto (diz-se: perde-se em falas facilmente) mas
por aqui não há já quem acredite em ilhas desertas.
um dia passa chega outro depois outro e sempre temos
alguma coisa a saber uns dos outros: alguma coisa
João Luís Barreto Guimarães in "Há Violinos na Tribo"
Publicado por ognid às 10:39 AM | | Comentários (0)
julho 22, 2006
Presídio
Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?
E o ventre, inconscientemente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
Vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!
David Mourão-Ferreira
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julho 21, 2006
Amanhã
Não me digam que espere, eu quero já.
Cedo era ontem, amanhã é tarde.
Capitão de navios que já não há,
não vou deixar que o tempo me deserde.
Portanto, agora!
Hoje é que eu sou no gume da navalha.
Todo o minuto de outra hora
é a margem-viagem que me falha.
Já é que eu sou – e não me peçam nada
para amanhã, que é tarde.
Larguei todo o meu pano à madrugada,
não vou deixar que o tempo me deserde.
Torquato da Luz
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julho 19, 2006
Soneto XLVI
De las estrellas que admiré, mojadas
por ríos y rocíos diferentes,
yo no escogí sino la que yo amaba
y desde entonces duermo con la noche.
De la ola, una ola y otra ola,
verde mar, verde frío, rama verde,
yo no escogí sino una sola ola:
la ola indivisible de tu cuerpo.
Todas las gotas, todas las raíces,
todos los hilos de la luz vinieron,
me vinieron a ver tarde o temprano.
Yo quise para mí tu cabellera.
Y de todos los dones de mi patria
sólo escogí tu corazón salvaje.
Pablo Neruda
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julho 18, 2006
Que é voar?
Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo,os pés?
Isso é que é voar?
Não.
Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre,leve,independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não -vivência
E isso é voar?
Não.
Voar é humano
é transitório , momentâneo...
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.
Ana Hatherly
Publicado por ognid às 12:28 PM | | Comentários (1)
julho 17, 2006
Parto sem dor
E agora eu vou-me embora
e embora a dor
não queira ir já embora
agora eu vou-me embora
e parto sem dor
E parto dentro de momentos
apesar de haver momentos
em que dentro a dor
não parte sem dor
Sérgio Godinho
Publicado por ognid às 11:15 AM | | Comentários (0)
julho 16, 2006
Impressão digital
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros com outros olhos,
Não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
Uns outros descobrem cores
Do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros, gnomos e fadas
Num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
António Gedeão
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julho 15, 2006
Hoje
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?
Ferreira Gullar
Publicado por ognid às 11:32 AM | | Comentários (0)
julho 14, 2006
Epitáfio
Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu luz ao dia
E apascentou a tarde
O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.
Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que
Possuiu a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar.
Vinicius de Moraes
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julho 13, 2006
Levar-te à boca
Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
Eugénio de Andrade
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julho 12, 2006
Confluência
Ter-te amado, a fantasia exata se cumprindo
sem distância.
Ter-te amado convertendo em mel
o que era ânsia.
Ter-te amado a boca, o tato, o cheiro:
intumescente encontro de reentrâncias.
Ter-te amado
fez-me sentir:
no corpo teu, o meu desejo
– é ancorada errância.
Affonso Romano de Sant'Anna
Publicado por ognid às 11:33 AM | | Comentários (1)
julho 11, 2006
Cadências

Amo-te por vezes
Em ritmo de blues
Numa cadência que embala
Com a suavidade que têm
B. B. King ou Gary Moore.
E o amor é calmo e lânguido
E o teu corpo uma guitarra
Que dedilho em gestos lentos.
Outras vezes amo-te
Com a raiva e o lado selvagem
Do rock de George Thorogood
Cantando "Bad to the Bone"
E o amor é fome insaciável
Impulso animal, predador
E o teu corpo alimento
Que procuro para o meu.
Mas quando por fim
O cansaço nos invade
E repouso nos teus braços
Amo-te em sons de Metallica
Sussurrando “Nothing else matters”
Enquanto o amor for assim.
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julho 09, 2006
Poema de amor
Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que ele não
te coubesse no dedo.
Jorge de Sousa Braga
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julho 08, 2006
O louco do espelho
Não conheço aquele homem infeliz,
Que me imita em movimentos afinados.
Mantém-se calado... Nada me diz,
Fita-me de olhos firmes mas cansados.
Encontro-o pela manhã, todos os dias!
Entra em minha casa silenciosamente,
Pergunto "Quem és? Por que me copias?"
Emudece! Olha-me e ignora-me de frente.
Será que as lágrimas lhe sufocaram a fala?
Tem aspecto esgrouviado, olhar vermelho,
Que amarguras serão aquelas que cala
O homem estranho que aparece no espelho?
Um dia, escorria sangue do meu rosto.
Encontrei-o. O sangue escorria-lhe também!
Cerrei as mãos, esmurrei-o com gosto,
Desfi-lo em cacos... tornou-se ninguém!
Publicado por ognid às 11:52 AM | | Comentários (0)
julho 07, 2006
Da ausência
Esta noite poderia escrever-te os versos mais tristes
como Pablo Neruda
ou dizer-te da minha recorrente vontade de ir a Samarcanda
como Bernardo Soares
diversa apenas a vontade de ir a Samarcanda
porque a tua presença me seria imprescindível
eu que nem mesmo sei que língua falam hoje em Samarcanda
ou o que por lá estará hoje acontecendo
Porque a tua ausência te cala em mim
poderia mesmo escrever-te uma carta de amar
que gritasse dentro de mim a tua ausência
e que no voo tangente das palavras
todos achariam ridícula
só eu não
- e daí quem sabe? -
Poderia imaginar-te silhueta
por entre silhuetas de pinheiros
feita de bilros e devaneios da Lua Cheia
derramando-se de luz ao longo de todo o mar
até tropeçar com o areal
e a terra toda
até envolver todos os amantes
que à beira-mar se consumam
como se o tempo se lhes acabasse ali como a terra
ou apenas se desesperam no amor
como se amassem apenas porque se procuram
quando o areal barra a luz fluida vertida pela Lua
poderia dançar contigo um tango argentino
conduzir-te na volúpia dessa dança
que
conforme dizem
ao homem compete conduzir
apenas para
e por uma vez só
te conduzir
eu de negro
Gardel
Terrível e alucinado
e tu
o teu vestido vermelho
rasgado com uma faca de seda
ambos efémeros, diáfanos e amantes
... se eu soubesse dançar
Ah, se eu soubesse dançar!
Poderia até tentar dizer-te um poema
que me impressionasse
apenas por te impressionar
um poema que falasse de Neruda
de Bernardo Soares
e de silhuetas diluídas nos pinheiros
mas que tivesse um lugar íntimo
para as estrelas de outros céus imaginados
luas
amores
e areais de vento
um lugar que nos enleasse no ritmo das marés
e seríamos românticos e dramáticos personagens de Pratt
solitários navegantes numa paixão de quimeras
Maltese com um brinco a preto e branco
vendo o Sol poente enfunando as nossas velas
com cores de luz que o Sol traz do mundo todo
E é por isso
que aqui estou
perto de ti
tenho as mãos quase cheias de nada para te dar
mas tenho um mar que não é meu
e um poema
sinto a Lua que nos foge entre os pinheiros
sinto ânsias de enleio em doce tango argentino
e hei-de sentir-te junto a mim em Samarcanda
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julho 06, 2006
Eu sei, não te conheço, mas existes ...
Eu sei, não te conheço mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.
Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.
Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
Porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto.
Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo.
Joaquim Pessoa
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julho 05, 2006
Nada que seja...
Nada que seja iluminado nesta noite,
ilha remota, no esplendor do oceano,
nem o teu corpo alcantilado, sob as estrelas,
me tornará no mais ditoso ser humano.
Nem o teu rosto, imponderável, nas estrelas,
nem o terror, imprevisível, do engano,
nada que seja iluminado, nesta noite,
me tirará a condição de ser humano.
Nem o teu corpo, iluminado, nesta noite,
na profundeza alcantilada, do oceano,
nem o vento transviado, o seu açoite,
extinguirá este terror de ser humano.
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junho 28, 2006
Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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junho 23, 2006
A bunda que engraçada
A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
rebunda.
Carlos Drummond de Andrade
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maio 31, 2006
País de Abril
São tristes as cidades sob a chuva
E as canções que se atiram contra as grades
- a minha pátria vestida de viúva
entre as grades e a chuva das cidades.
É triste o cão que ladra no canil
Quando é março ou abril e lhe prendem as pernas
É triste a primavera no País de Abril
- minha pátria perfil de mágoas e tabernas.
É triste: uns vestem-se de abril outros de trapos.
Tu ó estrangeiro é só por fora que nos olhas
- a minha pátria bordada de farrapos
capa de trapos remendada a verdes folhas.
Abril tão triste no País de Abril. Por fora
é tudo verde. (Abril com máscaras de festa).
Por dentro – minha pátria a rir como quem chora.
(A festa da tristeza é tudo quanto lhe resta).
Abril tão triste no País de Abril. Aqui
A noite aqui a dor meninos velhos
- minha pátria a chorar como quem ri
em surdina em silêncio. E de joelhos.
Manuel Alegre in "Praça da Canção"
Nota: o site tem vindo a ser actualizado com mais fotos das comemorações do 25 de Abril bem como, mais devagar, noutras áreas.
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maio 29, 2006
Data
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça
Sophia de Mello Breyner Andresen
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Ilegais
Tira a aliança do dedo. O gozo
é redobrado se
nos sinto ilegais. Porque
esse
aro dourado concede-te
direito a mim
não há pecado assim:
o meu
nome em ti o
teu
nome em mim
e
essa data gravada em que assinamos
de Cruz
o arbítrio da união.
As
mãos procuram respostas como
quem ergue rosas pelo espinho:
tira a aliança do dedo. Se
esta lei é sagrada nós
somos apenas mortais precisamos
de pecado:
vamos
dormir ilegais.
João Luís Barreto Guimarães in "Rés-do-Chão"
Publicado por ognid às 03:07 PM | | Comentários (0)
maio 22, 2006
Inscrição para um portão de cemitério
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!"
Mário Quintana
Publicado por ognid às 02:42 PM | | Comentários (0)
maio 03, 2006
Olhos nos olhos
Queria que visses com os meus olhos
E vendo pelos meus olhos
Visses os teus.
Queria que te visses como eu te vejo
E que os olhos se acendessem em desejo
Como o teu corpo acende os meus.
Queria que visses com os meus olhos
A cor que os teus olhos têm
Reflectidos nos meus.
Encandescente in "Erotismo na cidade", Edições Polvo
A propósito já encomendaram o livro?
Publicado por ognid às 07:15 PM | | Comentários (0)
abril 28, 2006
Andorinhas
A presença juvenil
das andorinhas,
faz esconder o Inverno,
entre lençóis.
Publicado por ognid às 10:13 AM | | Comentários (2)
abril 27, 2006
Hello
playground school bell rings again
rain clouds come to play again
has no one told you she's not breathing?
hello i'm your mind giving you someone to talk to
hello
if i smile and don't believe
soon i know i'll wake from this dream
don't try to fix me i'm not broken
hello i'm the lie living for you so you can hide
don't cry
suddenly i know i'm not sleeping
hello i'm still here
all that's left of yesterday
Evanescence
Clicar para ouvir
Publicado por ognid às 07:32 PM | | Comentários (0)
abril 17, 2006
Não posso adiar o amor

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.
António Ramos Rosa


Fotos: Alexandra Bernardo no espectáculo Branco e Vermelho
Publicado por ognid às 08:07 PM | | Comentários (0)
abril 15, 2006
Tu gitana
Tu gitana que adivinhas
Me lo digas, poes no lo sê
Se saldre dessa aventura
Ô si nela moriré
Ô si nela perco la vida
Ô si nela triumfare
Tu gitana que adivinhas
Me lo digas, poes no lo sê
Cancioneiro de Vila Viçosa. Cantado pelo Zeca Afonso.
Publicado por ognid às 12:38 PM | | Comentários (1)
abril 12, 2006
O insecto
Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem.
Sou mais pequeno que um insecto.
Percorro estas colinas,
são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos
que só eu conheço,
centímetros queimados,
pálidas perspectivas.
Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo humedecido!
Pelas tuas pernas desço
tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem
e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda
como os ásperos cumes
dum claro continente.
Para teus pés resvalo
para as oito aberturas
dos teus dedos agudos,
lentos, peninsulares,
e deles para o vazio
do lençol branco
caio, procurando cego
e faminto teu contorno
de vaso escaldante!
Pablo Neruda
Publicado por ognid às 10:01 AM | | Comentários (0)
abril 08, 2006
De morte alguma se diga...
De morte alguma se diga
que é apenas transitória. E talvez seja
melhor assim: sem a surda
dolência das palavras, dos acenos,
a querer atenuar
esta irremediável ausência
a mágoa mortal da partida.
Por mais difícil que seja
recordar-te é sempre aqui
entre medronhos e cálices vazios
que te sinto, que te sorvo
sem curar de saber
no mapa ou na geografia das datas
o rumo que tomas
o perfil com que surges
coberta de musgo e flores de Maio
em cada porta que se abre.
E que nunca em nós abrande
este amor que nos liga
aos frutos, às sementes, aos amigos,
este saber dar o que temos
dentro do peito aconchegado:
o sorriso, a carícia,
o imperceptível beijo
ao despertar. E assim
por nós vão passando os anos,
inumeráveis rugas e vestígios
deste tempo que se muda
para além do que sabemos.
E que neste jeito de mudança
nunca as mãos deixem
de sentir o mundo
alucinante e veloz
agitando-se em redor.
José Jorge Letria in Os dias contados
Publicado por ognid às 12:22 PM | | Comentários (0)
abril 06, 2006
Recorriéndote
Quiero morder tu carne,
salada y fuerte,
empezar por tus brazos hermosos
como ramas de ceibo,
seguir por ese pecho con el que sueñan mis sueños
ese pecho-cueva donde se esconde mi cabeza
hurgando la ternura,
ese pecho que suena a tambores y vida continuada.
Quedarme allí un rato largo
enredando mis manos
en ese bosquecito de arbustos que te crece
suave y negro bajo mi piel desnuda
seguir después hacia tu ombligo
hacia ese centro donde te empieza el cosquilleo,
irte besando, mordiendo,
hasta llegar allí
a ese lugarcito
-apretado y secreto-
que se alegra ante mi presencia
que se adelanta a recibirme
y viene a mí
en toda su dureza de macho enardecido.
Bajar luego a tus piernas
firmes como tus convicciones guerrilleras,
esas piernas donde tu estatura se asienta
con las que vienes a mí
con las que me sostienes,
las que enredas en la noche entre las mías
blandas y femeninas.
Besar tus pies, amor,
que tanto tienen aun que recorrer sin mí
y volver a escalarte
hasta apretar tu boca con la mía,
hasta llenarme toda de tu saliva y tu aliento
hasta que entres en mí
con la fuerza de la marea
y me invadas con tu ir y venir
de mar furioso
y quedemos los dos tendidos y sudados
en la arena de las sábanas.
Gioconda Belli - Nicarágua
Publicado por ognid às 10:48 AM | | Comentários (0)
abril 03, 2006
Da espera
Dias de espera
De telefones que não tocam
De notícias que não chegam
De silêncio que ensurdece.
Horas de espera
Em que a angústia cresce
O peito se enrola em nó que sufoca
E a imaginação voa em negros céus.
Minutos de espera
Em que o tempo se distorce
E segundos são minutos
E minutos são horas
E horas são dias…
De espera.
Ognid
Publicado por ognid às 08:06 PM | | Comentários (1)
março 28, 2006
Tango
Dança comigo uma dança latina.
Qualquer uma.
vermelha
quente
sensual.
Apenas nós numa pista de dança
madeiras velhas
candeeiros quebrados
ambiente vermelho
orquestra decrépita.
Deixa-me agarrar-te
guiar-te os passos
rodopiar contigo
dobrar-me sobre ti
suspender o tempo
quase beijar-te.
Recomeçar
e repetir
até que os nossos corpos
suados de desejo e de cansaço
rubros do esforço
nos obriguem a parar.
Ognid
Publicado por ognid às 08:12 PM | | Comentários (1)
Cântico negro
"Vem por aqui" – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho os com olhos lassos,
(Há nos meus olhos ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: "Vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre nas vossas veias sangue velho dos avós.
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
– Sei que não vou por aí!
José Régio
Publicado por ognid às 03:02 PM | | Comentários (0)
março 27, 2006
"Palavras de um avestruz todo gris"
Arrancam-me as penas
E eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.
E, se quisesse,
Podia
Morder-lhes as mãos morenas,
A esses que sem piedade
Me roubam estas penas que me cobrem;
E, no entanto,
Sem o mais breve gemido,
O meu corpo
Vai ficando
Desguarnecido...
E, elas,
Aquelas
Que se enfeitam, doidamente,
Com estas penas formosas
- Que são minhas!
Passam por mim, desdenhosas,
Em gargalhadas mesquinhas.
Sim; eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.
António Botto
Publicado por ognid às 04:08 PM | | Comentários (0)
março 26, 2006
Self-service
Entre o desejo e o medo
de perdas irreparáveis,
a moralista e seu dedo
tornaram-se inseparáveis.
Vera Maya
Publicado por ognid às 04:33 PM | | Comentários (0)
março 23, 2006
Quando o amor morrer
Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobra as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonho que gelaram.
Ruy Cinatti
Publicado por ognid às 02:52 PM | | Comentários (0)
março 22, 2006
A meias
Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu ?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo
um cigarro e tu fumas do
meu cigarro dizes
"tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha" por isso
fumas do meu. Dá-te
gozo esse roubar
de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.
Publicado por ognid às 07:25 PM | | Comentários (0)
março 21, 2006
Dia mundial da poesia
Ary pariria o poema:
Nasce nas veias o poema
E agiganta-se
Filho no ventre
Sangue que corre
Poema volume
Convulsão.
Poema
Sémen palavra
Corpo êxtase
Loucura
Parto
Construção.
Florbela suspiraria o poema:
Ai… Esta inquietude este desassossego
Que me faz pegar na pena.
Ai… Que penosos são os versos
E que penas, meu amor,
Penando te descrevo.
Ai… E assim penando permaneço
Na tristeza me aconchego
E no canapé, meu amor,
Quando a pena repouso
Desfaleço...
Pessoa questionaria o poema:
Se poesia é aquilo que sinto
Será poema aquilo que escrevo?
E o que esqueço
E o que omito
E se minto?
Se não fica tudo escrito
Será poesia o que sinto
Ou mera reflexão afinal?
Torga faria da Pátria poema:
Um poema nasce
Nos campos da minha Pátria.
Agreste é a paisagem
Forte o poema que cresce
Nos campos da minha Pátria.
Livre o poema ergue-se
E no céu sereno parte
...
Fica a Pátria!
Publicado por ognid às 02:15 PM | | Comentários (0)
março 20, 2006
Girândolas de fogo
Do céu escuro caem estrelas de metal fundido
Girândolas de fogo rodopiam no seu rasto
O ar queima
a terra estremece
levanta-se o vento
Sentimos o galopar dos cavaleiros
No ar que vibra com os cascos das montadas.
Acordo em pavor.
Olho pela janela para a rua.
À luz dos candeeiros estrelas os cavaleiros colhem as vítimas
Do apocalipse nosso do dia a dia.
Deito-me
abraço-te.
Amanhã é o mesmo dia
Com uma noite pelo meio.
ognid
Publicado por ognid às 07:51 PM | | Comentários (1)
março 16, 2006
Diecisiete haiku
1
Algo me han dicho
la tarde y la montaña.
Ya lo he perdido.
2
La vasta noche
no es ahora otra cosa
que una fragancia.
3
¿Es o no es
el sueño que olvidé
antes del alba?
4
Callan las cuerdas.
La música sabía
lo que yo siento.
5
Hoy no me alegran
los almendros del huerto.
Son tu recuerdo.
6
Oscuramente
libros, láminas, llaves
siguen mi suerte.
7
Desde aquel día
no he movido las piezas
en el tablero.
8
En el desierto
acontece la aurora.
Alguien lo sabe.
9
La ociosa espada
sueña con sus batallas.
Otro es mi sueño.
10
El hombre ha muerto.
La barba no lo sabe.
Crecen las uñas.
11
Ésta es la mano
que alguna vez tocaba
tu cabellera.
12
Bajo el alero
el espejo no copia
más que la luna.
13
Bajo la luna
la sombra que se alarga
es una sola.
14
¿Es un imperio
esa luz que se apaga
o una luciérnaga?
15
La luna nueva
ella también la mira
desde otro puerto.
16
Lejos un trino.
El ruiseñor no sabe
que te consuela.
17
La vieja mano
sigue trazando versos
para el olvido.
Jorge Luis Borges
Publicado por ognid às 02:22 PM | | Comentários (1)
março 14, 2006
Conheço o sal...
Conheço o sal da tua pele seca
Depois que o estio se volveu inverno
De carne repousada em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
Quando das bocas se estreitavam lábios
E o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
Os louros ou cinzentos que se enrolam
Neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minhas mãos
Como nas praias o perfume fica
Quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal
Da tua língua, o sal de teus mamilos,
E o da cintura se encurvando de ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
Ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
Um cristalino pó de amantes enlaçados.
Jorge de Sena
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março 13, 2006
Os cinco sentidos
São belas - bem o sei, essas estrelas
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho amor, olho para elas;
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!
Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti - a ti!
Respira - n'aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti - de ti!
Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos,
E só de ti - de ti!
Macia - deve a relva luzidia
Do leito - se por certo em que me deito;
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti - em ti!
A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.
Almeida Garrett in Folhas Caídas
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março 10, 2006
Poesia #29
Ausencia
Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.
Jorge Luis Borges
Publicado por ognid às 03:22 PM | | Comentários (0)
março 07, 2006
Tarde de Outono
Há tardes de Outono, límpidas como esta,
de silhuetas definidas claramente,
em que o sol se concentra em cada coisa
e cada coisa lhe responde claramente.
Pois no Verão, de tanta luz o ar vacila,
pérolas brancas deslizam no olhar
e o revérbero da luz torna indistinto
o percurso desinquieto do olhar.
Num jardim, de luz e jogos de água,
quatro velhos batem cartas sobre a mesa,
talvez a morte não chegue nessa tarde,
se baterem forte as cartas sobre a mesa.
Já os cisnes escondem o bico na plumagem,
e os velhos batem cartas, contra a morte,
lembram estórias de vidas longas e inúteis,
e mesmo assim, esperam calmos, pela morte.
Cai o dia, guardam as cartas na algibeira,
esvai-se a luz, finda a conversa, naturalmente,
gastou-se o jogo e a companhia, esgotou-se o dia,
esperam a morte, um destes dias, naturalmente...
Poema lido, brilhantemente, pelo José Fanha no encontro Poesia nos blogs
Publicado por ognid às 07:25 PM | | Comentários (0)
março 03, 2006
Da revista Vértice #7
Ouço o incêndio, as fábricas. O berço
do suor interrupto. Ouço às vezes quem se ama
onde o amor não há - apenas morre
no clandestino abrir.
Ouço às vezes quem rompe os mapas cerce
e então na noite recupera as loucas
emigrações da história. Ouço crescendo
lentamente os filhos no rancor e na linfa.
Astuciosamente recolhendo as vastidões adversas.
Ouço em momentos fartos o entulho,
desdobrada a raiz, fundar o mês da heresia,
a sábia recriação do sumo.
Ouço o arado, a luz. Profundamente
os barcos segregados na propensão do mar.
Ainda quem a medo desagregue
a centenária paz:
- os homens,
onde os ouço, aqui recordo
as origens compradas do terror.
Os homens, onde os ouço, aqui confirmo
suas mãos.
Hélia Correia in Vértice nº 399, Junho de 1971
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março 02, 2006
poesia #28
Escavação
Numa ânsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.
Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...
Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez de fogo...
-Onde existo que não existo em mim?
....................................................
....................................................
Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d'amor sem bocas esmagadas -
Tudo outro espasmo que principio ou fim...
Mário de Sá-Carneiro
Publicado por ognid às 02:48 PM | | Comentários (2)
março 01, 2006
Um dia
Um dia acordarei e não direi o teu nome
Não te procurarei
Em todos os rostos que passam
As minhas mãos esquecerão as tuas
E o teu cheiro não será o meu.
Um dia esquecer-te-ei
Abrirei o peito
E arrancar-te-ei de dentro
Esfregarei o corpo
Maltratá-lo-ei
Até não restar um sinal teu.
Um dia adormecerei
E dormirei sozinha
Sem o teu rosto nos olhos
E o teu corpo nas mãos.
Um dia…
Esquecer-te-ei
Esquecer-me-ei
Um dia
Deixarei de ser eu.
Poema da Encandescente
Publicado por ognid às 08:00 PM | | Comentários (0)
fevereiro 17, 2006
poesia #25
Five o'clock tear
Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
p'ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora
Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la
E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito
E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos
E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio
do silêncio colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes
Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada
Emanuel Félix in «A Palavra O Açoite»
Publicado por ognid às 02:49 PM | | Comentários (0)
fevereiro 15, 2006
poesia #24
SONETO XCII
Amor mío, si muero y tú no mueres,
no demos al dolor más territorio:
amor mío, si mueres y no muero,
no hay extensión como la que vivimos.
Polvo en el trigo, arena en las arenas
el tiempo, el agua errante, el viento vago
nos llevó como grano navegante.
Pudimos no encontrarnos en el tiempo.
Esta pradera en que nos encontramos,
oh pequeño infinito! devolvemos.
Pero este amor, amor, no ha terminado,
y así como no tuvo nacimiento
no tiene muerte, es como un largo río,
sólo cambia de tierras y de labios.
Pablo Neruda
Publicado por ognid às 02:30 PM | | Comentários (0)
fevereiro 13, 2006
poesia #23
Vaidosa
Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.
Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.
Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração como as estátuas.
E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.
Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loira e doirada como as messes,
E possuis muito amor... muito amor próprio.
Cesário Verde
Publicado por ognid às 03:11 PM | | Comentários (0)
fevereiro 12, 2006
Fidelidade
Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.
Jorge de Sena
Publicado por ognid às 08:11 PM | | Comentários (0)
fevereiro 10, 2006
poesia #22
Las seis cuerdas
La guitarra,
hace llorar a los suenos.
El sollozo del as almas
perdidas,
se escapa por su boca
redonda.
Y como la tarantula
teje una gran estrella
para cazar suspiros,
que flotan en su negro
aljibe de madera.
Frederico Garcia Lorca
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fevereiro 09, 2006
Em legítima defesa
Sei hoje que ninguém antes de ti
morreu profundamente para mim
Aos outros foi possível ocultá-los
na sua irredutível posição horizontal
sob a capa da terra maternal
Choramo-los imóveis e voltamos
à nossa irrequieta condição de vivos
Arrumamos os mortos e ungimo-los
São uma instituição que respeitamos
e às vezes lembramos celebramos
nos fatos que envergamos de propósito
nas lágrimas nos gestos nas gravatas
com flores e nas datas num horário
que apenas os mate o estritamente necessário
mas decerto de acordo com um prévio plano
tu não só me mataste como destruíste
as ruas os lugares onde cruzámos
os nossos olhos feitos para ver
não tanto as coisas como o nosso próprio ser
A cidade é a mesma e no entanto
há portas que não posso atravessar
sítios que me seria doloroso outra vez visitar
onde mais viva que antes tenho medo de encontrar-te
Morreste mais que todos os meus mortos
pois esses arrumei-os festejei-os
enquanto a ti preciso de matar-te
dentro do coração continuamente
pois pressegues de pé sobre este solo
onde um por um perigo os meus fantasmas
e tu és o maior de todos eles
não suporto que nada haja mudado
que nem sequer o mais elementar dos rituais
pelo menos marcasse em tua vida o antes e o depois
forma rudimentar de morte e afinal morte
que por não teres morrido muito mais tenhas morrido
Se todos os demais morreram de uma morte de que vivo
tu matas-me não só rua por rua
nalguma qualquer esquina a qualquer hora
como coisa por coisa dessas coisas que subsistem
vivas mais que na vida vivas na imaginação
onde só afinal as coisas são
Ninguém morreu assim como morreste
pois se houvesse morrido tudo estava resolvido
Os outros estão mortos porque o estão
Só tu morreste tanto que não tens ressurreição
pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
onde antes te encontrava e te possa encontrar
e ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e vives sempre mais
Ruy Belo
Publicado por ognid às 08:21 PM | | Comentários (1)
fevereiro 08, 2006
poesia #21
Acordar, viver
Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?
Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?
Ninguém responde, a vida é pétrea.
Carlos Drummond de Andrade
Publicado por ognid às 02:44 PM | | Comentários (0)
fevereiro 07, 2006
As facas
Quatro letras nos matam quatro facas
que no corpo me gravam o teu nome.
Quatro facas amor com que me matas
sem que eu mate esta sede e esta fome.
Este amor é de guerra. (De arma branca).
Amando ataco amando contra atacas
este amor é de sangue que não estanca.
Quatro letras nos matam quatro facas.
Armado estou de amor. E desarmado.
Morro assaltando morro se me assaltas
E em cada assalto sou assassinado.
Quatro letras amor com que me matas.
E as facas ferem mais quando me faltas.
Quatro letras nos matam quatro facas.
Manuel Alegre
Publicado por ognid às 08:35 PM | | Comentários (0)
janeiro 19, 2006
Estatutos

Os Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony
Artigo I. Fica decretado que agora vale a verdade. que agora vale a vida, e que de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II. Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III. Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV. Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo Único: O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino.
Artigo V. Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
Artigo VI. Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII. Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII. Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX. Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X. Fica permitido a qualquer pessoa, a qualquer hora da vida, o uso do traje branco.
Artigo XI. Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo. muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII. Decreta-se que nada será obrigado nem proibido. tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.
Artigo XIII. Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.
Artigo Final. Fica proibido o uso da palavra liberdade. a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.
Santiago do Chile, abril de 1964
Thiago de Mello
Trabalho sobre foto de Stanmarek
Publicado por ognid às 07:41 PM | | Comentários (1)
janeiro 18, 2006
Regresso, agora...
Regresso, agora, ao tempo em que o rio
corria azul, como os meus dias,
e fixo, no céu trémulo de gaivotas,
o perfil negro e rigoroso dos navios.
Oh! Navios esquecidos, aviltados no lodo,
quem soltará as fatais amarras a que vos prenderam,
apodrecendo na mágoa,
pelos séculos, na mágoa, flutuando...
Estridências de sirenes,
soluços sincopados da máquina,
calem o marulho das vagas contra os cascos
que definham, perdidos, entre marés...
Buzinas de nevoeiro,
sinos de convés,
abafem o murmúrio sussurrado nas amuras
e sufoquem este silêncio, pródomo da morte!
Solidão nocturna, guardada no peito,
voa sobre o rio que esta lua envelheceu,
que o vento te leve, por entre ondas fosforecentes,
até te perderes no mar, coberta de cinza e prata.
Poema do Manuel Filipe
Publicado por ognid às 07:37 PM | | Comentários (0)
janeiro 15, 2006
Estrela da tarde
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!
José Carlos Ary dos Santos
Publicado por ognid às 10:54 AM | | Comentários (0)
janeiro 13, 2006
Arco-íris
O sol, dia após dia, não queimava
o meu corpo soturno e sombrio.
E eu tão só, almejando um mar de lava
que me abrasasse o coração vazio...
A cada noite a lua minguava,
no meu quarto, crescente só o frio.
E eu ansiando a luz que fosse escrava
dum farol que orientasse o meu navio...
Foi então que te vi, de sete cores,
avivando o meu céu, serena e nua,
num arco que apagou todas as dores.
Encheste de clarões a minha rua,
cobriste a minha cama de mil flores,
tornaste-te meu sol e minha lua.
Soneto do Fernando "Cidadão do Mundo"
Publicado por ognid às 07:39 PM | | Comentários (3)
janeiro 12, 2006
Solidão e sombra
Passei pelo fogo atravessei as chamas
ardi muito em fornalha de inferno
- mas ia com a minha solidão.
Venci enchentes chafurdei na lama
senti as dores reais de se ser chão
apeteci ripostar uivar até matar
rangi os dentes gritei e ergui depois
a alma maltratada até onde onde podia
- mas ia com a minha solidão.
Nasci sozinha para viver sozinha
(não o permitiu assim a força do viver)
amo esta capa que me veste desde a hora
em que a mãe me pariu com a imensa raiva
de quem nunca me quis dentro de si.
- Ah, como eu amo a minha solidão!
Mas nunca estou sozinha, que o não posso
não o deixa esta sombra que caminha
vá eu aonde for, na minha frente
tão fiel tão silente tão constante
tão a indicar caminho como o é
o cão de um cego na trela do seu dono.
Vivo com a sombra e a minha solidão.
Poema da Paper Life
Publicado por ognid às 08:43 PM | | Comentários (1)
janeiro 10, 2006
Cântico negro
Sobre o lampadário estilhaçado, há um sussurro de
sílabas ou folhas mortas. Outros fragmentos negros
inflamam este delírio:
- Pássaros de cinza, com olhos espantados.
Quando a cerimónia terminar estarei só. Despojado
de tudo, até dos outros. Num circo de pedra,
onde facas de gelo, ferem mais e mais.
Uma marcha fúnebre (um tambor de lata)
será o meu legado.
A noite balbucia, estou desperto.
Ferozmente desperto, ou à beira da loucura.
Não sei quem por mim fala, mas nem um corvo
poisado no peito agita as asas
e está vivo e vigilante.
Poema de Manuel Filipe. Não deixe de visitar o blog e aproveite para comprar o livro.
Publicado por ognid às 08:09 PM | | Comentários (1)
janeiro 09, 2006
Cigarro
Acender um cigarro
Vê-lo arder
A chama a brilhar
Diminuir.
Durar exactamente
O tempo que dura um cigarro
Brilhar como chama
Extinguir-me
Apagar-me
E como as cinzas de um cigarro
Desaparecer assim
Como se nunca tivesse existido
Como se nunca tivesse brilhado.
Eu
O meu cigarro que agora apago.
Poema da Encandescente. A propósito, já compraram o livro?
Publicado por ognid às 07:11 PM | | Comentários (1)
dezembro 28, 2005
De novo a rua...
De novo a rua...
Desperta livre, em mim, sangue vadio,
corro vielas, respiro o rio,
falta-me a noite,
vivo a Lua!
É preciso esquecer, por mais que custe,
Rebentar de esquecimento!
Tragar a taça do veneno num momento,
sacudir o desengano e o embuste!
Esgotemos então o fel da amargura
e deixemos morrer a primavera...
Para quê ficar a vida à espera,
se o sonho está morto e não perdura...
E, por isso, bebamos companheiros!
Ao funeral dos ideais com que vivemos,
aos grandes projectos que perdemos,
aos miseráveis, aos amigos verdadeiros!
Manuel Filipe
Publicado por ognid às 07:26 PM | | Comentários (0)
dezembro 27, 2005
jardins de pedra
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêm?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
"Devia morrer-se de outra maneira" de José Gomes Ferreira
Publicado por ognid às 07:38 PM | | Comentários (0)
dezembro 21, 2005
Soneto VI
En los bosques, perdido, corté una rama oscura
y a los labios, sediento, levanté su susurro:
era tal vez la voz de la lluvia llorando,
una campana rota o un corazón cortado.
Algo que desde tan lejos me parecía
oculto gravemente, cubierto por la tierra,
un grito ensordecido por inmensos otoños,
por la entreabierta y húmeda tiniebla de las hojas.
Pero allí, despertando de los sueños del bosque,
la rama de avellano cantó bajo mi boca
y su errabundo olor trepó por mi criterio
como si me buscaran de pronto las raíces
que abandoné, la tierra perdida con mi infancia,
y me detuve herido por el aroma errante.
Pablo Neruda in Cien sonetos de amor
Publicado por ognid às 08:12 PM | | Comentários (0)
dezembro 20, 2005
rosie
Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.
Reinaldo Ferreira
Publicado por ognid às 07:55 PM | | Comentários (1)
dezembro 19, 2005
o gato
O gato é secreto.
Tece com calma o mistério do mundo.
O gato é elétrico.
Pura energia a percorrer a espinha.
O gato é orgulho.
Sem humildade, jamais se entrega.
O gato é desejo.
Atração pela lua e telhados.
O gato é sagrado.
Olho no olho que brilha.
....
Donizete Galvão
Publicado por ognid às 08:06 PM | | Comentários (0)
dezembro 18, 2005
Sonhos
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
....
Fernando Pessoa in Tabacaria
Publicado por ognid às 07:41 PM | | Comentários (0)